quarta-feira, março 04, 2026

Redução da maioridade penal vira principal embate na PEC da Segurança, em novo desgaste para Lula

Redução da maioridade penal vira principal embate na PEC da Segurança, em novo desgaste para Lula

Por Raphael Di Cunto e Augusto Tenório/Folhapress

04/03/2026 às 07:05

Atualizado em 04/03/2026 às 07:16

Foto: Kayo Magalhães/Arquivo/Câmara Dos Deputados

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Plenário da Câmara

A sugestão de realizar um plebiscito sobre a redução da maioridade penal se tornou o principal embate em torno da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública, projeto que é uma aposta do governo Lula (PT) para deixar uma marca na área que hoje é a maior preocupação dos brasileiros.

Na opinião de parlamentares da base e da oposição, a disputa tende a gerar um novo desgaste para o presidente Lula, que se opõe à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes violentos. A oposição e parte da base aliada no Congresso defendem o endurecimento, medida que costuma contar com amplo apoio popular nas pesquisas.

A realização de um plebiscito em 2028 para que a população se manifeste sobre a redução da maioridade penal foi incluída pelo relator da PEC, deputado Mendonça Filho (União Brasil-PE), à revelia do governo. Somente em caso de adesão dos eleitores é que a ideia seria implementada.

A discussão sobre a redução da maioridade penal ganhou tração após a morte do cachorro Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis (SC). Segundo os relatos iniciais, o animal teria sido agredido por adolescentes em 4 de janeiro e morrido por causa dos ferimentos —um dos suspeitos foi indiciado, mas o Ministério Público apontou lacunas na investigação da polícia. O caso ainda não foi julgado.

Nesta semana, um estupro coletivo em Copacabana, no Rio de Janeiro, também voltou a colocar o tema em debate. Cinco jovens, sendo um deles de 17 anos, são acusados de terem violentado uma garota de 17.

A questão é avaliada pelos parlamentares como uma demanda com apelo popular, capaz de emparedar o Planalto às vésperas da eleição. Em pesquisa de 2019, o Datafolha apontou que 84% dos brasileiros adultos eram favoráveis à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.

O assunto dividiu a Câmara dos Deputados. A oposição e a bancada da bala querem ampliar o plebiscito e propor a redução da maioridade penal para todos os crimes, não apenas os violentos.

O governo Lula e a esquerda estão contra incluir o plebiscito. Em nota divulgada na segunda (2), o Ministério dos Direitos Humanos afirmou que a redução é inconstitucional e ineficaz para o enfrentamento da violência, além de ser incompatível com compromissos firmados pelo Brasil no exterior e inadequada sob a perspectiva de políticas públicas.

Em fala a jornalistas durante evento em Brasília na noite desta terça (3), a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) reforçou o apelo ao apoio do Congresso e disse esperar que o debate em torno da PEC não se torne apenas um objeto eleitoral.

"Eu espero que o Congresso, a Câmara, colabore. Nós mandamos uma proposta de organização do Sistema Único de Segurança Pública do país. Isso é muito importante porque ele define as responsabilidades da União, dos estados, dos próprios municípios, com as polícias municipais, e a gente precisa dessa definição. E também estamos mandando uma proposta de financiamento da segurança. Então, eu espero que isso não vire um embate político e apenas eleitoral", afirmou.

Já a base aliada está dividida. O União Brasil, partido de Mendonça, fechou questão em reunião da bancada na terça para defender o plebiscito. "É um tema que a gente precisa enfrentar. Se preciso, vamos decidir no voto", diz o líder do partido na Câmara, o deputado Pedro Lucas (MA).

O líder do MDB na Câmara, deputado Isnaldo Bulhões (AL), por outro lado, afirma que a bancada da sigla é contra misturar as discussões. "Queremos que seja tratado num projeto à parte", diz.

Diante do impasse, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem atuado para tentar demover o relator e fazer um texto o mais consensual possível, para facilitar a votação. Por se tratar de uma PEC, é preciso o apoio de 308 dos 513 deputados para ser aprovada.

Mendonça disse a interlocutores que tende a manter no texto a redução da maioridade como está. Um novo parecer deve ser apresentado à comissão especial da Câmara que discute a PEC. A ideia de Motta é aprovar a proposta no colegiado na manhã desta quarta (4) e, em sequência, no plenário.

No entanto, por causa dos embates, parte das siglas do centrão, a base e a oposição afirmam que o texto deve ser adiado porque ainda não está maduro para ser votado.

O presidente da comissão especial da PEC, Aluisio Mendes (Republicanos-MA), já agendou uma sessão extra para esta quinta-feira (5). A atitude foi entendida como um sinal de que, mesmo no colegiado, há previsão de uma dura discussão. Há 12 destaques previstos na pauta.

A redução da maioridade não é o único ponto de discórdia. Lideranças de oposição têm avisado que a ampliação da redução da maioridade para todos os crimes é apenas um dos pré-requisitos para votarem a PEC da Segurança.

O líder da oposição, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), afirmou a interlocutores que trabalhará contra a votação, a menos que Mendonça incorpore à PEC duas medidas: o estabelecimento de um piso salarial para os profissionais da segurança e a isenção de Imposto de Renda para policiais que ganham até R$ 10 mil.

Motta avisou a aliados, na última reunião de líderes da Câmara, que não gostaria de "contaminar" a discussão da PEC com o debate sobre pisos de categorias. Líderes do centrão, porém, avaliam que a oposição naturalmente irá levar esse debate ao plenário com requerimentos, o que deve dificultar a aprovação na quarta-feira.

Outro embate, que divide a própria bancada da bala, é o fortalecimento das guardas municipais com poder de polícia. Parte do grupo acredita que isso é um risco diante dos baixos salários desta categoria e do crescimento do crime organizado na política de pequenas cidades.

Politica Livre 

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