domingo, agosto 30, 2020

Infectologistas avisam pela enéssima vez – a cloroquina não tem comprovação científica contra covid-19


Charge do Duke (Arquivo Google)
Deu no Correio Braziliense
O Palácio do Planalto recebeu, nessa semana, um grupo de médicos que defende o uso da hidroxicloroquina. Eles discursaram no evento Brasil vencendo a covid-19 e contestaram o fato de que não há comprovação científica da medicação no tratamento de pessoas com o novo coronavírus, citando que “temos evidência 2-A” para a utilização da cloroquina.
“Para os técnicos que estão nos escutando, vocês sabem que isso é uma evidência que nos sustenta para tratar com total propriedade e convicção o que a gente faz. Nós já temos evidência 2-A, então, podemos e devemos medicar”, afirmou a médica Raissa Oliveira Azevedo, na presença do presidente Jair Messias Bolsonaro.
EVIDÊNCIA 2-A – A expressão “evidência científica 2-A” passou, então, a ser repetida por parte da população que defende o uso do medicamento contra a covid-19. Mas é preciso muita calma para não confundir o nível de evidência com uma comprovação científica, como explicam especialistas.
David Urbaez, diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal e infectologista do Laboratório Exame, detalha que é preciso compreender o campo da medicina embasada em evidências para entender o assunto.
“Essa área foi a grande resposta para anularmos, nas pesquisas, todos os desvios advindos da subjetividade do pesquisador, que sempre quer comprovar que aquilo que ele diz funciona mesmo, além de barrar interesses comerciais, que podem estar atrás de qualquer pesquisa de medicamento”, explica.
VIÉS DE PERCEPÇÃO – Apesar de chegar ao nível 2-A, os estudos sobre a cloroquina como medicação eficaz contra o novo coronavírus estão em um campo frágil, segundo Urbaez, pois tratam-se de trabalhos observacionais, que não utilizam um grupo de controle para comparar conclusões.
“Esses trabalhos servem só como janela para chamar a atenção que aquilo poderá, eventualmente, ser algo que vale a pena ir a fundo, que vale a pena investir com mais rigorosidade científica. Nesse sentido, pode-se chegar a uma evidência até 2-A, que são evidências de estudos de corte, ou seja, de grupo que se observa, mas que não têm grupo controle”, explica.
Mais detalhadamente, pode-se dizer que esses testes não passaram por uma importante etapa de observação científica, os ensaios clínicos randomizados, que dividem os pacientes em grupos que recebem a medicação e outros que tomam placebo, sem que eles ou os pesquisadores saibam quais receberam o quê.
REAL E IRREAL – “O efeito placebo é real. Apenas pelo fato de alguém estar cuidando das pessoas, elas podem ter melhora no quadro clínico. Isso anula totalmente o viés de percepção do pesquisador”, pontua David.
Em suma, não é possível concluir a eficácia de um medicamento que não passou por essas etapas. “Nos ensaios clínicos randomizados duplo-cego com placebo, são anulados quaisquer tipos de desvios resultantes da vontade do grupo de pesquisa de mostrar que aquilo é real. Isso é o que representa, então, a evidência 1-A”, classifica o especialista.
David Urbaez conclui que, atualmente, para propor um protocolo de medicamento, é exigida a evidência 1-A, que seja decorrente desses ensaios clínicos. “Infelizmente, a população geral, inclusive os próprios médicos têm pouquíssima formação em termos de interpretação da produção da verdade científica por meio da metodologia da medicina baseada em evidências. Por isso, temos essa confusão lamentável, dolorosa e condenável, com a cloroquina”, avalia.
ATÉ AGORA, NADA – A infectologista Ana Helena Germoglio ressalta o que vem sendo repetido pelos especialistas: “Não temos, hoje, nenhuma droga eficaz no tratamento da covid”. Ela explica que a cloroquina, em casos de novo coronavírus, encaixa-se no chamado medicamento off label, remédio utilizado para algo que não existe indicação prévia na bula.
“Para prescrever isso, devemos apontar os riscos e os benefícios desse tipo de tratamento, já que esse remédio não nasceu para esse tratamento”, ressalta a especialista. Ela lembra que há estudos avançados que procuraram responder aos questionamentos de benefícios e malefícios desse uso.
“Alguns estudos, bem iniciais, apontaram que o uso da cloroquina poderia ter efeito in vitro na redução da carga viral. Entretanto, um dos estudos de maior evidência que temos em relação à cloroquina são os RCTs, aqueles randomizados controlados. Já existem várias pesquisas assim que provam que o paciente não tem um benefício e pode até ter um malefício quando administrados”, pontua. Ana Helena conclui, detalhando que “os RCTs têm um nível de evidência acima dos estudos 2-A”, pois são de evidência A, enquanto os de nível 2 são de evidência B.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLO
– A discussão científica deve ser travada exclusivamente pelos cientistas. Leigos – como eu, você e o presidente Jair Bolsonaro ou o falso ministro intendente general Eduardo Pazzuelo – precisam sair de cena, o mais rápido possível. (C.N.)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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