quinta-feira, julho 29, 2021

Ultrabolsonarismo militar seria um baita tiro pela culatra que desmoralizaria o Brasil

Publicado em 29 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

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Charge do Brum (Tribuna do Norte)

Marcelo Coelho
Folha

É tanta ameaça, tanta soberba, tanta certeza de impunidade por parte de chefes militares brasileiros que eu poderia ficar totalmente desanimado e achar que toda a construção da democracia no país nos últimos 40 anos foi trabalho perdido.

Talvez não seja para tanto. Uma coisa interessante, na semana passada, foi ver que as provocações do general Braga Netto, questionando a legitimidade do voto eletrônico, não intimidaram ninguém.

SEM MEDO DE BRAGA – Comentaristas televisivos experientes, sem nenhum traço de porra-louquice, reduziram a pó as desculpas inventadas pelo general, depois que ele resolveu assoprar a mordida anterior. Não vi sombra daquele antigo temor que se tinha na imprensa, durante os tempos da abertura, diante de despautérios e violências dos machões de quatro estrelas.

Hoje, diz-se claramente (na TV por assinatura, pelo menos) que este general mentiu, que aquele outro não diz a verdade, que o terceiro não podia ter dito o que disse.

Claro que também não vejo as reações que seriam necessárias num país plenamente emancipado e democrático. O caso seria de prisão imediata de qualquer militar que se metesse a dar recados ao poder civil.

GOLPE SEM APOIO – Seja como for, não prevalece um sentimento de medo frente ao que os militares possam fazer. Por enquanto, a hipótese de que tentem um golpe é muito remota. Difícil começar um regime de força com popularidade em queda livre.

Seria preciso investir na criação de um “caos social”, com agentes provocadores ou atentados terroristas, ao estilo do que se tentou na década de 1980.

Ou forjar, como se fez em décadas anteriores, algum documento “provando” entendimentos de personalidades de esquerda com redes subversivas internacionais…

ESPECULAÇÃO EXTREMA – Essa gente é tão doida e radical que é capaz de tudo. Mas, felizmente, aqui estamos entrando no reino da especulação extrema.

Por que, então, esses chefes militares estariam caprichando em declarações golpistas? A pergunta, formulada assim, pode parecer meio boba. Fazem declarações golpistas porque são golpistas, sempre foram golpistas, sempre serão golpistas.

Nunca se conformaram com a democracia; não sabem o que é democracia. Consideram que o ponto alto da história militar brasileira foi instaurar uma ditadura, que prendeu, matou, torturou e estuprou tantas pessoas quanto quis, e se ofendem diante de qualquer menção aos crimes cometidos.

SILÊNCIO TEMPORÁRIO – Antidemocráticos por formação, calaram-se (mais ou menos) por um tempo. Animaram-se com a vitória de Bolsonaro e com o apoio que encontraram junto a alguns grupos de fanáticos.

Mas acredito que haja motivos mais conjunturais para essa temporada de provocações. Primeiro, a CPI começa a pisar nos calos das Forças Armadas. Acusações envolvendo compra de cloroquina, contratos duvidosos, omissões, engavetamentos e corrupção deixaram de ser monopólio do “elemento civil” de nossa sociedade. Uma vez acuado, todo pelotão que se preza trata de resistir.

Segundo, o centrão avança sobre os cargos da República. Natural que alguns chefes militares queiram mostrar a Bolsonaro que, na hora H, serão mais fiéis ao presidente do que os líderes de partidos fisiológicos.

TOMA LÁ, DÁ CÁ – Na “política tradicional”, a rebeldia partidária sempre compensa — o presidente é forçado a entregar novas fatias do Estado a quem ameaça retirar seu apoio.

O ultrabolsonarismo militar seria, então, um tiro pela culatra. Ameaças de golpe, uma vez caindo no vazio, fortalecem o papel do centrão como sustentáculo “razoável” de um presidente enlouquecido.

Mas a ameaça persiste, como plano B. Sonho com um modo de o Congresso silenciar a arrogância golpista. Ponha-se em votação um plano para rever todas as aposentadorias e privilégios militares. O chefe disposto a melar o jogo da democracia não teria moral, imagino, para falar grosso num caso em que seria tão evidente seu empenho de agir em causa própria.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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