terça-feira, dezembro 28, 2010

A roda-viva carrega o destino

Priscila Forone/ Gazeta do Povo

Priscila Forone/ Gazeta do Povo / Colégio Estadual: Dilma chegou, justamente no ano do golpe militar, ao colégio que era tido como o mais politizado de Belo Horizonte Colégio Estadual: Dilma chegou, justamente no ano do golpe militar, ao colégio que era tido como o mais politizado de Belo Horizonte
Militância


No ano do golpe, Dilma entra em colégio politizado e toma contato com lideranças marxistas em Belo Horizonte: era a semente da militância política

28/12/2010 | 00:17 | Rosana Félix, enviada especial

Enquanto os militares estudavam as estratégias para dar o golpe no governo do presidente João Goulart, no começo de 1964, Dilma Vana Rousseff, então com 16 anos, se preparava para ingressar no Colégio Estadual Central, o maior e mais politizado de Belo Horizonte. Em meio às aulas regulares de Sociologia, Filosofia e História, os horários livres da futura presidente do Brasil também seriam ocupados pela discussão de textos. Entre os autores mais lidos estavam Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Buarque de Hollanda e o filósofo francês Louis Althusser.

As leituras eram orientadas por Apolo Heringer Lisboa, universitário de Medicina e três anos mais velho que Dilma. Ele era um dos diretores da Polop (Organização Política Operária), que dava cursinhos de política para dezenas de secundaristas. “Fui um professor informal de marxismo, de política e de história da humanidade. Era uma coisa limitada filosoficamente. Mas, para a gente, que era educado em igreja, com aquela visão mais limitada ainda, era uma espécie de revelação. E a turma tinha muita vontade de estudar”, relembra Lisboa na varanda de sua casa, na Zona Sul de Belo Horizonte.

Priscila Forone/ Gazeta do Povo

Priscila Forone/ Gazeta do Povo / Lisboa, ex-mentor de Dilma: professor informal de marxismo da futura presidente Ampliar imagem

Lisboa, ex-mentor de Dilma: professor informal de marxismo da futura presidente

Os encontros eram feitos às escondidas, com grupos pequenos, de quatro ou cinco pessoas, para não chamar a atenção das autoridades militares, que tomaram o poder em 31 de março de 1964. Dois dias depois, Jango deixara Brasília e o general Costa e Silva se declarara o comandante em chefe do Exército Nacional. O general Castello Branco, indicado para a Presidência da República, editaria o Ato Institucional n.º 1, que, entre outras coisas, cassou mandatos eletivos e suspendeu os direitos políticos por dez anos. Segundo extensa pesquisa feita pelo jornalista Elio Gaspari para sua série Ilusões Armadas, que retrata o regime militar, cerca de 5 mil pessoas foram presas nas semanas seguintes à deposição de Jango. Além disso, sete em cada dez confederações ou sindicatos de trabalhadores foram fechados.

A sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) no Rio de Janeiro foi incendiada, inaugurando a era de repressão aos estudantes. As reações foram arquitetadas nos grêmios e diretórios estudantis, que ainda funcionavam – e como. O livreiro Marco Antonio Meyer, que estava no Ensino Médio do Colégio Estadual na mesma época que Dilma, se orgulha ainda hoje dos feitos de sua gestão à frente do Diretório Estudantil (DE), entre 1965 e 1968. Os alunos do Estadual e dos anexos da Serra e da Gameleira (entre 6 mil e 8 mil) contavam com uma cooperativa de livros com preços módicos, barbeiro e dentistas. “Para conscientizar os alunos fazía­­mos um trabalho progressivo e uma série de eventos culturais. Muitos debates, inclusive sobre maconha, conversas com grupos de teatro e apresentação de filmes engajados”, conta. Ele disse que ficou preso por seis meses por ter passado Os Com­­panheiros, de Mario Moni­­celli.

Dilma não participou da chapa de Meyer, mas outro petista e futuro ministro sim: Fernando Pimen­­­­tel, futuro prefeito de Belo Ho­­­rizonte. “Na eleição deste ano retribuí e votei na Dilma. Porque com certeza ela me apoiou no DE”, disse Meyer. Ela conseguiu concluir o Estadual antes dele, e em 1967 ingressou na Faculdade de Eco­­­­nomia da UFMG. Consta que aju­­dou a eleger como representante de classe José Aníbal, hoje deputado federal pelo PSDB. Em setembro desse ano, com apenas 19 anos, casou com o jornalista Cláudio Ga­­le­­no Linhares em cerimônia civil. To­­dos os personagens deste parágrafo militavam na Polop, organização muito forte em Minas Gerais.

Guerrilha

A Polop começou a ruir com a disseminação das ideias de Régis Debray, intelectual francês que escreveu Revolução na Revolução, descrevendo a luta cubana de Fidel Castro e Che Guevara. A experiência bem-sucedida de armar guerrilhas inspirou muitos militantes. “Aí tivemos um racha e surgiu o Colina, para onde foram 90% das pessoas. Apenas 10% ficaram no Polop, que a gente dizia que eram os medrosos”, relembra Apolo Lisboa, que é médico e ambientalista. O Comando da Libertação Nacional defendia as ações armadas, que começaram a se proliferar, também pelas mãos dos participantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella.

Em março de 1968, a ALN explode uma bomba no Consulado dos Estados Unidos em São Paulo. Três meses depois, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) faz o mesmo no Quartel-General do 2.º Exército, matando um soldado. Em julho, o Colina é responsabilizado pela morte do major alemão Edson Von Westernhage e, em agosto, uma ação da VPR mata o capitão americano Charles Chan­­dler. Aqui e ali, assaltos a banco.

A revolta estudantil estava no ápice. No fim de março daquele ano, com a morte do estudante Edson Luís no Restaurante Calabouço, da Universidade do Rio de Janeiro, milhares foram às ruas em várias cidades protestar. Em 21 de junho, a capital fluminense viveu aquilo que ficou conhecido como “sexta-feira sangrenta”, com confrontos entre manifestantes e policiais. O saldo: quatro mortos, 60 feridos e mais de mil presos. A resposta veio quatro dias depois, com a Passeata dos Cem Mil, na Cinelândia. Não só estudantes, como religiosos e trabalhadores exigiam a redemocratização. “Quem sabe faz a hora não espera acontecer”.

Os versos de Geraldo Vandré, de 1968, podem hoje ser confundidos com um clichê, depois de décadas de repetição. Mas a música é tida como a síntese do espírito da resistência à ditadura militar no Brasil.

Segundo Apolo, os militantes não queriam apenas derrubar a ditadura, mas sim mudar tudo. “A gente não tinha fronteira, queria transformar o mundo. O nosso mote era ‘queremos o impossível’. O que era possível não nos interessava”, conta Lisboa. A disposição dos estudantes era inflada pelos acontecimentos em várias partes do mundo. “Teve a Revolução Cubana, em 1959, e as imagens da Guerra do Vietnã mostravam que os Estados Unidos, a maior potência mundial, estavam sendo derrotados por um povo que andava de chinelos de dedo”, diz Marco Meyer. Além disso, houve os protestos na França e em Praga ao longo de 1968. “Era uma conjuntura internacional por maior liberdade sexual e política. Foi uma época bastante efervescente”, completa.

Fonte: Gazeta do Povo

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas