terça-feira, dezembro 28, 2010

Como suportar o vazio

Carlos Chagas

Declarou o presidente Lula, ontem, no seu programa semanal de rádio, que governar foi gostoso demais. Depois, no café da manhã com os repórteres credenciados no palácio do Planalto, repetiu a mesma coisa. Tratou-se de um lamento.

É natural que o Lula venha a sentir-se como peixe fora d’água a partir do próximo sábado. Feliz, mas desconfortável. Não se livrará tão cedo do assédio da imprensa, muito menos dos correligionários, dos curiosos e dos chatos. Só que não terá o que fazer, ao menos nos primeiros tempos. Se vai percorrer o país como presidente de honra do PT, é fácil falar mas difícil de realizar. Parece que desistiu de criar uma fundação com o seu nome, endereço, telefone e escritório. Para o exterior, em férias, não irá, ainda que possa passar não mais do que duas semanas numa praia do Nordeste ou numa fazenda do Pantanal.�

Problemas financeiros não terá. Além da aposentadoria de ex-presidente da República, conseguiu economizar bastante os proventos dos últimos oito anos. Mas como preencher o vazio?

Nessa hora, a saída para o Lula será seguir o exemplo de Juscelino Kubitschek, sem necessidade de eleger-se senador em eleições suplementares, já que seus adversários não estarão fazendo-o de alvo. Mas preparar a volta ao poder será a solução. Só que com um problema: JK viu-se sucedido por um quase desafeto. Nenhum compromisso tinha com Jânio Quadros e, assim, estabeleceu uma espécie de confronto com ele. Logo depois, com João Goulart, recusou maiores aproximações, sustentando cada vez mais a volta em 1965. Tinha até escritório eleitoral, ainda em 1962. Os fados desarrumaram tudo. Depois de cassado pelo movimento militar, aliás, injustamente, comeu o pão que o diabo amassou.

O ainda presidente elegeu a sucessora, não poderá mostrar-se como alternativa para quem promete dar continuidade às suas realizações. Até tem declarado que Dilma Rousseff tem direito à reeleição. Mas se não preencher o futuro com sua candidatura a retornar ao poder, dificilmente suportará o vazio.�

SAPOS E URUBUS

Dilma Rousseff engoliu montes de sapos, ao constituir seu ministério. Convidou quem não conhecia, talvez até quem não queria, em nome da harmonia em sua base partidária. Adiantou?

De jeito nenhum, porque no PT, no PMDB, no PSB e penduricalhos, registram-se amuos, idiossincrasias e até ameaças por parte dos descontentes. Dos frustrados pela impossibilidade de terem sido escolhidos ou de emplacar representantes dos diversos grupos em que se dividem as legendas.

Por enquanto as escaramuças não se transformaram em guerrilha, já que falta preencher centenas de cargos no segundo escalão, em cima dos quais os urubus continuam voando. Mas será questão de tempo até que os ressentidos mostrem garras e presas.

Muita gente diz que melhor teria feito a presidente eleita se compusesse o ministério de seus sonhos, sem interferências partidárias. Poderia ter sido pior, no caso, mas não adianta lamentar o leite derramado. A partir de sua posse, ela terá condições de demonstrar a inocuidade das pressões recebidas, enquadrando em especial os ministros caídos de paraquedas em seu governo. Bem como de demonstrar ao Congresso quem manda no país. Convém aguardar.

NADA DE CONSTITUINTE EXCLUSIVA

Aguarda-se a apresentação do plano de governo de Dilma Rousseff, capaz de ser esboçado em seu discurso de posse, mas, certamente, só divulgado em detalhes nos dias seguintes.

Dos muitos balões de ensaio verificados durante a campanha e até agora, alguns murcharam, como o da criação dos ministérios da Pequena e Média Empresa, dos Aeroportos e até da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016.

Uma proposta, porém, além de murchar, lambeu, quer dizer, pegou fogo sem deixar sequer as cinzas: o novo governo não proporá e nem apoiará a tese da Constituinte Exclusiva para a realização da reforma política. Caberá ao Congresso, se quiser e se puder, promover as mudanças necessárias nas instituições eleitorais e partidárias.

Dilma não cruzará os braços, como fizeram Fernando Henrique e o próprio Lula. Terá opiniões a transmitir e a defender no Legislativo, através de seus líderes. Não apoiará, no entanto, essa esdrúxula proposta da eleição de constituintes encarregados apenas de promover o elenco de alterações necessárias ao bom funcionamento das instituições políticas. Seria embaralhar atribuições.

OS LÍDERES DO GOVERNO

Nessa briga de foice em quarto escuro pelas vagas de ministro e de candidatos ao segundo escalão, pouco ou nada se tem falado a respeito de quem Dilma Rousseff escolherá para líderes do governo na Câmara e no Senado. Como o novo Congresso só se instala em fevereiro, sendo janeiro mês de recesso, é possível que tudo continue como está.

Sem dúvidas, a nova presidente consultará o vice Michel Temer, os presidentes dos partidos da base oficial e os ministros mais diretamente ligados às questões políticas. Uma coisa, porém, parece certa: Romero Jucá não continuará no Senado. Para bom entendedor…

Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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