sexta-feira, maio 28, 2021

Comandante do Exército está no pior dos mundos: ou perde o cargo, ou perde a autoridade

Publicado em 28 de maio de 2021 por Tribuna da Internet

General Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira

General Nogueira está caminhando na corda bamba

Eliane Cantanhêde
Estadão

Por que o presidente Jair Bolsonaro saiu ontem de Brasília, voou quase 3 mil quilômetros e se meteu no meio da Amazônia para inaugurar uma pontezinha de madeira, de menos de 20 metros? Simples. Para continuar seduzindo os militares e tentar fazer com o novo comandante do Exército, general Paulo Sérgio, o que fez com o também general Eduardo Pazuello: cooptá-lo, para manipulá-lo. Mas Paulo Sérgio não é Pazuello.

A ponte Rodrigo e Cibele fica na BR 307, liga São Gabriel da Cachoeira (AM) à Comunidade Indígena Balaio e foi feita pela Engenharia do Exército. Bom pretexto para o encontro de Bolsonaro com Paulo Sérgio e o ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, com direito a fotos e ao teatro de que vai tudo às mil maravilhas entre o presidente e as Forças Armadas. Não é assim.

PRAZO VENCIDO – Enquanto Bolsonaro se encontrava com o comandante e o ministro, bem longe da capital, vencia o prazo de 72 horas para que Pazuello se defendesse no Comando do Exército sobre sua presença num ato evidentemente político com o presidente, no Rio, domingo passado. O Estatuto Militar e o Regimento Disciplinar do Exército proíbem militares da ativa, caso de Pazuello, em atos políticos.

Quem tem poder monocrático no caso Pazuello é Paulo Sérgio, que tem sete dias para decidir e está no pior dos mundos: ou pune, correndo o risco de ser desautorizado por Bolsonaro e obrigado a se demitir; ou não pune e perde o respeito e a autoridade. Como ele estava ontem confraternizando com o presidente, suspeita-se que possa estar sendo convencido a optar por mera advertência. Não será fácil.

Ao defender punição, “para evitar a anarquia”, o vice Hamilton Mourão reflete um sentimento generalizado entre militares, que temem um estouro da boiada não mais no Meio Ambiente, mas nas Forças Armadas. Se um general pode subir em trio elétrico, todo mundo pode. Com uma agravante: no ano que vem tem eleição, pode virar uma farra…

VACINA CHINESA – Depois de proibir a compra da “vacina chinesa do Doria”, Bolsonaro foi ao hospital adular Pazuello, que estava com covid e caiu na lábia. Agora, o presidente age preventivamente, já aplainando terreno para evitar uma sentença dura contra Pazuello ou para vetá-la depois. Nesse caso, Paulo Sérgio vai se conformar com uma visitinha e uma adulação? Vai aderir ao “um manda, outro obedece”?

Como parte do script, Bolsonaro fez sua live semanal, ontem, no Pelotão Especial de Fronteira de Maturacá, usando uma antena do sistema de comunicação por satélites do Exército. E dormiu lá com a turma, manipulando egos e vaidades, para reduzir o mal-estar e a ansiedade para a nova crise com as Forças Armadas.

NÃO É MONOBLOCO – O strike na cúpula militar, com a demissão do ministro da Defesa e dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, já demoliu a falácia, ou a impressão, de que as Forças Armadas são um monobloco e esse monobloco está inteiro com Bolsonaro. Ficou claro que não é assim.

Não satisfeito em dividir os militares, até então unidos e disciplinados, mesmo nos governos Lula e Dilma Rousseff, Bolsonaro aprofundou o incômodo com as imagens inacreditáveis do general Pazuello no seu palanque político. Crise renovada, ou piorada, Bolsonaro passa de incendiário a bombeiro, tentando seduzir os militares com falso prestígio, tapinhas nas costas, confraternizações.

Paulo Sérgio cai nessa? É a pergunta que não quer calar em comandos, quartéis e lares militares, onde cala fundo o alerta do general Fernando Azevedo e Silva ao ser demitido da Defesa: é fundamental preservar as Forças Armadas como instituições de Estado, não de governos que vêm e vão. Nunca antes, pós-redemocratização do País, um presidente fez tão mal às Forças Armadas como Jair Bolsonaro.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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