sábado, maio 29, 2021

“The Economist” mostra Bolsonaro sob cerco e dedicado à velha política clientelista

Publicado em 29 de maio de 2021 por Tribuna da Internet

Economist já prevê o fim do bolsonarismo

A revista critica a volta de Bolsonaro à velha política

Deu no The Economist
(Estadão)

Há muitas maneiras de descrever a compra de apoio na política brasileira, incluindo “toma lá, da cá”, “troca de favores” e “velha política”. Em 2018, durante sua campanha, Jair Bolsonaro usou esses e outros insultos, muito mais rudes, para desqualificar seus colegas políticos, especialmente do PT, que governou o Brasil de 2003 a 2016 e foi marcado por dois grandes escândalos de corrupção. Como presidente, Bolsonaro prometeu avançar com sua agenda sem distribuir cargos nem emendas.

O primeiro sinal de que Bolsonaro havia desistido de sua “nova política” veio em meados de 2020, quando ele formou uma aliança com um bloco de partidos dedicados somente ao interesse próprio, conhecido como Centrão, para conseguir se proteger de pedidos de impeachment, que já somam 117 no Congresso.

CUSTA CARO – O apoio do Centrão nunca é gratuito. Uma recente investigação do jornal O Estado de S.Paulo mostrou que, em 2020, o governo distribuiu mais de R$ 20 bilhões por meio de emendas de relator, o parlamentar que cuida da elaboração do orçamento no Congresso.

Pelo menos R$ 3 bilhões foram encaminhados por meio do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) atendendo a indicações de parlamentares para obras públicas e compras de máquinas e equipamentos agrícolas – aquisições previstas com preços, em alguns casos, acima da tabela de referência do MDR.

O escândalo, que a imprensa chamou de “tratoraço”, é a mais evidente prova até agora da participação de Bolsonaro na política clientelista.

EM MEIO À CPI – A situação se desdobra juntamente com um desastre de relações públicas ainda maior: uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga como o governo lidou com a pandemia.

As duas crises demonstram como Bolsonaro tem se enfraquecido cada vez mais e como o Congresso, conhecido pelo oportunismo endêmico, usou essa vulnerabilidade do presidente para se fortalecer. “Quanto mais frágil o presidente, mais ele tem de pagar por esse apoio”, explica Sylvio Costa, do site de notícias Congresso em Foco.

O sistema político brasileiro, conhecido como “presidencialismo de coalizão”, é um híbrido entre o modelo presidencialista dos EUA e um parlamentarismo à moda europeia. O presidente comanda políticas públicas e determina o orçamento, mas não consegue fazer muita coisa sem o Congresso, onde seus partidos raramente detêm maioria.

TROCA DE FAVORES – A maior parte dos cerca de 30 partidos brasileiros não possui plataformas ideológicas; eles apoiam o presidente em troca de favores. Isso beneficia projetos que conquistam votos, como pavimentação de estradas ou reformas de escolas, em detrimento de planejamentos a longo prazo, diz Élida Pinto, professora de finanças públicas da FGV.

Em 1994, seis parlamentares perderam os cargos como resultado de um escândalo de compra de votos envolvendo ONGs falsas. Em 2005, um deputado do Centrão admitiu que o PT pagava R$ 30 mil por mês a parlamentares em troca de apoio no Legislativo. (Cassado, ele agora é aliado de Bolsonaro.)

Em 2014, a Lava Jato revelou um vasto esquema de propinas entre construtoras, partidos e a Petrobrás. Em resposta a protestos, o Congresso aprovou uma série de emendas constitucionais destinadas a reduzir a corrupção sem incomodar os congressistas.

EMENDAS IMPOSITIVAS – A maioria das ementas se tornou uma dotação automática (não designada pelo presidente) para que os legisladores gastassem em seus redutos eleitorais. Era necessário seguir novas regras, como apresentar recibo. Mas essas restrições dificultaram a formação de coalizões.

Quando a presidente Dilma Rousseff (PT) sofreu impeachment, em 2016, a razão técnica foi ter maquiado o déficit orçamentário do Brasil; mas isso ocorreu por causa das dificuldades dela em controlar um Congresso cada vez mais rebelde. Ela expandiu seu gabinete para 39 ministérios na tentativa de acomodar políticos com cargos, mas a recessão em 2014-16 limitou o alcance deste plano.

Bolsonaro está passando por algo parecido. O Brasil teve uma das piores crises de covid-19 do mundo, com mais de 450 mil mortos. Sua estratégia de minimizar a pandemia pareceu funcionar em 2020, quando um terço dos brasileiros recebeu auxílio emergencial. Mas, este ano, a segunda onda da doença coincidiu com uma alta na inflação, a lentidão na vacinação e uma redução nos benefícios oferecidos pelo governo.

APOIO EM QUEDA – A aprovação de Bolsonaro caiu de 40% para menos de 30%. O presidente da Câmara, Arthur Lira, única pessoa que pode abrir um processo de impeachment, fez um alerta falando em “amargos remédios políticos”.

Mas um impeachment é improvável, em parte porque Bolsonaro reinventou na prática a compra de apoio político no fim de 2019. A maioria dos novos recursos orçamentários foi destinada a legisladores que votaram em Rodrigo Pacheco, escolha de Lira e do Centrão para a presidência do Senado.

Documentos nos sites do governo mostram o destino de apenas cerca de R$ 1 bilhão dos R$ 3 bilhões gastos pelo MDR. O relator do orçamento, Domingos Neto, destinou R$ 110 milhões a uma cidade de 59 mil habitantes da qual sua mãe é prefeita. O ministério aceitou pagar R$ 500 mil por tratores com preço regular de R$ 200 mil. As autoridades insistem que não houve irregularidade.

CPI AO VIVO – Uma ameaça maior à popularidade de Bolsonaro é a CPI, que começou os depoimentos no Senado este mês. As sessões diárias são transmitidas ao vivo na TV, criando uma macabra história oral do desastre brasileiro na pandemia. Dois ex-ministros da Saúde disseram que a estratégia inicial do governo apostava na imunidade de rebanho e na hidroxicloroquina, remédio para a malária promovido por Donald Trump.

Um executivo da Pfizer disse que o governo ignorou seis ofertas de venda de vacinas ao Brasil. O então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, general que também estava no comando quando acabou o suprimento de oxigênio em Manaus, tentou fugir do depoimento alegando suspeita de estar com covid.

Bolsonaro “está se tornando prisioneiro da própria impopularidade”, diz Alessandro Molon, líder da oposição na Câmara.

AUMENTA A REJEIÇÃO – As pesquisas mais recentes mostram queda no apoio ao presidente em quase todos os segmentos do eleitorado, incluindo entre seus defensores mais convictos, como os evangélicos. É provável que seu principal rival nas eleições de 2022 seja Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente petista cuja popularidade aumentou recentemente.

Uma pesquisa de intenção de voto indica que, caso o segundo turno fosse realizado já, 55% dos votos ficaria com ele, enquanto Bolsonaro receberia 32% (o restante do eleitorado disse que não votaria em nenhum dos dois).

Quando os brasileiros veem europeus e americanos sendo vacinados, percebem que “nosso presidente é uma caricatura”, diz Ciro Gomes, que também quer se candidatar.

A ECONOMIA AJUDA – Bolsonaro pode se recuperar antes da eleição. A vacinação está avançando, enfim, e a economia apresenta desempenho melhor do que se temia.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, insistiu para que o Congresso aprove as reformas tributária e administrativa. Ele diz que, com, isso, recursos seriam liberados para uso em programas que rendem votos.

Mas os legisladores também querem sua parte. “O Centrão não é leal”, alerta Rebeca Lucena, da consultoria BMJ. “Se o navio estiver afundando, eles vão mudar de barco.”


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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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