Kayo Iglesias
Em 27 anos desde a descoberta do primeiro dos 474.273 casos registrados no Brasil, o governo ainda tem um desafio a vencer no combate à Aids: os mitos sobre a contaminação. Dados divulgados ontem pelo Ministério da Saúde no Boletim Epidemiológico 2007 mostram importantes avanços - a sobrevida dos pacientes aumentou - mas confirmam uma realidade preocupante. É cada vez maior a parcela de homens heterossexuais que contraem a doença.
As estatísticas do boletim mostram uma tendência que desmistifica o discurso, presente em alguns setores da sociedade, de que o perigo de contaminação nessa faixa é menor. Em 1996, a parcela do total de casos registrados em homens referente a contaminação por sexo com mulheres era de 25,6%. Em 2006, a fatia passou para 42,6%.
- Ainda existe no imaginário da população a idéia de que existem grupos de risco - alertou a diretora do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde, Mariângela Simão. - No cenário de uma doença de transmissão predominantemente por via sexual, com vírus circulante na população, todas as pessoas que tenham relações sexuais desprotegidas podem ser expostas ao risco de infecção pelo HIV.
A incidência da doença também continua desigual entre as regiões. Enquanto o número de casos caiu consideravelmente no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, a doença ainda se espalha no Norte e Nordeste, onde se concentram as localidades mais pobres do país.
De 2002 a 2006, o número de notificações na região Norte passou de 1.459 para 2.037 - um salto de 39,6%. No Nordeste, o aumento foi de 13%: de 4.590 casos registrados em 2002, o número de ocorrências passou para 5.189 em 2006. Enquanto isso, no Sudeste, o ministério computou 21.752 casos em 2002, contra 16.306 em 2006. No Sul, o número caiu de 8.577 para 7.002. No Centro-Oeste, a tendência é de estabilização: foram 2.438 casos em 2002 e 2.094 em 2006.
- A Aids tem de ser vista como um problema sócio-econômico, não apenas de saúde - constatou Pedro Chequer, representante do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV e Aids (Unaids) no Brasil.
Para o especialista, apesar de a doença ser mais recorrente nos grandes centros, devem ser adotadas políticas regionais para levar a informação sobre a prevenção às comunidades cujos padrões sociais e morais ainda resistem, por exemplo, ao uso de preservativos.
- Nosso desafio é reforçar a qualidade da assistência no SUS e ampliar o diagnóstico precoce da infecção pelo HIV, seja nos exames de rotina na rede pública ou no uso do teste rápido - detalhou Mariângela.
Pela primeira vez, o estudo mapeou a sobrevida de pacientes em cinco anos depois da confirmação do diagnóstico. O cenário traz esperanças no controle do HIV: em 2005, 90% dos infectados do Sudeste que descobriram ter Aids em 2000 estavam vivos. O índice chegou a 78% no Norte, 80% no Centro-Oeste, 81% no Nordeste e 82% no Sul.
Fonte: JB Online
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