terça-feira, janeiro 31, 2023

Brasil: a saga dos presidentes populistas




O Brasil trocou um populista cultural ou identitário por um populista socioeconómico. A saga populista continua. Por mais loas que se cantem ao serviço de Lula da Silva. 

Por José Pinto 

O Brasil, a exemplo da América Latina, representa um alfobre de populistas. Uma história que conta com nomes como Getúlio Vargas, João Goulart, Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro e, pela terceira vez, Lula da Silva. Populistas que se alimentam da quebra de confiança dos cidadãos nas instituições, sempre que estas se recusam a servir os interesses do líder carismático.

Assim, na sua recente visita à Argentina, Lula da Silva classificou o processo que conduziu ao impeachment de Dilma Rousseff, como um golpe de estado. Algo que já se adivinhava face ao lugar privilegiado que o criador tinha reservado à sua criação política na cerimónia de tomada de posse. Um ato durante o qual fez questão de a saudar publicamente.

Que a perda de mandato de Dilma Rousseff tenha resultado de decisão do Congresso, respaldada pelo Supremo Tribunal Federal, como estipula a Constituição, foi coisa que não pesou na avaliação de Lula da Silva. Para ele, Dilma foi vítima de uma cabala orquestrada não apenas contra ela, mas, sobretudo, contra o próprio e o Partido dos Trabalhadores (PT). Por isso, com o regresso de Lula à presidência, era chegado o momento não para a reunificação nacional, mas para o ajuste de contas.

Na verdade, o curto espaço de tempo que passou desde que Lula da Silva regressou ao Palácio do Planalto já foi suficiente para desgastar a imagem que o seu marketing político tinha conseguido vender durante a campanha eleitoral. Uma estratégia bem urdida, assente na apresentação de Lula como o único político capaz de aglutinar uma frente ampla. Uma imagem que colheu não apenas junto dos seus fiéis seguidores, mas, inclusivamente, atraiu partidos e setores da direita, interessados em tirar o Brasil da situação de crise que se agudizou durante o Governo de Bolsonaro. Um capitão que não soube ser general.

Os sucessivos escândalos de corrupção envolvendo a governação petista – Mensalão. Lava Jato… – abriram as portas do Palácio do Planalto a Bolsonaro. A sua falta de preparação política, mesclada com a arrogância populista, permitiu o regresso de Lula à presidência. Um regresso orquestrado, como já foi dito, por uma talentosa equipa de marketing político que logrou suavizar a imagem de Lula, disfarçando ao máximo a revolta que o continua(va) a consumir.

Porém, a composição do Governo representou o momento final dessa mise en scène. O discurso de tomada de posse encarregou-se de provar que Lula da Silva mantinha a essência populista. A clivagem entre nós – o povo puro e explorado – e eles – os fascistas, bolsonaristas – continuava totalmente enraizada no seu pensamento. Daí que, no discurso inicial, Lula tivesse ocupado não apenas o lugar do Presidente democraticamente eleito, mas fizesse questão de partilhar esse lugar com o líder partidário e o sindicalista e tivesse colocado no lugar do povo não a totalidade dos brasileiros, mas somente os seus apaniguados. Aqueles que continuam a acreditar acefalamente na sua narrativa de vítima.

Face ao exposto, não admira que Lula não tivesse sabido aproveitar o repúdio manifestado por bem mais do que os 51% que o tinham feito Presidente, quando uma multidão de vândalos se atreveu a imitar o ataque ao Capitólio por parte de outros energúmenos só que de língua diferente. Aliás, a invasão à sede dos Três Poderes só reforçou o ímpeto revanchista que alimenta Lula.

Os milhares de horas de leitura e de quilómetros percorridos para estudar a práxis populista já me permitiram obter resposta para a dúvida inicial, ou seja, se o populismo representava uma ameaça para a democracia ou uma hipótese para repensar o funcionamento do sistema democrático. Hoje, tenho por adquirido que o populismo, em qualquer das suas modalidades, é sempre parte do problema e nunca a solução duradoura.

É por conta dessa práxis que Lula da Silva não mostrou o menor incómodo quando denegriu, mais a mais fora de portas, as instituições brasileiras que depuseram, constitucionalmente, Dilma Rousseff.

O Brasil trocou um populista cultural ou identitário por um populista socioeconómico. A saga populista continua. Por mais loas que se cantem ao serviço de Lula da Silva.

Observador (PT)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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