sexta-feira, julho 30, 2021

Casamento fisiológico

 

Casamento fisiológico

Com Ciro Nogueira na Casa Civil, Bolsonaro quer barrar o impeachment, conter a CPI da Covid e garantir a sua reeleição. Vai apenas fortalecer o Centrão, grupo que deseja controlar a economia e o Orçamento, podendo abandonar o mandatário em 2022

Crédito:  Isac Nóbrega

CELEBRAÇÃO Ciro Nogueira e Jair Bolsonaro na inauguração de ponte sobre o Rio Parnaíba (PI): união conveniente para os dois (Crédito: Isac Nóbrega)

EM BAIXA O general Luiz Eduardo Ramos perdeu a cadeira e Paulo Guedes cedeu a pasta do Trabalho (Crédito:Adriano Machado)

“Chegamos ao fundo do poço e continuamos cavando. É o caos. Não tem como dar certo” Alvaro Dias, líder do Podemos

Para o presidente, o maior problema desse casamento é de imagem. Colocar o PP no coração do Planalto significa entregar a chave do cofre à legenda que esteve no centro dos escândalos do Mensalão e do Petrolão. Nogueira, implicado no esquema do “quadrilhão do PP”, é alvo de cinco inquéritos criminais, apesar de negar qualquer malfeito. Representa a negação da bandeira que elegeu Bolsonaro, a de enterrar o “toma lá, dá cá”. É exatamente o que se espera do novo ministro. Isso levou o mandatário a calibrar o discurso. Nas entrevistas que concede a rádios regionais para tentar recuperar a popularidade, ele se rendeu: “Eu sou o Centrão”. Reconheceu, tardiamente, sua origem no balcão de negócios do baixo clero no Congresso. Sobre os múltiplos processos dos seus aliados, também admitiu que é réu no STF. “Se tivesse de romper com políticos que são réus ou investigados, perderia metade do Parlamento”, afirmou, dando um cavalo de pau no mantra que sempre usou para sua base.

Há dúvidas se esse contorcionismo ideológico vai colar, especialmente no Congresso. Na visão de um senador, “acabar com a crença na nova política” pode terminar respingando na popularidade do presidente. “Chegamos ao fundo do poço e continuamos cavando. É o caos político. Vivemos um populismo corrupto, não tem como dar certo”, diz Alvaro Dias, líder do Podemos no Senado. Para o senador Fabiano Contarato (Rede), a tendência é de esvaziamento crescente da coalizão governista e de declínio na aprovação do mandatário. “Em pouco tempo, nem um PhD do Centrão terá como reverter.” Entre os congressistas, a ida de Ciro para a Casa Civil é vista como uma tentativa de o governo salvar a relação do Executivo com o Congresso. “É uma iniciativa para tentar organizar a situação no Senado”, afirma o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia. “Bolsonaro fica cada dia mais dependente daqueles que tanto criticou”, dispara. Nos corredores do Senado, Ciro já ganhou o apelido de “primeiro-ministro”.

O novo chefe da Casa Civil disse a interlocutores que considerava a gestão da Casa Civil muito burocrática e que sua prioridade será mudar “o que não está funcionando”. Por isso, já faz um levantamento em diversas áreas do governo e pretende integrar os ministérios. Sua maior prioridade será criar um grande projeto de cunho social, que espera apresentar à cúpula do Congresso no início da próxima semana, antes da posse, marcada para quarta-feira. Com esse objetivo, reuniu-se com o ministro da Cidadania, João Roma, e discutiu o Bolsa Família repaginado. O novo programa, que pode se chamar Renda Cidadã ou Renda Brasil, deve ser sua marca visando viabilizar a recondução de Bolsonaro ao Planalto. A ideia é que comece a operar em novembro, com base em transferência de renda e também uma mudança no Programa de Aquisição de Alimentos (PPA). Habilidoso e conciliador, o senador piauiense também pretende melhorar a imagem do governo, estabelecendo pontes com o STF e o Congresso, na contramão da prática diária do presidente. Tera difculdades para executar essa empreitada, levando-se em conta o histórico do presidente.
Ciro tem dito que deseja “escutar mais do que falar”. Mas a sua chegada já trouxe alguns problemas para Bolsonaro. Provocou um racha na base de apoio, pois o PP abocanhou o principal posto no Planalto acumulando a presidência da Câmara (com Arthur Lira) e a liderança na Casa (Ricardo Barros). A demanda de outros partidos vai ser imediata, avalia um parlamentar, o que enfraquece Bolsonaro. Um senador aponta outros partidos do Centrão que “ficaram de fora”, como o Republicanos e o PTB. “Se derem o Ministério do Turismo para o PL, por exemplo, vão ter que arrumar espaço também para o Republicanos”, explica. De fato, alimentar o bloco será um desafio. O presidente ainda não conseguiu atrair o MDB e não tem o apoio do PSD, as legendas mais fortes no Senado. Para Gilberto Kassab, o objetivo do presidente é político-eleitoral, de olho na reeleição e para aparar as arestas com o Senado. Segundo o presidente do PSD, o comportamento errático na pandemia é uma das principais fontes de desgaste do governo, mesmo com a diminuição no número de óbitos. “Além disso, o governo se desgastou muito com a economia”, afirma. Ao implementar projetos de cunho eleitoral, que gerem mais emprego e renda, Ciro procura modificar o desgaste no campo social, nas classes C, D e E. “Esse segmento perdeu muito e está numa situação difícil”, diz Kassab.

Um ponto fundamental será “desarmar a bomba” da CPI. A tropa de choque do governo, sob o comando de Onyx Lorenzoni, decidiu partir para o confronto com a cúpula da comissão, estratégia da qual Ciro discorda. “Como se negocia a favor do presidente se os apoiadores do Bolsonaro atacam todo dia? É constrangedor”, disse um interlocutor do senador piauiense. Além de não ter esse perfil, Ciro quis evitar atritos com senadores que são próximos a ele, como o relator, Renan Calheiros (MDB). Uma das principais missões vai ser trabalhar para desarticular o G7, grupo majoritário da CPI composto por senadores independentes e da oposição. Depois de Eduardo Braga ter abandonado o G7, senadores próximos ao novo titular da Casa Civil acreditam agora que Ciro vai tentar convencer Otto Alencar (PSD) e Tasso Jereissati (PSDB) a fazerem o mesmo. Outra tarefa será preparar o terreno no Senado para que André Mendonça seja aprovado para a vaga no STF. Pessoas próximas ao senador afirmam que ele avisou que “vai pegar Mendonça pelo braço” para fazer um périplo na busca por apoio. O pastor e ex-AGU precisa disso. Com a desarticulação do governo, ele corre mesmo o risco de não ser aprovado. Davi Alcolumbre, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que virou desafeto do presidente, tem sido um dos principais obstáculos às pretensões de Mendonça, que tem sido visto vagando sozinho pela Casa, batendo em gabinetes.

Um dos principais objetivos de Ciro é ampliar a influência na Economia. Tudo começa pela recriação do Ministério do Planejamento, o que daria a chave do cofre do Orçamento. Os senadores Jorginho Melo (PL) e Eduardo Gomes (MDB) são os mais cotados para assumir essa pasta. Para conter esse movimento, o ministro da Economia sugeriu a recriação do Ministério do Trabalho, entregue a Onyx Lorenzoni (DEM), que cedeu o cargo na Secretaria-Geral para o general Ramos e pode abocanhar até 85% das verbas movimentadas atualmente pela pasta da Economia. Guedes está sendo vencido. A atual mexida confirma o desmonte do seu “superministério”. Outra medida discutida nos bastidores é a volta à Casa Civil do PPI, o estratégico programa de concessões e privatizações. Enquanto essas mudanças não se concretizam, o Centrão come pelas bordas. O grupo já tem o controle das emendas de relator e Ciro deverá destravar as negociações em torno do Fundo Eleitoral de R$ 5,7 bilhões, que pode ser cortado. “Os parlamentares que votaram no fundão vão querer uma compensação. Geralmente isso acontece em emendas. Ou seja, se ele estiver à frente do Orçamento, conseguirá fazer isso mais fácilmente. E essa pressão tende a ser grande, porque estamos perto das eleições de deputados e de um terço do Senado. Os candidatos vão colocar a faca no pescoço do Ciro e do Bolsonaro”, diz um senador.

A posse de Ciro também desaloja os militares, que têm servido de escudo ao presidente. A mudança envolve todo o Planalto. A primeira vítima foi o general Luiz Eduardo Ramos, que cedeu a cadeira para Ciro e foi deslocado para a Secretaria-Geral. Pego de surpresa pela mudança, ele disse que “foi atropelado por um trem”. Tentou até o último momento demover o presidente, mas foi derrotado. Depois de desancar o grupo fisiológico em forma de samba na campanha de 2018 (“Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”), outro general que está cada vez mais escanteado é Augusto Heleno, do GSI. Walter Braga Netto, que ocupou a Casa Civil e está atualmente na Defesa, é igualmente atingido. Ele virou alvo do Centrão antes mesmo da indicação de Ciro. O grupo comemorou discretamente o vazamento de sua ameaça às eleições de 2022, episódio que o deixou na defensiva. Sua intimação para explicar as declarações pelo Procurador-Geral, Augusto Aras, ampliou essa sensação de fragilidade. Mais que isso, o grupo fisiológico foi firme para descartar a volta do voto impresso, na contramão de Bolsonaro e seus generais. O próprio Ciro participou do grupo de 11 presidentes de partido que enterrou a proposta. Com os militares afastados do coração do poder, o papel deles, cada vez mais, passa a ser apenas tentar difundir o bolsonarismo nos quartéis. A avaliação de um general muito próximo a Bolsonaro é que esse afastamento vai criar um problema para o presidente. “Bolsonaro usa a presença deles para dizer que tem o apoio das Forças Armadas. A saída vai esvaziar esse discurso. Isso é péssimo. De quebra, o presidente vai ficar ainda mais na mão do Centrão, como era com o PT, que ele tanto criticou.” Bolsonaro não está deixando pelo caminho apenas esse grupo de sustentação. O destino dos militares é semelhante ao do núcleo ideológico, que já tinha sido varrido da Esplanada dos Ministérios com as demissões de Ernesto Araújo (Itamaraty), Ricardo Salles (Meio Ambiente), Abraham Weintraub (Educação) e Fábio Wajngarten (Secom). Apenas Damares Alves (Ministério da Mulher) permanece em Brasília, mas enfraquecida.

Também há um objetivo eleitoral para Ciro. “Com essa manipulação ideológica, a reeleição vai se tornar uma disputa desigual. Candidatos vão ser inviabilizados por uma estrutura de governo que vai oferecer verbas para atender os interesses eleitoreiros do presidente e seus aliados”, reclama um congressista. Para um observador influente do Congresso, Ciro é um político que tem uma atuação muito parecida com a do próprio Kassab. Sempre procura atrair mais gente para o partido dele. Com o atual movimento, está fazendo exatamente isso: atrair quadros para o seu partido para, depois, repartir as fatias do bolo dos recursos do Fundo Partidário e Eleitoral. “Ao mesmo tempo que ele está chegando no governo, também tenta filiar ministros no PP e atrair o próprio presidente para a legenda. O Bolsonaro precisa de uma estrutura partidária forte para disputar as eleições em 2022, principalmente no Nordeste, que é uma das regiões em que é mais vulnerável. Se todo mundo que o Ciro conseguir filiar for disputar a eleição e vencer, aumenta o número de aliados do presidente nos Estados. A ideia do Ciro é justamente essa: fortalecer o seu partido para ter cada vez mais acesso ao dinheiro dos fundos.” Na visão dele, Ciro vai comer pelas beiradas no começo e “cobrar a fatura de Bolsonaro” depois.

A ascensão reafirma o talento de “camaleão” de Ciro. Líder do PP desde 2013, ele era próximo do falecido deputado Severino Cavalcanti, o “rei do baixo clero”, que tentou emplacá-lo no Ministério das Comunicações em 2005, durante o governo Lula. Antes de aderir ao bolsonarismo, o senador apoiou o PT no Piauí, com o qual rompeu para tentar a eleição a governador pelo Estado, em 2022. Agora, Ciro disse que abortou esse projeto. Ele evita reivindicar a posição de vice de Bolsonaro na campanha do próximo ano, mas não nega que esse é um sonho. Tem dito que há outros na fila. Após azeitar a aproximação do Centrão com o presidente no ano passado, ganhou o apelido de “05”. A conversão ainda lhe causa constrangimentos, já que era um dos maiores apoiadores de Dilma Rousseff e Lula (“melhor presidente da história”) e não economizou críticas a Bolsonaro (“fascista, preconceituoso”). Mas a aproximação ao atual governo desde o ano passado já rendeu frutos. Foi um dos patronos da indicação do juiz Kássio Nunes Marques ao STF.

“Bolsonaro tenta organizar a situação no Senado. Fica mais dependente daqueles que tanto atacou” Rodrigo Maia, deputado

PRÊMIO Onyx Lorenzoni vai para o Ministério do Trabalho e deve abocanhar até 85% das verbas da Economia (Crédito:Aloisio Mauricio)

Apesar de Bolsonaro e Ciro terem comemorado o casamento, essa manobra pode não dar certo. O líder do Centrão já virou alvo das milícias digitais bolsonaristas por sua articulação contra o voto impresso, e outros ministros de Bolsonaro foram “fritados” pelos próprios aliados até perderem o cargo, como o general Santos Cruz, Gustavo Bebianno, Sergio Moro e Regina Duarte. Há a própria imprevisibilidade do presidente, que tem comportamento errático e um histórico de deslealdade com antigos aliados. Mais do que isso, há o receio pelos problemas que Ciro enfrenta na Justiça e que podem ser potencializados. Com sua indicação, já veio à tona a informação de que o político é cobrado em R$ 17 milhões pela Receita Federal por suspeita de sonegação e lavagem de dinheiro.
Bolsonaro também se arrisca. Ciro é do mesmo partido de Lira, que tem na sua gaveta 130 pedidos de impeachment. Se o mandatário romper com o novo titular da Casa Civil, pode despertar a retaliação do presidente da Câmara. Ou seja, Bolsonaro ficou ainda mais refém do Centrão. E pode estar repetindo erros de seus antecessores. Quando também estava perdendo sustentação, Dilma Rousseff tentou como manobra desesperada a nomeação de Lula para a Casa Civil. Como se sabe, essa ação foi frustrada e abreviou a sua queda. Antes disso, tentou transformar Michel Temer no seu coordenador político, o que se provou mais um monumental tiro no pé. Roberto Jefferson, ex-líder da tropa de choque de Fernando Collor, compara o momento atual com o colapso do ex-presidente nos anos 90. Naquela época, Collor recriou a Secretaria de Governo para abrigar o PFL, visando conter o impeachment. Mas ficou ainda mais dependente do Congresso, acelerando seu afastamento. Na visão do presidente do PTB, Ciro vai representar o mesmo papel. Alheio à crise, o novo ministro tem dito que “o Brasil precisa de esperança”. É possível que esteja correto. Sem saber, Bolsonaro pode estar acelerando seu próprio fim.

https://istoe.com.br/casamento-fisiologico/

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas