sábado, maio 01, 2021

MP-BA denuncia gestão do Hospital de Antas por falsificação de laudos e peculato


MP-BA denuncia gestão do Hospital de Antas por falsificação de laudos e peculato
Foto: Reprodução/Google Street View

O Ministério Público da Bahia (MP-BA) denunciou um suposto esquema criminoso envolvendo a gestão do Hospital Nossa Senhora de Lourdes, no município de Antas, na região agreste do estado. O médico Lucas Matos do Nascimento, que é o presidente da Associação Santa Casa Sem Fronteiras, e o auxiliar administrativo Lenivaldo Castro Bomfim Júnior foram denunciados pelo MP acusados de falsificar internações de pacientes na unidade, com o objetivo de receber recursos públicos do SUS, repassados pela Secretária da Saúde da Bahia (Sesab). O caso foi investigado e provas foram levantadas pela Delegacia de Polícia de Antas.

 

O MP denuncia Lucas Nascimento e Lenivaldo Bomfim por falsificação de documentos públicos, falsidade ideológica qualificada e peculato, uma vez que a falsificação de guias de internação condicionou ao recebimento de mais recursos do Sistema Único de Saúde.

 

Segundo a denúncia, provas testemunhais e documentais no curso da investigação demonstram que Lucas Nascimento usou o nome do seu antecessor na gestão no hospital, Aldrovando Felix do Nascimento, para falsificar documentos de “Autorização de Internamento Hospital (AIH)”. Conforme informações obtidas pelo Bahia Notícias, Aldrovando é pai de Lucas, também é médico, tem 82 anos, e não pratica mais medicina devido a problemas de saúde.

 

A denúncia destaca que Aldrovando foi diagnosticado com Alzheimer, tem idade avançada, e não atua como médico definitivamente desde 2019. “Não mais praticando qualquer atividade médica ou administrativa em decorrência de seu precário estado de saúde”, ressalta a peça.

 

O MP aponta que Lucas Nascimento e Lenivaldo Bonfim, “em parceria criminosa”, teriam falsificado inúmeras laudos de internação, de modo que no mês de julho de 2020, mesmo com Aldrovando Félix Nascimento afastado desde o ano anterior, consta que o médico teria exercido uma jornada de 74 horas de trabalho. O MP vê na atitude “finalidade de apropriar-se de verbas públicas”.

 

Em uma das provas documentais anexadas à denúncia, a secretária da Saúde de Antas, Maíra Juçara de Matos Nilo, sinalizaria indícios de irregularidades e solicita uma auditoria no Hospital. Em um trecho do ofício ela apresenta o argumento de que na escala do mês de maio de 2020 o nome do médico Aldrovando Félix Nascimento não aparece previsto como plantonista, mas ainda assim ele é o médico solicitante de mais de 70% das Autorizações de Internação Hospitalar (AIHs) do mês.

 

A Delegacia de Polícia de Antas localizou cerca de 10 pacientes que constavam em documentos de internação que teriam sido solicitadas pelo médico, mas que não teriam ocorrido. A denúncia aponta que Lenivaldo Bomfim preencheu todas as Autorizações de Internamento Hospital (AIH) “de maneira criminosa para consumar o delito de peculato de recursos públicos”.

 

A investigação mostrou que somente no dia 27 de agosto de 2020, cerca de 42 Autorizações de Internamentos Hospitalar teriam sido falsificadas pela dupla de denunciados em nome de Aldrovando Félix Nascimento. Consta nos autos que não foram as únicas AIHs com indícios de irregularidade.

 

O entendimento do promotor de Justiça Gildásio Rizério de Amorim, assinado em 12 de abril de 2021, aponta que os denunciados tinham o objetivo de bater as metas estabelecidas pela Sesab para receber integralmente os valores estabelecidos pelo cumprimento de 100% dos atendimentos aos pacientes Antenses. A conduta de Lucas Nascimento e Lenivaldo Bomfim teria induzido a Secretaria Estadual de Saúde da Bahia ao erro, “mediante artificio com declarações falsas”.

 

O Hospital Nossa Senhora de Lourdes é uma instituição contratada e conveniada com a Sesab para prestar serviço público, por isso recebe recursos do SUS.  

 

O gestor do hospital ainda é acusado de usar nos laudos o nome de um médico que nega já ter trabalhado na unidade. Segundo a denúncia, Lucas Nascimento teria contratado o o homem como clínico geral e esse teria feito atendimentos aos pacientes do hospital durante o ano de 2020. Porém, a investigação da delegacia de Polícia de Antas entrou em contato com o profissional e ele reconheceu que os dados nos documentos lhe pertencem, mas afirmou que nunca prestou qualquer tipo de atendimento médico no Hospital Nossa Senhora de Lourdes e nem em qualquer outro estabelecimento de saúde localizado na cidade de Antas.

 

A reportagem do Bahia Notícias entrou em contato com Lucas Nascimento nesta sexta-feira (30) e o médico justificou que a denúncia se deu em meio a um mal entendido, que se tratava de um “erro de datilografia” e que “já foi corrigido”. Segundo ele, a corregedoria da Secretaria da Saúde esteve na unidade e a situação foi esclarecida.

 

A Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) foi procurada e informou que, até o momento, não há nenhum processo administrativo em curso tratando da suposta irregularidade indicada.

Bahia Notícias

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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