sábado, dezembro 25, 2010

Orestes Quércia morre aos 72

0 | Osny Tavares, com agências

Morreu nesta sexta-feira, aos 72 anos, o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia. Ele estava internado desde o final de dezembro no Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista, lutando contra o agravamento de um câncer de próstata descoberto há 13 anos. O corpo do ex-governador seria velado no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual de São Paulo. O enterro foi marcado para este sábado, às 9 horas, no Cemitério do Morumbi.

Quércia, que exercia atualmente a presidência do PMDB paulista, se candidatou a uma vaga ao Senado nas eleições deste ano, mas abandonou a disputa no início de setembro, por causa dos problemas de saúde. Antes da desistência, as pesquisas apontavam Quércia empatado com Netinho de Paula (PCdoB) na segunda colocação. A saída de Quércia foi vista como um dos principais motivos da vitória de Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), eleito senador por São Paulo com Marta Suplicy (PT).

Político teve vida em dois atos: passou de democrata a oligarca

Rogerio Waldrigues Galindo

A vida de Orestes Quércia pode ser dividida em dois atos, de acordo com o cientista político e professor de Ética da Universidade de Campinas (Unicamp) Roberto Romano. O primeiro, de ascensão, tem seu auge em 1974, quando ele chega ao Senado numa vitória contra a ditadura militar. O segundo, de queda, tem início justamente quando Quércia chega ao ápice de seu poder, ao assumir o governo do estado de São Paulo.

“A eleição de 1974 foi um símbolo importante do crescimento do MDB e do enfraquecimento do regime militar brasileiro”, afirma o professor. Naquele momento, candidatos do partido de oposição em vários estados do Brasil impunham derrotas à Arena, o partido oficial da ditadura. No Paraná, por exemplo, o pouco conhecido Leite Chaves também venceria as eleições daquele ano. “Foi um momento em que Quércia representou o Brasil inteiro em sua luta pela democracia”, diz Romano.

Ainda nesta fase, um ponto importante da carreira de Quércia foi a proposta de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte no momento de abertura do regime militar, em 1979. A Constituição democrática seria concluída somente uma década mais tarde, em 1988, e não viria de uma constituinte.

“A nossa Constituição foi redigida pelo próprio Congresso, que se autoproclamou constituinte. Isso causa um problema de origem, até. Se a proposta de uma Assembleia Constituinte tivesse sido aprovada, teríamos uma Carta diferente”, aposta o cientista político. A Assembleia seria eleita exclusivamente para redigir a Constituição, e trabalharia separadamente do Congresso Nacional. “Certamente o grupo eleito para essa tarefa teria um perfil muito mais democrático, mais interessado em colocar conceitos democráticos na Constituição”, diz.

Romano destaca, porém, que a fase áurea de Quércia como líder nacional tem um fim quando ele se elege para o governo de São Paulo, em 1987. “Nesse segundo momento, ele se torna apenas mais um líder regional oligárquico como tantos outros”, afirma o professor. Os ideais de antes são vez a um pragmatismo voltado para os próprios interesses e para a perpetuação do grupo político que ele representava no poder paulista.

“O momento mais baixo do Quércia foi quando ele, às expensas das finanças de São Paulo, impôs o Fleury como seu sucessor no governo”, afirma. Luiz Antônio Fleury Filho, secretário da Segurança Pública, foi escolhido por decisão única de Quércia como candidato. Mais tarde, os dois romperiam, acelerando ainda mais o processo de desgaste de Quércia, que nunca mais ganharia uma eleição e ficaria marcado muito mais pelo seu lado fisiológico, mostrado nos anos finais da carreira, do que pelo seu período inicial no MDB.

O governador do Paraná, Orlando Pessuti (PMDB), destacou a atuação de Quércia dentro do partido. “Recebo com tristeza a notícia do falecimento do Orestes Quércia, com quem tinha uma amizade pessoal. Conheço sua história e militância dentro do PMDB desde o início do partido. Ele foi uma das principais lideranças e uma das principais referências na luta democrática que o MDB desenvolveu principalmente na década de 1970”, declarou.

O governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), disse que Quércia já estava com a consciência bastante debilitada havia alguns dias, e que a última conversa que tiveram foi há aproximadamente três semanas. Alckmin definiu o aliado como “um homem público que lutou pela democracia”: “Trabalhamos juntos na redemocratização do país. Nosso sentimento, nosso carinho, nossas orações e nossa solidariedade à família do governador Orestes Quércia”, disse.

A carreira política de Quércia foi marcada por escândalos e acusações de corrupção e enriquecimento ilícito, tanto na prefeitura de Campinas quanto no governo de São Paulo. Apesar disso, nunca recebeu uma condenação em última instância. Foi acusado de desviar mourões do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) para construir cercas em sua fazenda em Pedregulho (SP); de importar sem licitação equipamentos eletrônicos de Israel; de superfaturar obras do metrô; e de irregularidades na privatização da Vasp.

Em 1991, o então governador do Paraná, Roberto Requião, rival partidário de Quércia, criou o serviço “Disque Quércia para Corrupção”, um número de telefone para o qual os brasileiros poderiam ligar para denunciar o colega paulista. Mais tarde, os dois oponentes se tornaram aliados. Neste ano, Quércia apoiou a pré-candidatura de Requião à Presidência. Ontem, o senador eleito pelo Paraná escreveu uma mensagem sobre o tema no Twitter. “Meus pêsames à família de Quércia e à família peemedebista de São Paulo”, escreveu.

Ao se candidatar a senador em 2010, Quércia declarou à Justiça Eleitoral que seus bens somavam R$ 117 milhões. Empresário dos ramos imobiliário e de comunicação, era proprietário do Grupo Sol Panamby – controlador da rádio Nova Brasil FM, do jornal financeiro DCI, de emissoras afiliadas ao SBT (TVB Campinas e TVB Santos), do Shopping Jaraguá e de várias fazendas.

História

Natural de Pedregulho (SP), onde nasceu em 18 de agosto de 1938, Orestes Quércia começou sua vida pública no movimento estudantil, quando era aluno da Escola Normal Livre de Campinas. Em seguida, cursou Direito na PUC de Campinas, tendo dirigido o jornal do centro acadêmico. A partir de 1959, começou a trabalhar nos jornais e rádios da cidade.

Vereador aos 25 anos pelo Partido Libertador (PL), cargo então não remunerado, mergulhou de vez na política. Foi eleito deputado estadual já pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que ajudou a fundar em Campinas. Fez dobradinha com Ulysses Guimarães e obteve 14,8 mil votos. Em 1968, foi eleito prefeito de Campinas. Investiu na construção de casas populares, asfaltamento de ruas em bairros e obras sociais.

Em 1974, elegeu-se senador derrotando a candidatura favorita de Carvalho Pinto, da Arena. No Congresso, foi um crítico da política econômica do presidente Geisel.

Em 1980, com a volta do pluripartidarismo, manteve-se no PMDB. Dois anos depois, seria eleito vice-governador de São Paulo, formando chapa com Franco Montoro. Na eleição seguinte, conquistou a vitória para o governo paulista enfrentando Paulo Maluf, Antônio Ermírio de Moraes e Eduardo Suplicy. Fez o seu sucessor, Luiz Antônio Fleury Filho, em 1990, mas daí para a frente só amargurou derrotas – ao se candidatar a presidente da República em 1994, a senador em 2002 e, mais duas vezes, a governador, em 1998 e em 2006.

Fonte: Gazeta do Povo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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