terça-feira, março 31, 2026

62 anos do golpe: uma carta aberta,

 

Cartas Marcadas | Intercept Brasil

Ditadura não atingiu só a classe média. E essa mentira protege seus crimes até hoje

62 anos depois do golpe de 1964, é inadmissível dizer que repressão foi restrita à elite urbana. Ditadura perseguiu negros, pobres, camponeses e indígenas, e esse legado segue operando até hoje.


Em janeiro deste ano, um usuário do X (antigo Twitter) escreveu que falar sobre a Ditadura Militar é um marcador de classe. A pessoa afirmou que quem tem histórias de repressão na família vem de ambientes urbanos, escolarizados, de classe média — universitários, jornalistas, advogados.

Ele, então, concluiu que, se seus antepassados eram pobres, camponeses, gente do interior, “dificilmente tiveram qualquer coisa a ver” com o regime. Que carregar uma memória de repressão virou algo “chique”, distante do horizonte do trabalhador. É algo difícil de refutar.

A postagem atingiu mais de 2 milhões de pessoas.

Hoje, quando o Brasil completa 62 anos do golpe de 1964, pensei em deixar o aniversário passar batido. Poderia trazer outro tema. Temos vários assuntos e reportagens prontos para serem veiculados aqui: investigações, entrevistas e análises.

Mas eu não dormiria tranquilo se não usasse essa edição de Cartas Marcadas, em pleno 31 de março, para responder a essa pessoa. E, por isso, esta newsletter é diferente. Me desculpe, mas desta vez ela é endereçada não a você, leitor, mas a você, usuário do X. Para não identificá-lo, vou chamá-lo nesta carta de Jaime.


Não sei se você sabe, Jaime, mas ainda hoje seguimos encontrando provas de como ela funcionava.

Em 2022 – há apenas quatro anos! –, o repórter Sérgio Barbo revelou, na reportagem “Crematório em SP foi criado para ocultar cadáveres”, que havia uma estrutura construída para incinerar corpos de vítimas da repressão. O projeto dos militares – que, hoje, muita gente concorda contigo e diz que nem era tão ruim assim – não era só matar. Era apagar.

Em 2019, outra investigação que publicamos mostrou que o número de presos nos primeiros dias do golpe pode ter sido quatro vezes maior do que o estimado oficialmente — chegando a cerca de 20 mil pessoas. Não foi uma repressão seletiva de elite. É uma operação de massa.



Jaime, o seu erro não é apenas factual. Você olha para a memória disponível — aquilo que foi registrado — e conclui que ela define a realidade. Mas essa memória é produto da própria violência. E é papel do jornalismo confrontar essa visão rasteira e superficial.

A ditadura prendeu, torturou e matou. Mas também destruiu provas, ocultou cadáveres, perseguiu testemunhas e garantiu que uma parte das vítimas nunca pudesse contar o que aconteceu. Você transforma esse silêncio em argumento. E isso é grave.

Por fim, você escreveu que lembrar da ditadura virou algo “chique”. Não é. O que existe é um país onde parte das vítimas teve voz — e outra parte foi sistematicamente silenciada. Existe um país onde lembrar ainda é um ato político — porque esquecer sempre foi um projeto.

E é por isso que seguimos reportando sobre a Ditadura. Por isso que o cinema nacional segue fazendo filmes sobre a Ditadura. Que o teatro segue encenando espetáculos sobre a Ditadura. Não é saudosismo. É porque ainda hoje documentos continuam aparecendo, crimes continuam sem responsabilização e estruturas continuam operando.

E porque, toda vez que alguém tenta reduzir esse período a uma experiência “de classe média”, ajuda a empurrar de volta para o silêncio aqueles que já foram silenciados antes.


Eu sei, você escreveu apenas um tweet, Jaime. Mas o que você fez foi oferecer uma narrativa confortável. Uma forma elegante de dizer que a ditadura não foi tão ampla assim. Que não atingiu todo mundo. Que talvez seja mesmo uma “Ditabranda”– como disse aquele editorial infame da Folha de S.Paulo, de 2009. É uma narrativa sedutora. Mas é profundamente desonesta.

Poderia parar por aqui, Jaime. Mas não vou. Porque isso que você escreveu não se resolve com opinião — se resolve com informação. Nós temos dezenas de reportagens publicadas ao longo dos últimos anos que desmontam, com documentos, dados e testemunhos, essa visão confortável sobre a ditadura. Não caberiam todas aqui.

Então eu selecionei algumas — poucas, diante do volume que já produzimos — que considero um bom ponto de partida para você. Antes de falar mais sobre o que foi ou não foi a Ditadura no Brasil, talvez valha a pena ler.


É isso. Esta edição foi diferente — e precisava ser. Na próxima, voltamos à programação normal. Mas, hoje, não dava para deixar passar. Porque, enquanto essas ideias seguirem circulando como se fossem apenas opinião, a história continuará sendo distorcida. E os mesmos erros continuarão sendo possíveis.

Até a próxima.

Paulo Motoryn
Repórter

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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