terça-feira, janeiro 31, 2023

Em São Paulo, Tarcísio de Freitas lança projeto ambicioso contra a maior cracolândia do país


TRISTE CENA - Usuários de crack na região central de São Paulo: o problema desafia o poder público há três décadas -

A cracolândia resiste e tem desmoralizado as autoridades

Victoria Bechara
Veja

A expressão “crack” surgiu pela primeira vez em novembro de 1985, em uma reportagem do jornal The New York Times que narrava como o derivado barato da cocaína havia tomado áreas expressivas da cidade e criado rapidamente uma legião de viciados. Seis anos depois, a polícia faria a primeira apreensão do produto no Brasil, no entorno da Estação da Luz, área central de São Paulo.

Dali para a frente, ancorada no potencial destruidor da droga, na deterioração social dos grandes centros urbanos, na livre ação de traficantes e na inépcia do poder público, a cena dantesca de gente vagando por ruas degradadas só cresceu, a ponto de a região ganhar o triste codinome de “cracolândia”.

VÁRIOS FRACASSOS – Desde então, se sucederam iniciativas estaduais e municipais, que foram da opção pela força policial — a primeira intervenção, em 1995, ordenada pelo governador Mario Covas, se chamou Tolerância Zero — à abordagem mais humanista (como o programa De Braços Abertos, do prefeito Fernando Haddad), passando por grandes projetos de revitalização urbanística, como o Nova Luz, do prefeito José Serra.

Quase sempre, essas ações foram acompanhadas de sentenças definitivas — e furadas — sobre o problema. “A cracolândia não existe mais”, disse o prefeito Gilberto Kassab em 2008. “Pode escrever, a cracolândia vai desaparecer”, prometeu o governador Geraldo Alckmin em 2017, mesmo ano em que o prefeito João Doria bancou: “A cracolândia acabou”. Não só não acabou, como se consolidou.

Pesquisa divulgada pela Unifesp em janeiro ilustra o tamanho do fracasso do poder público para resolver a questão: quatro em cada dez usuários frequentam a região há pelo menos dez anos — um porcentual parecido com os de Brasília e Fortaleza (veja o quadro abaixo), também incluídas no estudo.

OUTRO CAMINHO - O problema que assombra a cidade há três décadas vai ser alvo agora de uma nova investida. Logo nos primeiros vinte dias de gestão, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) reu­niu o prefeito Ricardo Nunes (MDB) e representantes do Judiciário, Ministério Público, Defensoria, entidades religiosas e organizações sociais para articular uma ambiciosa intervenção, que pretende reunir políticas de saúde, urbanísticas, econômicas e de segurança para tentar equacionar o problema.

O pacote prevê a abertura de 1 000 vagas de internação em comunidades terapêuticas, 264 leitos para desintoxicação em hospitais, contratação de 200 profissionais especializados para a abordagem de dependentes e o pagamento de uma ajuda financeira de 600 a 1 200 reais para a família que acolher o usuário de volta.

O Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod) será reformulado para funcionar como uma casa de passagem, com quarenta vagas, e uma base para a atuação de membros do MP, da Justiça e da sociedade civil. O plano prevê, ainda, 700 novas moradias na área e a revitalização de espaços públicos.

SEM POLÍCIA – Apesar de ser um militar da reserva e de ter sua base no bolsonarismo, Tarcísio não priorizou a repressão policial. Na segurança, haverá um sistema de monitoramento com 500 câmeras e a adoção da “justiça terapêutica”, prevista na Lei Nacional Antidrogas, que dá ao usuário a chance de optar pela internação em vez de responder por algum crime relacionado a drogas.

A internação compulsória, um tabu nesse tipo de enfrentamento, só deverá ser adotada “em último caso” e com decisão judicial, segundo Tarcísio. “Vamos partir do pressuposto de que cada pessoa é uma. Temos de ter um cardápio de opções para não perder oportunidades”, afirma o governador.

Embora tenha optado por uma intervenção transversal para enfrentar um problema de fato complexo, o plano exclui uma iniciativa comum em países desenvolvidos que conseguiram algum avanço no combate ao crack.

USO ASSISTIDO – Alemanha, Noruega e Dinamarca, por exemplo, conseguiram reduzir cenas de uso de drogas com acompanhamento médico e salas para uso assistido — nelas, o usuário pode utilizar a substância em menor quantidade e com auxílio de um profissional de saúde, o que diminuiu mortes por overdose e outros danos ao evitar o compartilhamento de seringas e cachimbos.

Para a pesquisadora Maria Angélica Comis, a nova iniciativa preocupa por focar a abstinência. “Parte das pessoas não adere às alternativas ofertadas. É necessária uma abordagem de baixa exigência, baseada na redução de danos, que está na lei municipal. Mas não houve nenhuma proposta nesse sentido”, avalia.

O plano demonstra vontade para resolver a questão, mas os últimos anos já mostraram que isso não basta. Tarcísio fez uma aposta alta ao lançar o pacote na sede do governo e escalar o seu vice, Felicio Ramuth, para liderar o enfrentamento de um tema que sempre foi mais da alçada da prefeitura. Novato na política, arrumou um bom desafio logo na largada. Apesar do histórico desfavorável, a torcida, como sempre, é para que dê certo.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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