domingo, dezembro 26, 2010

Quem te viu, quem te vê

Arquivo Pesssoal

Arquivo Pesssoal / Retratos da presidente: Dilma com o irmão, Igor; a turma do Colégio Sion; Passeata dos Cem Mil, no Rio; e invasão de tropas na Faculdade de Letras de Minas Gerais; em uma festa com o amigo Calino Pacheco; com Leonel Brizola, no governo do Rio Grande do Sul; ministra da Casa Civil; e na vitória pela Presidência Retratos da presidente: Dilma com o irmão, Igor; a turma do Colégio Sion; Passeata dos Cem Mil, no Rio; e invasão de tropas na Faculdade de Letras de Minas Gerais; em uma festa com o amigo Calino Pacheco; com Leonel Brizola, no governo do Rio Grande do Sul; ministra da Casa Civil; e na vitória pela Presidência
De Minas à Presidência

Reportagem da Gazeta do Povo visitou locais onde Dilma Rousseff morou, estudou, militou e atuou como administradora pública. Ouviu antigos e novos colegas. E, de hoje até próxima sexta-feira, conta a história da primeira mulher a ser eleita president

Publicado em 25/12/2010 | Rosana Félix e André Gonçalves, correspondente

A mulher que há quatro décadas queria derrubar o governo militar será, a partir de 1.º de janeiro, a comandante em chefe das Forças Armadas do Brasil. Dilma Vana Rousseff, 63 anos, ao assumir a Presidência também se torna a líder do Exér­­cito, da Marinha e da Aero­­náutica. Tal destino não era so­­nhado pela petista até pouco tempo atrás, nem quando na infância fantasiava o futuro. Pela educação que teve, ela poderia ser uma ótima dona de casa, assim como colegas do antigo colégio. Mas acontecimentos da História brasileira e as escolhas que fez nesses anos todos a levaram a outro caminho.

Caminho esse que os leitores da Gazeta do Povo passam a conhecer um pouco melhor com a publicação desta série. De hoje até sexta-feira – véspera da posse de Dilma –, o jornal apresenta a trajetória da primeira mu­­lher eleita presidente do Brasil. Desde os primeiros passos em Belo Horizonte até o triunfo que a levou ao Palácio do Planalto.

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Para a produção da série, a reportagem visitou alguns dos locais onde Dilma morou, estudou, militou e atuou como administradora pública, tanto em Belo Horizonte como em Porto Alegre e Brasília. O objetivo foi resgatar histórias e reconstruir alguns períodos cruciais que moldaram a personalidade da presidente eleita.

Também foram feitas entrevistas com amigos, ex-colegas de luta armada, vizinhos e auxiliares. A maquiadora Rose Paz – uma das responsáveis pelo “upgrade” recente do visual de Dilma –, também conversou com a reportagem, quebrando um silêncio que durava desde quando a petista era ministra da Casa Civil.

Entretanto, a maioria das pessoas que são próximas a Dilma resolveu não falar. Passada a eleição e garantida a vitória, parentes e amigos preferiram manter a discrição. Os colegas de longa data, por outro lado, gostam de falar e têm orgulho do passado que os liga a Dilma.

Princípios

Todas as pessoas com as quais a reportagem conversou disseram que votaram na petista e/ou fizeram campanha aberta para ela. Mas há divergências, principalmente com a provável continuidade do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “Ela tem uma visão política visando aos fins, os resultados. Na cabeça dela, e aí eu discordo um pouco, é preciso criar mais empregos, mais obras do PAC, e isso sem se importar se os rios estão sendo canalizados, por exemplo. O negócio é obra, obra, transposição do São Fran­­cisco”, afirma Apolo He­­ringer Lisboa, hoje médico e ambientalista e no passado líder do Polop (Orga­­­nização Política Operária), o primeiro grupo de resistência à ditadura militar do qual Dilma fez parte, em Belo Horizonte.

“O Brasil ainda não é justo. A justiça não é consumir, viajar de avião. É ter padrão de vida feliz. A perfumaria do consumo é importante para muita gente, mas o essencial é que a gente não tenha tanta violência, tanto trabalhador escravo no campo, tanta cracolândia por aí”, observa o livreiro Marco Antonio Meyer, também uma liderança do Polop. “Espero que a Dilma, que foi companheira, coloque em prática aqueles nossos ideais. Alguns precisam ser revistos, claro. Mas o básico é transformar o Brasil em uma sociedade justa. Essa é a semente da geração de 68, e a Dilma tem tudo para plantá-la.”

Transformação

A bandeira de Dilma continua a ser a redução da pobreza e da desigualdade de renda no Brasil, que era palavra de ordem nos movimentos contra a ditadura. Mas em outros aspectos ela mudou muito – inclusive no visual.

Quem acompanhou a transformação recente foi a maquiadora Rose Paz. O convívio permite revelações pessoais: a futura presidente é muito vaidosa, especialmente com a pele. Rose passou a trabalhar mais constantemente para a então ministra da Casa Civil a partir de 2007, ano em que Lula a teria escolhido para sucedê-lo. Ao longo dos três anos de convivência, o período mais difícil ocorreu em 2009, quando Dilma teve de tratar um câncer linfático. “A maquiagem mudou por causa dos efeitos do tratamento”, explica.

“Fico revoltada quando vejo nos jornais que a Dilma não gosta de se cuidar. Ela trata a pele desde os 25 anos. Mesmo hoje em dia poucas mulheres são assim”, diz a maquiadora. Segundo ela, a petista faz exercício diariamente, nunca dispensa filtro solar, evita ficar maquiada por muito tempo e sempre usa cremes no rosto para dormir.

Além disso, está sempre preocupada com o que veste. “Eu não diria que a Dilma é durona. Acho que, na verdade, ela é uma pessoa muito centrada, organizada, que sabe exatamente o que quer.”

Fontes

Para ajudar a recompor o período recente da História do Brasil, a reportagem consultou trechos da série Ilusões Armadas, do jornalista Elio Gaspari, e documentos do Arquivo Nacional e do Centro de Pesquisa e Docu­­­mentação de História Con­­­temporânea do Brasil (CPDOC). A Gazeta também usou como inspiração para os títulos desta e das próximas reportagens músicas do compositor Chico Buarque, um dos artistas que contestou a ditadura e foi exilado. Ele é um grande apoiador de Dilma, e trabalhou ativamente para ela na campanha eleitoral deste ano.

Fonte: Gazeta do Povo

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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