sábado, julho 31, 2021

Negligência com Cinemateca é criminosa, afirma ex-presidente da instituição

por Bruno Calixto | Folhapress

Negligência com Cinemateca é criminosa, afirma ex-presidente da instituição
Foto: Reprodução/TV Globo

Diretor da Cinemateca Brasileira entre 2002 e 2013, o administrador Carlos Magalhães viveu o que ele chama de "fase áurea" da instituição. Durante todo aquele período, contou com orçamento de aproximadamente R$ 170 milhões, dos quais R$ 20 milhões foram repassados diretamente pelo governo e os outros R$ 150 milhões foram captados via renúncia fiscal e convênios com o extinto Ministério da Cultura.
 

Nesta quinta, um incêndio atingiu um depósito da instituição, no bairro da Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo. Isso após especialistas já terem alertado sobre a possibilidade.
 

"Nasceu como fundação de direito privado e foi incorporada ao governo federal no início dos anos 1980, por iniciativa do designer pernambucano Aloísio Magalhães, que foi secretário de cultura do Ministério da Educação e Cultura e diretor do Iphan [o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] e morreu logo depois. A ideia era ser um braço do Iphan, cuja concepção foi idealizada por Mário de Andrade", relata Magalhães.
 

Aos 62 anos, o ex-diretor, que talvez seja o que ocupou o cargo por mais tempo, lamenta que o órgão tenha se transformado em "prêmio de consolação", comenta a atual situação —"delicadíssima, de más condições técnicas a falta de orçamento"— e afirma que nem Regina Duarte nem Mario Frias têm qualificação para o posto.
 

*
 

Pergunta - Qual o tamanho da instituição como equipamento cultural?
 

Carlos Magalhães - Ela equivale ao que é a Biblioteca Nacional, só que em termos de audiovisual. Guarda a memória da produção do país. Tem uma responsabilidade muito grande, que é a de preservar o material produzido pela classe artística, além de abrigar e cuidar desses materiais. É uma instituição que tem viés técnico, uma vez que preserva diversas mídias, desde a película até o digital. É um acervo da nação, cuja propriedade física pode até ser de um sujeito ou de uma sociedade sem fins lucrativos, mas seu conteúdo pertence à sociedade.
 


 

P. - Qual é o seu papel no campo cultural e econômico?
 

CM - Difundir esse material, além de preservar. É comum usar imagens de arquivos para novas produções. Nos primórdios da história do cinema brasileiro, incluindo a fase pré-cinema, a gente perdeu muita coisa antes de a Cinemateca existir. Foi com ela que veio essa consciência e necessidade de preservar, tanto pelo valor cultural como pelo valor econômico.
 


 

P. - O que de mais precioso guarda a Cinemateca?
 

CM -Tem os filmes mais antigos, coleções de cinejornais, um acervo incrível da extinta TV Tupi de telejornal, preciosidades em película e acervos digitalizados, além de documentação, livros, roteiros, fotografias. Estamos falando de uma instituição complexa, com a documentação da extinta Embrafilme. Riquíssima em termos de informações de como e quanto custava tudo, o audiovisual e todas as atividades correlatas.
 


 

P. - Há algum tempo, a Cinemateca Brasileira enfrenta uma situação delicada, sofrendo com más condições técnicas e falta de orçamento. Vem de quando este descaso?
 

CM - A situação da Cinemateca hoje tem mais de um responsável, talvez a primeira [crise] foi com a atitude de Marta Suplicy enquanto ministra da Cultura, que destituiu uma direção e não fez nada para ocupar aquele lugar depois, desrespeitando sua autonomia. Em seguida, vieram outros ministros, Marcelo Calero, em 2016, e Sérgio Sá Leitão, em 2017.
 


 

P. - Em entrevistas, você disse, e chegou a repetir, que em sua gestão, entre 2002 e 2013, o órgão viveu sua fase áurea. A que você atribui isto?
 

CM - A Cinemateca ganhou mais visibilidade, verbas e equipamentos modernos. Relatórios de preservação e difusão mostram o quanto ela se equipou nesse período, se comunicou com o mundo externo, se conectou a outras visões cinematográficas, ao intercâmbio.
 


 

P. - Se nos dois meses enquanto secretária especial de Cultura, Regina Duarte não demonstrou muita presença, o que esperar do seu colega Mario Frias?
 

CM - Sou muito cético e, do ponto de vista de alguma racionalidade, é para a gente cortar os pulsos e não esperar nada. Mas sei lá, vai que o sujeito que deu o presente entregou um cheque junto. Torci para que dessem para Regina Duarte recursos, e que ela tivesse humildade de convidar pessoas que entendessem da questão para auxiliar, pois, pelo que a conheço, ela não tem uma formação que a qualifique para isso. Vale lembrar que, como atriz e personalidade do audiovisual brasileiro, ela tem parte da sua história ali, o que, por si só, não a qualifica para o cargo.
 


 

P. - Uma carta aberta afirma que, além de não ter recebido em 2020 nenhuma parcela do orçamento anual —no valor de R$ 12 milhões—, a Cinemateca vem passando por processo de enfraquecimento institucional e, ainda, está com acervo em perigo por causa não somente de sucessivos incêndios ocorridos em sua estrutura nos últimos anos, mas também uma enchente ocorrida no ano passado. Qual a dimensão desta possível perda?
 

CM - Primeiro que é um absurdo não receber um aporte tão pequeno dentro do orçamento público. A Cinemateca precisa de energia para manter o acervo a salvo. Esse valor é, no mínimo, duas vezes e meia menor que o de uma instituição como a Pinacoteca, por exemplo. Estamos falando do básico. Ela cuida de acervo que está sob a guarda dela, mas que não pertence a ela. Pertence a qualquer um, ao cineasta que pretende utilizar uma imagem de arquivo para realizar seu filme.
 


 

P. - Qual é a função da Sociedade Amigos da Cinemateca?
 

CM - Tem quase 50 anos de serviço prestado, com envolvimento de acadêmicos e intelectuais. Mas foi excluída de seu papel em 2013, transformando-se em uma organização social com a responsabilidade diminuída de gerir a Cinemateca.
 


 

P. - Olhando para o que deu certo e errado, que caminhos a Cinemateca deveria seguir?
 

CM - O da difusão do que é preservado. Sempre bati nessa tecla, firmando parcerias com cinematecas de outros países, como Portugal e Dinamarca.
 

Lembro um fato que marcou a história da Cinemateca, que foi a restauração do filme "Limite", de 1930, escrito e dirigido por Mário Peixoto em 2010, sob a responsabilidade de Saulo Pereira, a cargo da Cinemateca com recursos da Film Foundation [entidade fundada e presidida por Martin Scorsese].
 

Um músico norueguês se apaixonou pelo filme, uma das obras-primas do cinema brasileiro, e chegou a compor uma trilha, apresentada durante uma exibição para 1.500 pessoas na Noruega, com a participação do baixista Rodolfo Stroeter e do percussionista Naná Vasconcelos. Depois repetimos a performance em São Paulo.
 


 

P. - Quem você nomearia para o cargo que já foi seu?
 

CM - Carlos Augusto Calil, professor do departamento de cinema da USP, um tremendo gestor e que já foi diretor da Cinemateca, conhece de cima a baixo. Também foi secretário municipal de Cultura, um intelectual preparado para o cargo.

Bahia Notícias

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas