terça-feira, abril 27, 2021

CPI da Pandemia elege Omar Aziz presidente e Randolfe Rodrigues vice; Renan Calheiros é indicado relator


Resultado representa derrota para o governo 

Julia Lindner e Paulo Cappelli
O Globo

Por oito a três, os membros titulares da CPI da Covid elegeram o senador Omar Aziz (PSD-AM) como presidente do colegiado nesta terça-feira. Além dos votos da oposição e dos independentes, que já eram esperados, Aziz recebeu o apoio do senador Ciro Nogueira (PP-PI), aliado do governo. Como previamente acordado, Aziz indicou Renan Calheiros (MDB-AL) para relatar as investigações.

Até o último momento, governistas tentaram impedir a escolha de Renan como relator. O senador Jorginho Mello (PL-SC), que é próximo ao presidente Jair Bolsonaro, reapresentou uma questão de ordem instantes antes da indicação para que o senador alagoano fosse considerado suspeito na condução das investigações, considerando que o seu filho é governador de Alagoas. Em tom firme, Aziz indeferiu o pedido.

“SENADOR POR COMPLETO” – “Eu indefiro a questão de ordem por entender que não existe senador pela metade. Todos nós somos senadores por completo. E o senador Renan tem colocado uma coisa que é verdade: se o senador não pode participar de uma CPI ele não é senador. Essa discussão está madura na sociedade. Estamos malhando em ferro frio. O senador Renan votou a PEC da Guerra, a ajuda para estados e municípios, se ele fosse suspeito não poderia votar”, disse Aziz a Jorginho.

Em seguida, o presidente eleito da CPI também criticou a decisão da Justiça Federal do Distrito Federal, determinada ontem, que tentava impedir Renan de assumir a relatoria. A decisão foi derrubada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª região (TRF-1).

“Ontem tivemos esse constrangimento novamente de um juiz de primeira instância… Felizmente o TRF-1 colocou na linha essa questão, é uma coisa que o Senado está acostumado. E colocar essa questão aqui [de Jorginho Mello] me deixa constrangido em dizer que não vou acatar a questão de ordem e vou indicar Renan Calheiros. Já está indicado o senador Renan Calheiros, essa questão já está passada”,declarou o senador amazonense.

ÂNIMOS EXALTADOS – Governista, o senador Marcos Rogério (DEM-RO) insistiu que Renan não poderia ser escolhido relator por considerá-lo como suspeito, mas foi interrompido por Aziz, que disse já ter decidido sobre o tema. Marcos Rogério, então, pediu calma e disse que o presidente estava nervoso.

“A única coisa que eu não estou é nervoso. Só que você está desde o primeiro… Nós estamos há duas horas e meia aqui e três ou quatro senadores querendo não instalar. Qual é o medo da CPI? É o medo da CPI ou medo do senador Renan? Não estou entendendo. O próprio líder, o seu líder do governo, Fernando Bezerra, diz que não tem medo da CPI e quer dar transparência. Vossa Excelência quer questionar novamente a questão do Renan e diz que eu estou nervoso?”,reagiu Aziz.

SUSPEIÇÃO – Em seguida, Marcos Rogério afirmou que a suspeição de Renan não seria apenas por sua relação familiar, mas por já ter criticado a gestão do governo federal na pandemia. Ele alega que não há isenção.

Antes, Marcos Rogério também criticou o discurso de Omar dizendo que a CPI não deve fazer justiça pelas vítimas da Covid-19. “Essa CPI não tem esse papel. Por mais que quiséssemos ter força instrumental para formulação de políticas públicas de enfrentamento da pandemia. A CPI investiga fato determinado, sobretudo do passado, mas não serve para fazer justiça aos mortos”, disse Marcos Rogério.

Omar Aziz reagiu dizendo que não entendeu o que o senador estava querendo dizer e reforçou que a CPI serviria para fazer justiça direta ou indiretamente. “É justo as pessoas não terem a segunda dose para se vacinar? Isso é justo?”, questionou Aziz. Marcos Rogério rebateu novamente dizendo que a CPI não pode garantir vacinas para a população e que Aziz estava nervoso.

IMPARCIALIDADE – Aliado de Bolsonaro, Ciro Nogueira (PP-PI) afirmou que votou em Omar Aziz para presidir a relatoria. Segundo Nogueira, Aziz lhe prometeu que seria “imparcial” na condução dos trabalhos. O presidente nacional do PP, no entanto, disse ver com “preocupação” o fato de Renan Calheiros assumir a relatoria da investigação.

“Parabenizo Randolfe pela vice-presidência e digo a Renan: neste momento não vejo obstáculo algum para que seja relator. Há uma hora atrás, existia uma decisão judicial, que era absurda, mas existia. Não se pode cumprir uma decisão e descumprir outra. Se essa CPi está funcionando é por conta de uma decisão judicial. Não vejo obstáculo, Renan, (porque a decisão que havia foi derrubada). Eu vejo preocupação. E espero que minhas preocupações se percam no tempo. Espero que saiba honrar essa vontade do nosso presidente, da maioria, de ser relator”, disse.

“Tenho total divergência que, no caso de acusação contra seu filho (o governador de Alagoas, Renan Filho), o senhor vai se ausentar. Não existe “meio relator”. Ou é relator ou não é. Espero que não haja nenhum tipo de acusação contra seu filho, que é um grande amigo meu, mas se isso vier a ocorrer, o senhor tem que relatar. Até porque ficará sob sua responsabilidade a elaboração do relatório será final”, argumentou Nogueira.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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