segunda-feira, janeiro 30, 2023

Se não aperfeiçoar a educação básica, o Brasil estará condenado ao fracasso

Publicado em 29 de janeiro de 2023 por Tribuna da Internet

Lula jamais leu um livro e não sabe a importância da educação

Pedro Doria
O Globo

O pesadelo nacional durou quatro anos e se encerra neste domingo com a posse de um novo presidente. Um presidente que, pouco importam seus defeitos, construiu sua carreira política a partir da democracia. Estivemos muito próximos de perdê-la, mais próximos do que muitos se dão conta. Muitos não se dão conta, tampouco, de que Jair Bolsonaro recebeu, neste último segundo turno, mais votos do que teve para elegê-lo em 2018.

O eleitorado de Bolsonaro não diminuiu, aumentou ao longo de seu mandato destrutivo, iliberal, anti-iluminista. Daí nasceu o principal desafio para o governo que entra: lidar com a angústia que leva à busca pelo populismo autoritário.

GRITAR FASCISTA! – Porque é fácil gritar “fascista”, fazer troça de quem acredita nas mentiras do zap, simplesmente tratar de ignorante quem recusa a vacina, bruto quem compra armas ou com desdém a massa que fez da camisa da seleção a versão contemporânea do uniforme verde-escuro com a braçadeira do Sigma.

Por trás de todo esse comportamento que arrasta não só dezenas de milhões de brasileiros, mas também outros tantos americanos que votaram em Donald Trump ou os italianos que elegeram Giorgia Meloni, está a angústia com um mundo em rápida transformação.

Não vivemos mais na Era Industrial. Não são mais as mãos de operários que produzem a riqueza do mundo, como nos últimos dois séculos e meio. Num planeta em que as grandes empresas não são mais petroleiras, bancos ou a GE — que dominaram o século XX —, a origem da riqueza é outra. São cérebros educados com alta sofisticação. E nunca a matemática foi tão importante.

TUDO É MATEMÁTICA – Não é a política industrial que será capaz de tirar o Brasil deste lugar menor que ocupamos na economia do planeta. A política industrial poderá ser boa ou ruim, mais ou menos intervencionista, mas dependerá fundamentalmente de quantidade de gente, aqui, apta a trabalhar com o meio digital, com genética ou com energia. Tudo é matemática.

Mais de um estudo sugere que algo como 20% da proficiência em matemática depende da genética que herdamos. É um rolar de dados. Eu, filho de matemático, suo frio de fazer uma conta de somar de três dígitos sem o auxílio de papel ou calculadora.

A genética não me foi generosa, mas há outra coisa que sabemos a respeito dela. Não escolhe CEP, cor de pele ou profissão do pai. Os outros 80% da capacidade matemática dependem de expor a criança ao conhecimento desde cedo, desafiá-la a aprender, incitá-la a descobrir prazer no cálculo.

DESPREPARO TOTAL – Como não fazemos isso com a massa de brasileiros que nascem nas periferias urbanas, jogamos gente fora todos os anos. Gente é riqueza no século XXI.

Os governos Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer avançaram, mas nem de perto o suficiente. Bolsonaro nem sequer tentou. Se queremos uma chance daqui a dez ou 20 anos, precisamos resolver o problema da educação básica de massas neste governo. É a coisa mais importante que Lula 3 precisará fazer — e, isso, numa lista não pequena de tarefas importantes.

Todo mundo sabe que sua profissão mudou muito nos últimos 20 anos. Que as habilidades antes necessárias hoje são outras. Vale para o advogado e para o eletricista. Para nós, jornalistas, ou para entregadores de aplicativo.

FUTURO INCERTO – Todos somos tocados toda hora por mudanças, mudanças que não param, que geram uma profunda incerteza sobre o futuro.

E, sem alguém que desenhe que futuro será esse, que aponte tranquilo para as possibilidades do que virá e mostre como diminuir as dores, os impactos da transformação contínua, sem esse alguém estamos lascados.

O autoritarismo reacionário, nostálgico com um passado que não mais retornará, seguirá vivo enquanto tivermos motivos para temer o futuro.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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