domingo, janeiro 29, 2023

Lira encaminha reeleição se deslocando de Bolsonaro e com série de gestos a Lula

 

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Foto: Ricardo Stuckert / Divulgação

Em menos de três meses, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), pavimentou um caminho que o moveu de aliado próximo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), consolidando a reeleição para mais dois anos no cargo.
 

A votação, que é secreta, ocorre nesta quarta-feira (1) e Lira tem um amplo arco de apoio, indo do PL de Bolsonaro ao PT de Lula. Dois fatores principais explicam a rápida metamorfose. Primeiro, a fragilidade da esquerda, que controla apenas cerca de um quarto das 513 cadeiras na Câmara, o que tornou a perspectiva do lançamento de uma candidatura contra o líder do centrão uma aventura de altíssimo risco.
 

Segundo, as três ações de Lira que pavimentaram a aproximação com os petistas: o imediato reconhecimento público da vitória de Lula, a condução da aprovação da PEC que deu fôlego orçamentário ao novo governo e, por fim, a reação contra os vândalos golpistas do dia 8 de janeiro.
 

"O PT fez uma escolha pragmática. Aprendeu na eleição do Eduardo Cunha. Achou que não compensava correr o risco de tentar eleger uma pessoa do partido deles e dar errado. Foi uma decisão correta do ponto de vista estratégico", afirma o deputado Ricardo Barros (PP-PR), que foi líder do governo Bolsonaro na Câmara.
 

A referência feita pelo parlamentar é à eleição de 2015, quando a então presidente Dilma Rousseff bancou a postulação de Arlindo Chinaglia (PT-SP) contra Eduardo Cunha (então no MDB-RJ), mas viu seu candidato ser derrotado no primeiro turno pelo emedebista.
 

Menos de um ano depois e após uma série de atritos, Cunha deflagraria o processo que levaria ao impeachment da petista. A avaliação de Barros é compartilhada por outros parlamentares ouvidos pela Folha.
 

"Não acho que o pragmatismo seja do presidente Arthur Lira. O pragmatismo foi do governo. Você tem a competência do Arthur Lira de ter sido um articulador que contemplou todos os interesses convergindo para a candidatura dele neste momento. Aí foi muito pragmático para o governo embarcar numa candidatura que já tinha todos os sinais de vitoriosa, numa composição que é benéfica para todos", diz Marco Bertaiolli (PSD-SP).
 

Para Danilo Forte (União-CE), há a necessidade de uma relação mais madura do Executivo com Lira, "porque o presidente da Casa está mais forte". O líder da bancada do Republicanos, Vinicius Carvalho (SP), afirma que a aproximação Lula-Lira é salutar. "Tem que haver sim, essa sinergia e esse entrosamento."
 

O primeiro ato de Lira rumo ao barco petista se deu ainda na noite do segundo turno, em 30 de outubro. Apesar de ter sido um aliado fiel e de ter comandado no Congresso a aprovação do pacote eleitoreiro que buscava vitaminar as chances de reeleição de Bolsonaro, Lira foi a público naquela noite parabenizar Lula, fazer a defesa do resultado das urnas e dizer que era hora de "construir pontes".
 

A mensagem pública de que não engrossaria nenhum movimento de contestação do resultado, dada momentos depois de o Tribunal Superior Eleitoral declarar Lula matematicamente eleito, representou um esvaziamento da tática bolsonarista de tentar minar a confiabilidade das urnas eletrônicas.
 

Nesse mesmo domingo, Lira conversou amistosamente pela primeira vez com Lula, por telefone, para parabenizá-lo. Segundo quem testemunhou a conversa, o petista chegou a perguntar, como forma de quebrar o gelo, sobre a saúde do pai do deputado, o ex-senador Benedito de Lira (PP), 80, hoje prefeito em Alagoas.
 

A Folha mostrou que logo após a eleição integrantes do centrão já sinalizavam que Lula poderia contar com uma base parlamentar bem mais sólida caso apoiasse ou, pelo menos, não criasse obstáculos à tentativa de Lira se reeleger.
 

O primeiro encontro pessoal entre os dois ocorreu dez dias depois do segundo turno, na casa de Lira, em Brasília. Na reunião de cerca de duas horas, Lula disse que não iria interferir na eleição para o comando da Casa, segundo relatos. Ou seja, deu a senha que o líder do centrão esperava para continuar "construindo pontes" visando a sua reeleição.
 

Feito esse pré-acordo, Lira foi um dos principais condutores da aprovação ainda em dezembro da Proposta de Emenda à Constituição que abriu espaço no Orçamento para gastos e promessas do então presidente eleito.
 

O resultado folgado de 331 votos a favor não seria possível sem o apoio de Lira. O PP, por exemplo, entregou quase 40 votos a favor do texto. O terceiro movimento considerado crucial por petistas foi a reação de Lira aos ataques golpistas de 8 de janeiro.
 

O presidente da Câmara não só se manifestou condenando a depredação e cobrando punição, como foi ao procurador-geral, Augusto Aras, entregar uma notícia-crime contra suspeitos de vandalizar as dependências da Casa.
 

Mais importante, relatam aliados de Lula, assegurou a aprovação relâmpago na Câmara da intervenção federal na Segurança Pública do Distrito Federal, além de trabalhar nos bastidores para que governadores da oposição comparecessem ao encontro promovido por Lula com os chefes dos três Poderes, no dia seguinte ao vandalismo, como forma de demonstrar unidade das autoridades contra os golpistas.
 

Lira foi eleito presidente da Câmara em fevereiro de 2021, com o apoio de Bolsonaro. Em seus dois anos no cargo, atuou alinhado ao ex-presidente da República, assegurando sua sustentação política em troca da gerência de bilhões do Orçamento federal, o que usou para manter coeso o seu arco de alianças.
 

Ao mesmo tempo em que barrou pedidos de impeachment, Lira também foi importante peça na campanha de Bolsonaro à reeleição ao conduzir a aprovação do pacote eleitoreiro que reduziu o valor dos combustíveis e elevou o Auxílio Brasil a R$ 600.
 

Ele e Lula chegaram a trocar acusações na campanha principalmente por causa da alta concentração de poder nas mãos do deputado, decorrente da distribuição das emendas de relator.
 

Agora, isso são águas passadas, na visão dos dois grupos políticos. Integrantes do PT dizem, porém, que, passada a eleição da Câmara, Lira pode readequar o seu caminho político, o que pode representar dor de cabeça ao Palácio do Planalto.
 

Apesar disso, governistas afirmam não ver outra opção a Lula neste início de mandato. O atual presidente da República distribuiu nove ministérios a PSD, MDB e União Brasil, mas, mesmo com o apoio fechado dessas três legendas —o que dificilmente ocorrerá—, precisará do centrão de Lira para ter uma maioria sólida na Câmara.
 

É considerada uma base segura um contingente fidelizado de cerca de 350 dos 513 parlamentares. Para haver emendas à Constituição, por exemplo, é preciso do voto de ao menos 308 deputados.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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