sexta-feira, maio 28, 2021

Contra Bolsonaro, FHC e Lula vivem novo capítulo em relação de 45 anos

 


Contra Bolsonaro, FHC e Lula vivem novo capítulo em relação de 45 anos
Campanha de FHC ao Senado, em 1978 | Foto: Divulgação

Em meados de 1978, a antiga cantina Leão de Ouro, na cidade de São Bernardo do Campo (SP), reuniu numa mesma mesa o professor Fernando Henrique Cardoso e sindicalistas liderados por Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Estavam ali fechando o apoio dos metalúrgicos à campanha de FHC para o Senado, na eleição que seria disputada em novembro daquele ano.

 

Ao fim da refeição, os dois futuros presidentes da República e os outros comensais comemoraram o acordo num coro de "Pra Não Dizer que Não Falei das Flores", hino informal contra a ditadura, de Geraldo Vandré.

 

A história é relembrada pelo ex-sindicalista Djalma Bom, amigo de Lula, um dos que estavam sentados à mesa. "A gente via o Fernando Henrique como um aliado na defesa de pautas salariais e da democratização. Num comício em Osasco dias depois, Lula o chamou de reserva moral da nação", diz Bom.

 

Na semana passada, uma foto de Lula e FHC durante almoço na casa do ex-ministro Nelson Jobim surpreendeu o mundo político (veja aqui).

 

Houve diversos elogios à civilidade de ambos, unidos contra as atitudes antidemocráticas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), mas também críticas de petistas e tucanos contrários ao gesto de aproximação com o respectivo adversário político.

 

Se analisado num horizonte maior, no entanto, o almoço foi apenas mais um lance da montanha-russa que tem sido a ligação entre os dois líderes políticos ao longo de 45 anos de convivência.

 

A primeira década dessa relação foi indiscutivelmente de grande afinidade entre os dois. Em 1978, FHC acabaria não se elegendo (ficou como suplente, segundo as regras da época), mas o convívio com Lula se manteve próximo.

 

Dois anos após a cantoria no restaurante, eles se encontraram em junho de 1980 no jornal Folha de S.Paulo, num debate promovido pelo Folhetim, antigo suplemento dominical do jornal.

 

O tema eram as negociações salariais entre trabalhadores e patrões, e os dois concordaram praticamente sobre tudo. Analisaram as dificuldades de que isso fosse viável num contexto de ditadura e, num clima amistoso, trocaram provocações bem-humoradas.

 

Fernando Henrique Cardoso, acadêmico por natureza, fez uma longa digressão teórica sobre o assunto, citando exemplos de outros países, ao que Lula gracejou: "O professor Fernando Henrique Cardoso foi curto na sua explanação e, se fosse contar tudo, acabaria cansando o plenário".

 

O troco veio em seguida, quando o professor elogiou a coragem do sindicalista, que acabara de passar 31 dias preso pelo regime. "Está aí um dos comandantes [da resistência à ditadura], vivo e ao nosso lado. Apesar da cadeia, que aliás fisicamente fez bem a ele."

 

Terminado o debate, Lula saiu do jornal e parou num boteco ao lado do prédio da Folha, na alameda Barão de Limeira, centro de São Paulo, onde pediu uma cerveja e ficou conversando com apoiadores e jornalistas. FHC chegou alguns minutos depois, mas não entrou.

 

"Os dois se falaram rapidamente na calçada, e o Fernando Henrique disse a Lula que depois precisavam conversar com mais calma", lembra Edgard Alves, que trabalhava na seção de esportes do jornal.

 

Apesar da camaradagem, FHC não se filiou ao PT, embora tivesse participado de reuniões em São Bernardo do Campo para discutir a criação do partido, o que ocorreria em fevereiro de 1980.

 

"O Fernando Henrique tinha uma visão de que o país naquele momento precisava de um partido popular, porém amplo, não um partido classista como nós queríamos. E que esse partido já era o PMDB, onde ele estava", afirma Bom.

 

Ambos seguiram do mesmo lado na campanha das Diretas, em 1983 e 1984, e depois começaram a se distanciar politicamente, conforme suas ambições políticas cresciam.

 

O cientista político Francisco Weffort, que conviveu de perto com os dois, afirma que o afastamento foi muito mais político do que ideológico.

 

"A política de pequena escala confunde a política de grande horizonte. O cara quer um lugar, o outro quer o mesmo lugar, aí complicou", diz Weffort, que foi secretário-geral do PT e ministro da Cultura no governo FHC.

 

Segundo ele, o que diferencia os dois é basicamente a origem social, porque a essência dos governos de um e de outro, afirma, foi bem parecida.

 

Em 1993, PT e PSDB ensaiaram uma união para a disputa da eleição do ano seguinte, mas que acabou fracassando à medida em que o Plano Real era concebido e que o PT apostava na dianteira de seu candidato nas pesquisas.

 

Com a vitória de FHC, Lula e a esquerda grudaram no tucano o rótulo de "neoliberal", algo que ele nunca aceitou. "Na verdade, o Fernando Henrique não fez um governo neoliberal, mas sim liberal-democrata, com ênfase no social. Assim como foi o governo do Lula", afirma Weffort.

 

Os 16 anos de mandatos presidenciais de FHC e Lula (1995-2010) foram o ápice da agressividade mútua, com acusações que muitas vezes extrapolavam o campo programático e resvalavam para o da ética. O tucano falava de mensalão, e o petista de privataria.

 

"A grande ruptura foi quando o Lula assumiu a Presidência e disse de ter recebido uma herança maldita. É como se tivesse apunhalado o Fernando Henrique pelas costas", diz Xico Graziano, que foi secretário particular e ministro de FHC.

 

Segundo ele, o tucano nunca escondeu essa mágoa. "O FHC passou o bastão ao Lula até com um certo gosto de ver um operário na Presidência. E não era herança maldita coisa nenhuma, o Lula colheu no seu governo as laranjas que o FHC plantou", afirma Graziano.

 

Para Djalma Bom, se ocorreram atritos entre ambos, não foi por causa do petista. "O Fernando Henrique sempre teve um pouco de vaidade, parecia um galã de cinema. O carisma e a inteligência do Lula o incomodavam", diz.

 

Houve pequenos períodos de trégua neste período de ânimos exaltados entre os dois. Um deles foi em 2002, quando o Brasil precisou recorrer ao FMI e o tucano, ainda presidente, chamou os candidatos à sua sucessão para conversas em Brasília. Lula foi o único a ter a deferência de um bate-papo a sós.

 

Em 2005, o petista fez um gesto de boa vizinhança e incluiu FHC e o ex-presidente José Sarney em sua comitiva para o funeral do papa João Paulo 2º, em Roma.

 

Em 2013, já com Dilma Rousseff na Presidência da República, os ex-presidentes fizeram outra viagem juntos, dessa vez para o velório de Nelson Mandela, na África do Sul. Foram 20 horas de contar causos nas viagens de ida e volta, disse o tucano na época ao jornal Valor Econômico.

 

"Lembramos de muita coisa do passado, coisas de São Bernardo [do Campo], das quais eu participei muito e Lula lá era o líder", afirmou FHC na ocasião.

 

As mortes das respectivas mulheres também amainaram ressentimentos entre os dois ex-presidentes. Lula esteve no velório de Ruth Cardoso, em 2008, e FHC visitou o hospital onde morreu Marisa Letícia, em 2017.

 

Mas foi a presença de Jair Bolsonaro na cadeira presidencial que já foi de ambos que serviu para mais uma vez juntar os dois rivais políticos.

 

"Eles estiveram juntos no fim do período militar e logo depois, na campanha das Diretas. O Bolsonaro não é um candidato dentro do corpo da democracia, e ele provoca essa união. É o mesmo princípio de antes", afirma Weffort.

 

Graziano, que achou "lamentável" a foto do antigo chefe com Lula, diz que os dois políticos mantêm uma relação complexa. "No fundo, eles têm uma certa admiração um pelo outro".

 

FHC agora diz que, ao contrário de 2018, optaria por Lula num hipotético segundo turno contra Bolsonaro na eleição do ano que vem.

 

Com as pesquisas apontando para este cenário, a cena de uma nova união, quatro décadas e meia depois da refeição festiva na cantina de São Bernardo, está no horizonte, em que pesem os anos de críticas pesadas de parte a parte.

 

Neste cenário, o tucano poderá tornar realidade o desejo que expressou em entrevista ao cineasta Fernando Grostein em 2018, publicada no jornal Folha de S.Paulo. "Se eu pudesse reviver a história eu tentaria me aproximar não só do Lula, mas de forças políticas que eu achasse progressistas em geral", disse FHC.

Bahia Notícias

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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