segunda-feira, janeiro 29, 2024

Em busca do apocalipse

 

Em busca do apocalipse 


Quando a OpenAI decidiu colocar no mundo sua criatura – seu próprio Frankenstein – e assombrou todo aquele que se pôs a conversar com o programa de inteligência artificial (IA) generativa, o que a pretensa organização sem fins de lucro gerou foram apreensões no Vale do Silício, não apenas porque o robô era muito bom, mas porque Sam Altman, o CEO, tinha decidido saltar no abismo – e levar junto toda a humanidade. 

Modelos de inteligência IA que emulam linguagem humana já existiam havia algum tempo, mas até então as Big Techs estavam sendo cautelosas sobre como lançá-la, dado que a quantidade de erros e os potenciais riscos pareciam ser grandes demais. Sam Altman preferiu repetir o estratagema que ajudou essas mesmas Big Techs a dominar a internet: lançou um produto não finalizado no mundo e botou todos os usuários como cobaias em um enorme experimento tecnológico e social para aprimorar seu Frankenstein. 

Para a maioria das pessoas, é difícil entender como estamos brincando com fogo ao liberarmos a IA na sociedade, ainda mais sem o mínimo de regulamentação – urgente, necessária, que venha este ano, oxalá. Mas as empresas que desenvolvem IA são as primeiras a saber dos buracos e riscos dos seus modelos. 

Vejam só o anúncio recente de uma bolsa de pesquisa oferecida pela própria OpenAI, que pode ajudar a esclarecer o tamanho do abismo em que estamos nos metendo.  

Um tal “fundo rápido de superalinhamento 2024” promete distribuir quantidades milionárias de fundos para pesquisadores resolverem um problemão que está sendo construído pela própria equipe da OpenAI e outros engenheiros, o chamado “superalinhamento” – na indústria da tecnologia, “alinhamento de IA” é o termo usado para o esforço de fazer com que os robôs obedeçam aos humanos que os criaram. Ou seja, a bolsa tentará resolver o fato de que em poucos anos vamos ver sistemas de IA “superinteligentes” que, de tão complexos, será impossível para seres humanos monitorá-los e, portanto, mandar neles efetivamente.
 
Quem diz não sou eu, é a própria empresa. Vejam só: 
“Acreditamos que a superinteligência pode surgir nos próximos 10 anos. Esses sistemas de IA teriam vastas capacidades, podendo ser extremamente benéficos, mas também potencialmente apresentar grandes riscos”, diz o site da OpenAI.
 
O texto prossegue: “Os sistemas de IA superiores aos humanos serão capazes de comportamentos complexos e criativos que os humanos não conseguem compreender totalmente. Por exemplo, se um modelo super-humano gerar um milhão de linhas de código extremamente complicadas, os humanos não serão capazes de avaliar de maneira confiável se o código é seguro ou perigoso para execução. Técnicas de alinhamento existentes, que dependem da supervisão humana, podem não ser mais suficientes. [...] Este é um dos problemas técnicos não resolvidos mais importantes do mundo”.

Caso ainda não esteja claro para meu leitor, acho importante lembrar que ninguém exatamente sabe como funciona a IA nem como pode ser usada para fins espúrios. Como é um robô que se autodesenvolve, não é possível nem determinar seu comportamento nem predizer para onde ele vai. Por isso, o que se pode fazer é “treiná-lo” com bases de dados determinadas (milhões de sites em toda a internet, que é o que fez a OpenAI sem pagar um tostão para os seres humanos que produziram essa informação toda) e depois monitorar proximamente o seu desenvolvimento a partir de técnicas diversas, como o tal “feedback humano” (sim, quando você responde ao ChatGPT se uma resposta foi satisfatória, isso é você trabalhando para a OpenAI e ajudando a pagar o milionário salário de Sam Altman).

 

Mas a verdade é que estamos lidando com caixas-pretas, mecanismos indecifráveis, que devem tornar-se ainda mais indecifráveis à medida que adquirem uma inteligência “humana” ou, ainda, “super-humana”. 
   

A mesma bolsa da OpenAI convida pesquisadores a tentar entender como funciona de fato o robozinho, vejam só. De novo, não sou eu que estou usando o termo “caixa- preta” para dar efeito literário, não. O termo vem da própria empresa. “Via de regra, os sistemas de IA modernos são caixas-pretas inescrutáveis. Eles podem fazer coisas incríveis, mas não entendemos como funcionam”, diz o site da empresa. A OpenAI convida então pesquisadores a buscar realizar uma “neurociência digital” para “entender o que nossos modelos estão pensando e por que estão fazendo o que fazem”.
 
Para completar o tom sinistro do tal desafio acadêmico, a OpenAI explica que “muitas histórias de falhas de alinhamento consistem em modelos que tentam minar as tentativas humanas de supervisioná-los”. Parece filme de ficção científica, mas, para os engenheiros que estão moldando nosso futuro, não é. 
 
O programa de bolsa é uma parceria com Eric Shmidt, ex-CEO do Google, um dos responsáveis pelo maior monopólio da história da humanidade. E só demonstra mais uma vez que, cientes do tamanho do pepino em que estão se metendo, os CEOs do Vale do Silício estão querendo compartilhar a mitigação de danos com a sociedade, pagando até uma graninha, mas longe de assumir a responsabilidade por esses riscos.
 
Existe um conceito amplamente usado dentro da comunidade de tecnologia que resume a postura de muitos dos engenheiros que trabalham com IA de ponta: “AI doomerism”, algo como uma visão apocalíptica da IA, ou seja, muitos daqueles que trabalham com esse robôs inescrutáveis acreditam que eles podem levar à extinção da humanidade. Como o grupo de engenheiros que decidiu sair da OpenAI e criou a Anthropic, uma startup que pretende evitar o apocalipse ao enfocar a segurança em primeiro lugar. Vale ler esta reportagem do New York Times que retrata a apreensão dentro da empresa quando lançaram seu próprio chatbot generativo. 

Alguns dos funcionários afirmaram ao repórter Kevin Roose que a ideia da Anthropic é criar uma “corrida” por quem vai ter o chatbot mais seguro, criando uma “concorrência pela segurança”. Já outros acreditam no altruísmo eficaz, que mencionei brevemente na semana passada – a crença de que você deve trabalhar para beneficiar bilhões de pessoas que vão viver no futuro, e assim vale até causar problemas para as que estão vivas hoje. 

Mas a maioria dos funcionários da startup mistura seu entusiasmo pela tecnologia com um pessimismo galopante.   

“Minha preocupação é: o modelo vai fazer algo terrível que não percebemos?”, afirmou ao repórter o executivo-chefe da empresa. Muitos outros se comparam com Robert Oppenheimer, o criador da bomba atômica. 

“Eles estão assustados – em um nível profundo, existencial – com a própria ideia do que estão fazendo: construindo modelos de IA poderosos e liberando-os nas mãos das pessoas que podem usá-los para fazer coisas terríveis e destrutivas.”

Para os trabalhadores da Anthropic, nos próximos anos chegaremos à “inteligência artificial geral” (AGI), ou seja, robôs que serão capazes de ter um raciocínio similar ao de uma pessoa com formação universitária. “Eles temem que, se não forem cuidadosamente controlados, esses sistemas poderiam assumir o controle e nos destruir”, diz a reportagem do New York Times.  
Ou seja: os engenheiros que constroem esses robôs estão preocupados com o fim do mundo, com o meu fim e o seu. E seguem criando o monstro. 

Se isso não é motivo suficiente para os governos de todo o mundo correrem para regular esse mercado, eu não sei o que seria.   

   


Natalia Viana
natalia@apublica.org
Diretora Executiva da Agência Pública

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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