segunda-feira, janeiro 30, 2023

“Governo tem condições de tirar garimpeiros das terras indígenas, basta vontade política”


Sydney Possuelo é o mais experiente indigenista do país

Rosiene Carvalho
Folha

Para o sertanista Sydney Possuelo, 82 anos, as imagens de indígenas yanomamis desnutridos e doentes, divulgadas na última semana, o levaram de volta à década de 1990. Então presidente da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), ele foi o responsável pelo trabalho de demarcação da Terra Indígena Yanomami, em 1992.

Atuando no campo indigenista há mais de 40 anos, Possuelo é considerado um dos principais nomes da área no país. Presidiu a Funai de 1991 a 1993, quando demarcou mais de 160 terras indígenas. Foi exonerado de cargo na fundação durante o primeiro governo Lula, em 2006, após ter feito críticas ao então presidente do órgão.

Em entrevista à Folha, ele afirma ser possível retirar os garimpeiros da região yanomami – desde que haja vontade política –, critica o desmonte da Funai e classifica a gestão Jair Bolsonaro (PL) como “a coisa mais terrível que ocorreu” para os povos indígenas.

Qual foi sua reação ao ver a condição dos yanomamis voltar ao que era antes da demarcação, com a terra tomada por garimpeiros e o efeito dessa invasão em seus corpos?
Fiquei profundamente chocado com as imagens. Poxa vida, estou revivendo aquele mesmo processo, será possível? Ano passado comemoramos os 30 anos da demarcação. O índice de mortandade estava muito alto. Isso nos espantou. Os povos indígenas mandaram uma infinidade de documentos à Funai, ao Ibama, à Presidência da República. Pediram socorro várias vezes e nada foi escutado. Aqueles corpos esquálidos, a mãe amamentando o filho tão esquelética quanto o menino é um drama terrível que nos envergonha perante o mundo.

Como foi promover a desintrusão e a demarcação do território yanomami, na década de 1990?
Naquela ocasião, havia a mesma situação: destruição, morte de criança, falta de alimento. Equipes da Funai e da Polícia Federal foram a campo, entraram em conflitos por vezes. Saiu sertanista morto e policiais feridos. Roraima tinha o aeroporto de maior atividade no país. Levantavam centenas de voos por dia, levando ou buscando coisas da terra indígena. Os postos de gasolina foram controlados, fechamos o espaço aéreo e havia certo monitoramento de alimentos. E os invasores ficaram sem abastecimento. Usamos aeronaves da Funai e da Força Aérea para retirar cerca de 40 mil garimpeiros, milhares de dragas. Fomos de garimpo em garimpo e eles se entregando. A desintrusão levou cerca de quatro meses.

E agora piorou?
Há indicações de que hoje traficantes atuam no garimpo. Se antes os garimpeiros eram indivíduos ou grupos de três ou quatro, hoje parece ter uma organização por trás. Alguém está ganhando dinheiro com isso. Precisamos desvendar e paralisar rapidamente. Se estão organizados, deixam mais vestígios na cidade. Têm de comprar gasolina, fazer a manutenção dos helicópteros. Então, não seria tão difícil o trabalho de inteligência detectar isso. O Estado brasileiro tem as condições necessárias para a retirada dos garimpeiros. Se quiser e houver vontade política, vai retirar. A presença do Lula na região foi importante. Passa a mensagem de que mudou tudo, de que ninguém aqui vai apoiar invasão. Acaba com a indiferença.

Na Raposa Serra do Sol, também em Roraima, há outras condições de proteção das comunidades. Por que os yanomamis têm maior vulnerabilidade?
São povos que dependem muito do meio ambiente, de água limpa, de solo para plantar e colher. Caça e pesca. Estão no extremo norte da Amazônia. Para sair dali, dependeriam de aviões e barcos. Cada índio depende do seu esforço para manter sua vida e a da sua família. Não tem supermercado ao lado. Quando não pode caçar e pescar, ele passa fome. Estou vendo levarem cestas básicas com arroz, macarrão e feijão, que inclusive modifica totalmente a alimentação deles e pode gerar doenças provocadas por nossa alimentação, que tem muito óleo, carboidratos.

Como o senhor avalia a política indigenista de Bolsonaro?
A coisa mais terrível que ocorreu contra os povos indígenas foram esses últimos quatro anos. Usaram a máquina do governo para destruir. O que a Funai fez é algo inacreditável na história indigenista. Não sou jurista, mas há formas de matar ou destruir uma comunidade, um povo. Pode pegar arma e dar um tiro em cada um. E tem as [formas] indiretas. Se você corta o alimento, o medicamento, não manda o médico, acaba redundando na morte deles.

O senhor considera proposital o que foi feito e desfeito na política indigenista?
Por que desmontar a Funai? Bolsonaro representa uma política adrede, preparada, pensada, organizada no sentido de exterminar os indígenas. Você não quer demarcar, não dá saúde, deixa as invasões trazendo doenças. Isso é para acabar. Não é diretamente um genocídio, não sei, talvez até seja. Mas, indiretamente, é. Na medida em que você facilitou a ação de agentes nefastos para aquela comunidade.

Como o senhor avalia a atuação da Funai na pandemia?
A pandemia foi um agravante, que envolveu também 700 mil brasileiros mortos. Mas não precisava dela para os índios. A Funai, feita para proteger os índios, passou a trabalhar contra. O meio ambiente foi destroçado por aquele rapaz, o homem da boiada [Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente]. Ele se elegeu deputado federal. Está protegido, mas deveria estar preso. Se você matar um tatu na rua, o Ibama te prende. Quantos milhares de tatus aquele homem não destruiu permitindo a devassa nas florestas, corte de madeira, roubo?

O que será dos yanomamis?
Como se pode ver neste e em outros episódios da história, depende do mundo branco que os oprime. Cabe um trabalho desse governo para manter vigilância e proximidade maior e, junto a eles, auxiliá-los a mudar o seu próprio destino. O que será deles no futuro depende do hoje. Se o Brasil respeitar os povos indígenas, podemos antever um futuro melhor. Desejo que o Lula faça isso e que se torne um ponto de honra para a população brasileira que ainda está distante. Porque os vizinhos dos povos indígenas são seus primeiros inimigos, que estão ali sempre criticando, invadindo.


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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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