domingo, outubro 08, 2006

Ponte Aracaju-Barra é equipamento que muda vidas e gera debates dos dois lados

Sectur estima que número de turistas deve triplicar. Prefeito da Barra diz que município não tem infra-estrutura









Niúra Belfort
Da Redação

Os números impressionam. Foram gastos 7,2 milhões de quilos de ferro, 430 mil sacos de cimento e 112,8 mil toneladas de concreto na construção da ponte que interliga Aracaju e Barra dos Coqueiros – a Construtor João Alves.

Considerada a obra do século, a ponte é o mais novo cartão postal do Estado, atrai olhares curiosos e desperta a admiração de sergipanos e turistas. Mas muito mais que isso, já começa por operar mudanças no ritmo de vida das comunidades da capital e do litoral norte.

“Eu estou achando um espetáculo. Vim de Recife especialmente para a inauguração da ponte. Há 30 anos venho à Barra passar férias e agora virei com mais freqüência”, afirma a assistente social Riselda Vasconcelos de Souza. A euforia da pernambucana tem justificativa.

Antes da inauguração da ponte há oito dias, a travessia de carro para a Barra dos Coqueiros levava horas – muito pela espera de carro. Hoje, em 10 minutos, é possível transpor o Rio Sergipe e desfrutar de toda a beleza das praias do litoral norte. A ponte de R$ 135 milhões tem 1,8 mil metros de extensão e 23,4 metros de largura no vão central. Uma obra gigantesca que transformou a paisagem urbana.

Para as agências de turismo receptivo, a ponte vai representar um aumento na procura por destinos ainda pouco conhecidos como a praia do Jatobá e deverá consolidar as praias da Costa e Atalaia Nova. A Secretaria do Estado de Turismo – Sectur – estima que 52 segmentos da atividade econômica serão beneficiados pela ponte e o número de turistas para região de Barra e Pirambu deverá ser triplicado.

Mas nem tudo são flores. A ponte ainda é o centro de uma polêmica, e não podia ser diferente. Afinal, toda obra gera transtornos, provoca mudanças e traz conseqüências positivas e negativas, previsíveis ou não. O prefeito da Barra, Airton Martins, PT, afirma que de imediato a ponte deixou mais de 500 trabalhadores desempregados.

As demissões ocorreram na H. Dantas, empresa que operava o serviço de balsas desativado um dia após a inauguração, e na empresa de ônibus Via Norte, que vem demitindo empregados desde que a viação Rotasul passou a operar na Barra.

LANCHAS

O desemprego ronda também taxistas, charreteiros e moto-taxistas em decorrência da redução no fluxo de passageiros das lanchas. Durante a semana, eles realizaram dois protestos e impediram a passagem dos ônibus da Rotasul e de táxis oriundos da capital alegando que eles invadiram o município. Os ânimos ficaram acirrados e a semana terminou sem uma solução aparente. Mas os problemas não param por aí.


Apesar de reconhecer que a ponte é necessária, o prefeito da Barra afirma que o município não está preparado para receber um fluxo grande de turistas e se apega a dados para comprovar o que diz. Cerca de 30% do município não tem água encanada, 70% não têm saneamento básico e a água fornecida pela Deso tem um alto teor de ferro.

Ele alega que as rodovias estaduais que ligam a Barra ao porto e a Pirambu não têm acostamento e estão esburacadas. No município, falta segurança. “Há quatro policiais de plantão. À noite, a delegacia fica fechada. Eles ficam lá dentro, reféns até dos bandidos”, relata.


Essa falta de segurança e infra-estrutura poderá afastar o turista, na visão de Marco Antônio Cabral, presidente da Associação Voz da Ilha. "Se eles vierem agora não voltam, porque não temos nada a oferecer. Eles vão acabar indo para Pirambu, que poderá ser beneficiada pela ponte", afirma. Gilvânio Albuquerque, secretário de Turismo e Meio Ambiente da Barra, engrossa o coro e diz que a malha viária do município não comporta o fluxo de 30 mil veículos estimado para um fim de semana. Segundo ele, o Estado não implementou nenhuma medida mitigadora do impacto da ponte.

O prefeito Airton Martins admite ingressar na Justiça contra o governo para que ele cumpra o que prometeu. Enquanto isso, ele tenta, com o plano diretor, barrar a invasão de áreas de preservação ambiental e os loteamentos irregulares do município. A discussão sobre a falta de infra-estrutura chegou à Câmara de Vereadores.

O parlamentar Carlos Barreto, o Caducha, PT, reconhece que a ponte muda a perspectiva do município em alcançar um novo patamar de desenvolvimento, mas a falta de estrutura compromete esse crescimento.

“Nossa grande queixa é que o Governo do Estado virou as costas para a Barra. Ele foi omisso", salienta. O secretário do Estado da Infra-estrutura, Luiz Durval, garante que o prefeito confunde identificação de problemas pelo Estudo de Impacto Ambiental – Eia-Rima – com mitigação.

"O Eia-Rima apontou problemas e o que foi compromisso do Estado foi feito", enfatiza. Segundo ele, o governo elaborou o plano diretor, entregue à Câmara de Vereadores em 2005. A proposta não foi votada, sob a alegação de haver imperfeições. O novo projeto de plano diretor, desta vez feito pela prefeitura, será apresentado aos vereadores ainda esta semana.

SATISFAÇÃO PARA OUTROS

Mas se a ponte representa problema para uns, traz uma imensa satisfação para outros. O comerciante Ronivaldo Lima diz que a ponte foi o que de melhor aconteceu no município em toda a sua história. "Antes as pessoas não vinham por causa da demora na balsa. Agora em dez minutos elas já estão na praia. Isso vai estimular o turismo", afirma. E ele não tem dúvidas: ela vai gerar emprego, sim.

"Quem tem um bar na Praia da Costa vai ampliar. Quem tem uma loja comercial, vai investir mais", enfatiza. Para o vereador Alysson Souza, PHS, haverá benefícios em todas as áreas.

Na saúde, os casos de urgência e emergência serão encaminhados aos hospitais João Alves e Cirurgia pela ponte, sem depender da longa espera das balsas e lanchas. "Isso significa salvar vidas", diz. Segundo ele, outro grande benefício, já anunciado pelo governo, é que a Barra será abastecida com água do Rio São Francisco.

Quem investe no município também vibra com a inauguração. O empresário Edison José dos Santos, proprietário do Barra dos Coqueiros Resort, antigo Hotel da Ilha, garante que a ponte trará desenvolvimento e uma melhor qualidade de vida para os habitantes. "Se não fosse a ponte, não estaríamos criando um dos maiores empreendimentos da rede hoteleira do Nordeste, classificado entre os melhores do Brasil, com 210 apartamentos", salienta. O empresário espera gerar 500 empregos diretos e cerca de 2,5 mil indiretos e quer formar sua equipe de colaboradores com pessoas da região e do próprio Estado.




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Obra estará concluída em 20 dias, diz secretário

A construção da ponte Aracaju-Barra ainda não terminou. O secretário de Infra-estrutura, Luiz Durval, afirma que a ponte receberá uma nova camada de asfalto e o guarda-corpo para pedestre na área dos cabos está em fase de conclusão.

Mas quem mora no Bairro Industrial lamenta a pressa em inaugurar a obra. A malha viária das ruas e avenidas está deteriorada e fluxo de veículos aumentou de forma considerável. “Está uma confusão”, afirma Lícia Magna Damásio.

Vários acidentes já foram registrados. Não há sinalização. André Vieira lembra que, em poucas horas, presenciou quatro veículos subindo a ponte pela contramão. “Até um carro do IML teve que descer de ré”, conta. O problema só foi solucionado depois que uma viatura da CPTran passou a fazer plantão no local.

O morador Marcelo Marques teme pelo que possa acontecer caso os tapumes da obra sejam retirados sem a execução de um projeto urbanístico. “Isso pode se transformar num reduto de marginais. O ideal é que fosse instalado um módulo policial”, enfatiza.

O secretário Luiz Durval garante que o Estado construirá uma praça e fará uma passagem restabelecendo a ligação entre as avenidas Confiança e João Rodrigues. “Em 20 dias devem estar concluídos os trabalhos”, diz.

Ainda esta semana, ele pretende contatar a Superintendência Municipal de Trânsito – SMTT –, para saber o que será construído no terreno do antigo terminal de integração.

Fonte: Cinform

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Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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