segunda-feira, março 30, 2026

Aliados de Bolsonaro reclamam de regras de Moraes para domiciliar, e defesa estuda recorrer

 

Aliados de Bolsonaro reclamam de regras de Moraes para domiciliar, e defesa estuda recorrer

Por Carolina Linhares, Folhapress

30/03/2026 às 14:29

Foto: Redes Sociais/Reprodução/Arquivo

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Grupo do ex-presidente avalia acionar STF por melhor acesso de advogados e políticos

A transferência de Jair Bolsonaro (PL) para a prisão domiciliar na sexta-feira (27) foi recebida com alívio por familiares e aliados do ex-presidente, mas não conteve críticas a respeito da decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), considerada muito restritiva.

Na Papudinha, por exemplo, Bolsonaro podia receber aliados com autorização de Moraes, momentos que ele usava para articular candidaturas e a estratégia eleitoral de seu campo político. Agora, apenas os advogados e um núcleo mais restrito de familiares podem visitá-lo, e em horário reduzido.

A Folha apurou que uma possibilidade cogitada por interlocutores do ex-presidente é acionar a corte por meio de mandados de segurança para tentar derrubar parte das regras impostas por Moraes —mas isso só seria feito mais adiante.

Por enquanto, o discurso é o de priorizar a saúde de Bolsonaro e os cuidados com ele, no lugar de visitas e de articulações políticas. Aliados do ex-presidente dizem ser preciso travar uma batalha de cada vez e que a transferência para casa era o principal objetivo, da forma que fosse.

Mas o entendimento, nos bastidores, é de que Moraes submeteu Bolsonaro a um teste de 90 dias, período determinado pelo ministro para vigência da prisão domiciliar humanitária e temporária, situação que pode ser reavaliada após esse prazo. O entorno do ex-presidente diz estar ciente de que ele pode voltar para a Papudinha caso descumpra alguma norma ou ao fim do prazo, se sua saúde estiver melhor.

Nesta segunda (30), Moraes pediu que a defesa de Bolsonaro explique uma publicação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro para avaliar se há violação à proibição de uso das redes sociais, uma das regras da prisão do ex-presidente em regime domiciliar. Se Moraes entender que houve burla, Bolsonaro poderia voltar para o regime fechado.

Bolsonaristas mais radicais dizem que as condições impostas por Moraes e a possibilidade de reverter a decisão a qualquer momento representam uma ameaça ao ex-presidente e aos seus filhos. Ou seja, há uma obrigação de que a família não desagrade o ministro, sob pena de perder o direito à domiciliar.

Entre as medidas que a defesa do ex-presidente pode tentar derrubar estão a proibição de visitas, o limite de 30 minutos para conversas com advogados e o veto a manifestações e aglomerações em um raio de 1 km da casa de Bolsonaro.

Na sexta, depois que Bolsonaro chegou a sua casa, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) afirmou à imprensa que sua própria família, como irmãos, não podem visitá-lo, mas evitou expressar descontentamento.

"A nossa família não pode. Eu falo família, os meus pais, os meus irmãos. Pessoas da nossa rotina. Então, fica um pouco mais restrito, mas não tem problema. O fato de ele estar em casa para mim já é de grande felicidade", disse.

Questionada sobre procurar Moraes novamente para tentar ampliar o prazo da domiciliar, como fez pessoalmente na segunda-feira (23), um dia antes de o ministro conceder a transferência de Bolsonaro para casa, Michelle disse que não há necessidade por enquanto. "Nós temos 90 dias, então creio que as coisas vão se ajustar nesses 90 dias."

A respeito da atividade política dela e do marido, Michelle afirmou que "política agora é zero" e que vai se dedicar aos cuidados dele.

O presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou a chamar a decisão de Moraes de "exótica" por valer apenas 90 dias, mas disse que representava um primeiro passo por justiça.

O senador reclamou também das restrições impostas aos advogados, argumentando que o acesso deveria ser livre. Disse ainda que a proibição de visitas não tem "nada a ver com os tipos de problemas de saúde" do pai.

"Claramente, há um viés político nessa decisão para dificultar, pelo menos, as conversas, as articulações políticas na iminência das eleições", afirmou à CNN na terça (24).

Flávio também falou em futuras medidas judiciais. "A decisão é confusa sobre os advogados. Restringe o acesso a apenas 30 minutos em dias específicos, concorrendo em uma grade com outros 50 apenados, como se ele ainda estivesse no batalhão [Papudinha]. Estando em domiciliar, o acesso deveria ser livre para orientações e decisões estratégicas. Vamos ter que discutir na defesa como esclarecer esses temas."

Um dos advogados de Bolsonaro, Paulo Cunha Bueno afirmou que a modalidade temporária da domiciliar era "singularmente inovadora". "Lamentavelmente, as condições e necessidades especiais que o [ex-]presidente demanda são permanentes e esse nível de cuidados, portanto, serão demandados por toda vida", completou nas redes sociais.

Na Papudinha, como é conhecido o 19º Batalhão da Polícia Militar, Bolsonaro podia receber uma série de aliados e políticos, com quem conversava sobre as eleições deste ano, desde que com autorização de Moraes e hora marcada, em dias específicos. Agora, estão proibidas as visitas que não sejam dos filhos, de médicos ou de advogados.

Em sua decisão, o ministro determinou "a suspensão de todas as demais visitas pelo prazo de 90 dias, correspondente ao período de recuperação do custodiado, para resguardar o ambiente controlado necessário, principalmente para se evitar o risco de sepse e controle de infecções".

Internado desde o dia 13, Bolsonaro recebeu alta na sexta-feira e deixou o hospital DF Star pela manhã rumo ao condomínio onde mora, no Jardim Botânico. O ex-presidente teve broncopneumonia bacteriana em ambos os pulmões em decorrência de seu quadro de soluços.

Para os advogados, as novas regras também são mais limitadas, já que antes eles costumavam ficar até duas horas com Bolsonaro e agora têm apenas 30 minutos. Eles podem visitá-lo todos os dias, no intervalo de 8h20 às 18h, mas precisam de agendamento prévio. Flávio foi inscrito como integrante da defesa para ter mais acesso ao pai.

A equipe médica não tem restrições de visitas e nem necessidade de agendamento. Os filhos do ex-presidente mantiveram o esquema da Papudinha, com visitas às quartas e sábados em um dos três intervalos (8h às 10h, 11h às 13h e 14h às 16h).

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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