segunda-feira, julho 13, 2026

Filhos e mulheres de ministros do STF são “fenômenos” em enriquecimento

 

Filhos e mulheres de ministros do STF são “fenômenos” em enriquecimento

O advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques, declarou possuir R$ 27,7 milhões investidos em fundos de renda fixa pouco mais de dois

Reprodução do site Nação Jurídica

Mário Sabino
Metrópoles

Eles — não os nossos — são de um talento extraordinário, e não só na advocacia, diga-se, embora seja o campo do conhecimento humano no qual esses superdotados mais exibem a sua inteligência, a sua vivacidade, o seu preparo intelectual.

Graças aos jornalistas Lucas Marchesini e Thaísa Oliveira, ficamos sabendo que um rebento do ministro Kássio Nunes Marques, advogado de apenas 26 anos, já construiu um patrimônio financeiro inalcançável para a imensa maioria de causídicos veteranos.

MILIONÁRIO – Com apenas dois anos de vida profissional, o rapaz acumulou R$ 27,7 milhões, aplicados em fundos de investimento.

“Documentos da CVM enviados à CPI do Crime Organizado do Senado mostram um aumento do patrimônio de Kevin em 2025. Naquele ano, ele já tinha cerca de R$ 5 milhões em cotas de um fundo de renda fixa do Banco do Brasil. No segundo semestre, ele fez nova aplicação, de mais de R$ 22 milhões”, informam os jornalistas.

Kevin, tal é o nome do nosso Cesare Beccaria, formou-se em fevereiro de 2025, abriu escritório próprio seis meses depois, mas os seus dons advocatícios não demoraram a ser notados. Ele arrebanhou clientes do porte da Refit e do Grupo Petrópolis, certamente ignaros da linhagem familiar do rapaz.

GENÉTICA ESPECIAL – O filho de Nunes Marques é somente mais um caso impressionante dentre outros da genética especial de ministros do Supremo.

Temos também o filho de Luiz Fux, dono de um escritório espetacular no Rio de Janeiro. Rodrigo tem uma carteira de clientes que inclui a Petrobras e a Avon. Sim, a Petrobras, leitor.

Imagino que a ambição de Kevin e de Rodrigo seja superar os honorários da mulher do ministro Alexandre de Moraes, a doutora Viviane Barci de Moraes, outro talento insuspeito até sair a notícia de que o seu escritório havia abocanhado um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master. Como se diz nas bancas de advocacia de São Paulo, a doutora Viviane Barci de Moraes é o Neymar da advocacia brasileira.

MAIS UMA – Há ainda a mulher de Dias Toffoli… Mas não é mais mulher, é ex-mulher? Então, vamos deixar para lá, porque já basta que ex seja um problema eterno para o diretamente envolvido.

Eu disse que os filhos de ministros do STF não são prodigiosos apenas na advocacia, e há um exemplo fulgurante: o filho do decano, Francisco, é o mandachuva na CBF, apesar de não ter cargo na direção da entidade que dita os rumos (cada vez piores) do futebol nacional. Ele vai chegar lá.

O rapaz orgulha-se de ter sido o responsável pela convocação de Neymar, o jogador. Ou se orgulhava antes de a seleção brasileira, a pátria de chuteiras ungida pelo filho da toga, dar aquele vexame diante da Noruega.

MANDO DE CAMPO – Francisco Mendes começou a jogar na CBF emplacando o instituto do pai como mandante no campo da CBF Academy.

O IDP de Gilmar Mendes ministra cursos de formação de negócios e gestão para profissionais da área esportiva e fica com 84% dessa bilheteria.

Assim, hoje há os filhos (e as mulheres) dos ministros do Supremo Tribunal Federal e há os nossos filhos (e as mulheres). É porque há eles e todo o resto.


OS "FILHOS DA GALINHA BRANCA" DO PODER: O extraordinário fenômeno do enriquecimento nas cercanias dos Tribunais Superiores


Por José Montalvão


Na Roma Antiga, existia uma expressão reservada aos homens considerados extraordinariamente afortunados: Albae Gallinae Filius — "filho da galinha branca". Segundo a tradição, uma águia deixou cair uma galinha branca com um ramo de louro no colo de Lívia, esposa do imperador Augusto. O episódio passou a simbolizar prosperidade, poder e uma sorte quase divina.

Passados mais de dois mil anos, a velha metáfora parece renascer em pleno século XXI. No Brasil, ela se ajusta com inquietante precisão a determinados personagens que orbitam os centros de poder da República. São pessoas que, em tempo recorde, alcançam êxito profissional e financeiro incompatível com a realidade enfrentada pela imensa maioria dos brasileiros.

Enquanto milhares de advogados passam décadas construindo reputação, conquistando clientes e enfrentando as dificuldades naturais da profissão, alguns poucos parecem nascer sob uma estrela singular. Ainda muito jovens, tornam-se protagonistas de trajetórias financeiras que despertam curiosidade, questionamentos e intenso debate público.

O fenômeno dos milhões em poucos meses

Reportagem publicada pelos jornalistas Lucas Marchesini e Thaísa Oliveira revelou um caso que ganhou repercussão nacional.

Segundo documentos encaminhados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) à CPI do Crime Organizado do Senado Federal, o filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)já citado no artigo, declarou possuir aproximadamente R$ 27,7 milhões aplicados em fundos de investimento.

A cronologia chama a atenção:

  • Fevereiro de 2025: conclusão do curso de Direito;
  • Agosto de 2025: abertura do escritório de advocacia;
  • Final de 2025: patrimônio financeiro de aproximadamente R$ 5 milhões em aplicações;
  • Poucos meses depois: novo aporte superior a R$ 22 milhões.

Naturalmente, patrimônio elevado não constitui prova de qualquer irregularidade. Tampouco a condição de filho de autoridade implica, por si só, favorecimento. Entretanto, quando sucessos dessa magnitude ocorrem em tão curto espaço de tempo e envolvem pessoas ligadas às mais altas autoridades do Judiciário brasileiro, o interesse público torna inevitáveis os questionamentos sobre transparência, governança e eventual conflito de interesses.

Mais do que discutir pessoas, a sociedade precisa discutir instituições.

A moralidade administrativa vai além da legalidade

A Constituição Federal estabelece que a Administração Pública deve obedecer aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

Entre todos eles, talvez nenhum seja tão sensível quanto o princípio da moralidade administrativa.

Não basta que determinado ato seja formalmente legal. É indispensável que também seja ético, transparente e capaz de preservar a confiança da sociedade nas instituições.

Quando familiares de autoridades que ocupam posições de enorme influência passam a atuar em setores diretamente relacionados ao ambiente institucional em que esses agentes públicos exercem suas funções, ainda que não exista qualquer ilegalidade demonstrada, surge um problema de natureza institucional: a aparência de conflito de interesses.

E, em uma democracia, a aparência também importa.

A Justiça depende não apenas de decisões corretas, mas da confiança de que elas são tomadas sem qualquer influência externa, direta ou indireta.

O Brasil de duas velocidades

Existe um Brasil que acorda às cinco da manhã para enfrentar ônibus lotados, pagar impostos e lutar para manter a família.

Existe outro Brasil onde determinadas carreiras parecem acelerar em velocidade incompatível com a experiência exigida pelo mercado.

Essa diferença alimenta um sentimento crescente de descrença.

Não se trata de condenar quem prospera.

Prosperidade conquistada pelo mérito merece respeito.

O problema surge quando a velocidade dessa ascensão desperta dúvidas legítimas sobre igualdade de oportunidades.

A confiança pública não se constrói apenas com discursos. Constrói-se com transparência.

A lição que vem do interior

Em Jeremoabo, como em milhares de municípios brasileiros, o cidadão conhece outra realidade.

Conhece o pequeno comerciante que luta para manter seu negócio aberto.

O agricultor que depende da chuva.

O servidor que trabalha décadas para conquistar uma aposentadoria.

O jovem advogado que leva anos até formar sua carteira de clientes.

É justamente por conhecer essa realidade que o cidadão comum estranha histórias de enriquecimento meteórico associadas aos círculos mais próximos do poder.

A democracia somente se fortalece quando todos acreditam que as mesmas regras valem para todos.

Quando essa percepção desaparece, instala-se o maior risco para qualquer República: a perda da confiança nas instituições.

Conclusão

A expressão romana Albae Gallinae Filius continua atual.

Não porque existam pessoas predestinadas ao sucesso.

Mas porque ainda persiste a sensação de que alguns brasileiros percorrem caminhos extraordinariamente mais curtos até o topo.

A República não pode conviver com privilégios aparentes.

A Justiça precisa parecer justa, além de ser justa.

A ética pública exige transparência.

A moralidade administrativa exige confiança.

E o povo brasileiro exige, cada vez mais, igualdade perante a lei.

José Montalvão

Funcionário Federal Aposentado. Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública. Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Blog de Dede Montalvão

"A verdade não usa toga nem pede licença. Fiscalizar o poder é fortalecer a democracia."



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