quarta-feira, julho 28, 2021

Receita cobra impostos e multa de Ciro Nogueira por suposta propina recebida

 Foto: Gabriela Biló/Arquivo/Estadão

Ciro Nogueira28 de julho de 2021 | 06:47


A Receita Federal autuou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e cobrou impostos e multa sobre valores suspeitos de serem recebidos como propina.

Procedimento de fiscalização do órgão assinado em 2018 concluiu que o senador, novo chefe da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro, não declarou ao fisco em 2014 R$ 1,4 milhão pago pela empreiteira UTC em esquema alvo da Operação Lava Jato e outros R$ 5 milhões repassados pelo frigorífico JBS.

Para demonstrar essa tese, os auditores mencionaram diversas movimentações financeiras em dinheiro vivo feitas pelo político e pessoas próximas na época.

O senador, presidente desde 2013 do PP, um dos principais partidos implicados na Lava Jato, recorreu junto ao Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), órgão vinculado ao Ministério da Economia.

A Folha questionou a pasta sobre o estágio de análise desse recurso, e a resposta foi que o Carf não se manifesta sobre processos específicos que constam em seu acervo. Também não informou quanto foi cobrado.

O relatório dos auditores foi anexado em inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal que apura os repasses da JBS ao senador. No início de 2019, ele foi alvo de uma operação da PF dentro dessa investigação, batizada de Compensação. Na ocasião, foram encontrados em endereço dele em Teresina US$ 33,5 mil (equivalente a R$ 173 mil em valores atuais). A investigação criminal ainda não foi encerrada.

O procedimento da Receita afirma que o político foi questionado sobre a movimentação das quantias e que “abdicou de apresentar” explicações.

A principal movimentação em espécie mencionada pelos auditores foi o pagamento em outubro de 2014 de R$ 445 mil em custas do inventário do pai do político, que havia morrido no ano anterior. A transação, feita por um irmão do senador, Raimundo, foi confirmada pela família em depoimentos.

A apuração também lista, por exemplo, depósitos em dinheiro vivo em sua conta que somaram quase R$ 60 mil ao longo de 2014 e pagamentos de despesas pessoais feitas dessa maneira. Há menções a pagamentos efetuados por ele de R$ 20 mil a uma loja de veículos importados, em São Paulo, e outros R$ 2.460 em uma concessionária, no DF.

“Não é razoável acreditar que indivíduos esclarecidos e sem a necessidade de esconder a real origem de suas rendas optariam por transitar com valores significativos em espécie, abdicando da segurança e da celeridade de transações bancárias”, diz o documento.

O porte de dinheiro em espécie não é ilegal. Investigadores, porém, veem essa prática como uma maneira de ocultar a origem de recebimentos ilícitos.

Ciro Nogueira declarou possuir R$ 180 mil em dinheiro vivo na mais recente eleição que disputou, em 2018.

Em outro trecho, a fiscalização também questionou recebimentos de quantias por um assessor parlamentar e identificou transferências dele para o senador, no valor de R$ 11 mil, sem que houvesse qualquer motivação.

Os fiscais também levantam suspeitas de irregularidades sobre transações de imóveis de empresas do congressista. Mencionam, por exemplo, a compra de um imóvel declarada por R$ 75 mil, mas que custou de fato R$ 500 mil.

Diz ainda que a companhia CNLF Empreendimentos Imobiliários buscou camuflar a movimentação de R$ 1,2 milhão na negociação de um outro imóvel, também em 2014.

Os auditores suspeitaram de que a prática representasse uma transação “preparatória a lavagem de dinheiro”.

O relatório fala ainda em “contabilidade paralela” nas empresas, incluindo saída de recursos não contabilizada, e “confusão patrimonial” entre firmas dele e de parentes, como a mãe, Eliane, que é suplente no Senado e irá assumir a vaga quando ele se licenciar para chefiar o ministério.

“As verbas que beneficiaram Ciro Nogueira, legitimas vantagens indevidas, estão sujeitas à tributação pelo Imposto de Renda”, diz o documento.

Para chegar ao valor de R$ 5 milhões vindo da JBS, além da delação da empresa, a fiscalização fez uma apuração junto a uma rede de supermercados do Piauí onde pagamentos foram providenciados.

Segundo afirmam os delatores da JBS, o grupo empresarial combinava com supermercados pelo Brasil pagamentos pelos seus produtos em espécie e, a seguir, destinava as quantias diretamente a emissários dos políticos beneficiados.

No caso do Piauí, isso teria acontecido com a rede Comercial Carvalho. Dirigentes da varejista afirmaram que fizeram diversas entregas, por acordo com a JBS, para outro irmão do senador, Gustavo.

O valor de R$ 5 milhões consta em planilhas dessas entregas. Foram também pesquisadas notas fiscais emitidas pela JBS à rede mediante retiradas de valores em espécie.

Um trecho do relatório, que aborda os repasses da empreiteira UTC, diz que as análises das movimentações financeiras abordam universo diminuto por terem sido feitas por amostragem, embora o mérito seja qualitativo.

As conclusões da Receita foram incluídas em representação fiscal para fins penais encaminhada à Procuradoria-Geral da República. Essa é uma espécie de comunicação formal feita pelos fiscais de eventuais crimes verificados em trabalho de fiscalização tributária.

Ciro Nogueira exerce mandatos parlamentares desde 1995, quando assumiu mandato na Câmara dos Deputados. Desde 2011, é senador. Seu patrimônio declarado na eleição de 2018 foi de R$ 23,3 milhões —a maior parte é relativa à propriedade de uma revendedora de motocicletas.

Além do inquérito decorrente da delação da JBS, Ciro Nogueira já foi alvo de denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral que derivam da Operação Lava Jato.

Em 2020, a Procuradoria o acusou de receber propina de R$ 7,3 milhões da Odebrecht, em 2014 e 2015, em troca de atuação no Congresso em benefício da Braskem, braço petroquímico do grupo.

Em outra denúncia, a PGR acusou o senador, o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE) e o ex-deputado Márcio Junqueira (ex-filiado ao PP) por suposta tentativa de atrapalhar os trabalhos da Lava Jato. Nesse caso, a suspeita é de tentativa de comprar o silêncio de um ex-assessor que tem colaborado com os investigadores.

Neste ano, o parlamentar obteve uma vitória no Supremo com o arquivamento de denúncia na qual era acusado de integrar organização criminosa formada por líderes do PP.

OUTRO LADO
A Folha procurou a assessoria de Ciro Nogueira nesta terça-feira (27) e o questionou sobre o teor da fiscalização feita pela Receita Federal. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.

O senador sempre negou ter cometidos crimes, conforme foi apontado por investigadores da Lava Jato. Na semana passada, sua defesa na esfera criminal disse que ele foi colocado em foco de investigação quando havia uma “tendência de criminalização da política”.

Também disse que não há, nos inquéritos em trâmite no Supremo, “qualquer coisa que preocupe a defesa” e que o tempo exagerado nas análises das questões “faz com que exista um desequilíbrio entre os Poderes”.

Em depoimento à PF em 2019 na investigação criminal sobre os pagamentos da JBS, Ciro Nogueira disse que, como presidente do partido, procurou apoio financeiro de várias empresas do país na campanha eleitoral. Na época, as doações empresariais de campanha eram permitidas.

Disse que a planilha de pagamentos apresentada pelo grupo Comercial Carvalho, do Piauí, não tem “qualquer fundamento fático” e que não constava nenhum documento legal que a embasasse efetivamente.

Questionado sobre por que o dono da rede de supermercados, Reginaldo Carvalho, daria declarações sobre entrega de dinheiro vivo, o senador sugeriu que o empresário seria próximo da holding dona da JBS.

A reportagem não conseguiu localizar representantes da Comercial Carvalho para comentar o assunto.

Também em depoimento em 2019, Gustavo Nogueira disse que esteve na rede varejista para discutir assuntos de natureza empresarial e pessoal e negou que tenha ido retirar dinheiro em espécie no local.

Sobre o pagamento relacionado ao inventário do pai, disse na audiência que a quitação foi feita pela mãe, Eliane, que havia guardado valores anteriormente.

Procurada, a holding dona da JBS não se manifestou.

Felipe Bächtold/Folhapresshttps://politicalivre.com.br/

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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