
Charge do Weber (Correio Braziliense)
Marcelo Copelli
Revista Fórum
O tarifaço anunciado por Donald Trump revelou uma contradição que o bolsonarismo já não conseguia administrar. O que durante anos funcionou como demonstração de lealdade política ao presidente norte-americano passou a produzir custos econômicos e eleitorais difíceis de ignorar.
A mobilização de Flávio Bolsonaro em Washington para tentar adiar a entrada em vigor das tarifas simboliza essa inflexão: o mesmo grupo político que fez do republicano uma de suas principais referências agora procura conter os efeitos econômicos e eleitorais de uma decisão tomada pela própria Casa Branca.
CONCILIAÇÃO DE INTERESSES – Esse movimento vai além da atuação de um integrante da família Bolsonaro. Ele revela que a principal dificuldade da direita brasileira já não se resume ao enfrentamento do governo Lula, mas à conciliação de interesses, prioridades e estratégias que deixaram de convergir automaticamente. Seria um equívoco reduzir esse cenário às reações provocadas pelo tarifaço entre lideranças do bolsonarismo ou às trocas de ataques entre influenciadores conservadores. Esses episódios representam menos a causa da crise do que sua manifestação mais visível.
Nos últimos anos, o bolsonarismo deixou de gravitar em torno de uma estratégia única e passou a reunir grupos que compartilham objetivos semelhantes, mas seguem caminhos diferentes para alcançá-los. O tarifaço não criou essa tensão. Apenas a trouxe à superfície.
Durante a ascensão do ex-presidente, divergências internas eram absorvidas pela centralidade de sua liderança. Questões econômicas e diplomáticas acabavam subordinadas à lógica da lealdade política, e o alinhamento com Trump tornou-se uma de suas principais marcas identitárias. Mais do que uma aproximação entre governos, consolidou-se uma afinidade baseada em narrativas semelhantes, valores compartilhados e uma visão comum sobre instituições, política internacional e conflitos culturais.
LIMITES – A realidade econômica, porém, impõe limites que a retórica não elimina. Quando decisões adotadas por um aliado internacional passam a produzir custos para exportadores, produtores rurais e setores industriais brasileiros, a fidelidade ideológica deixa de ser apenas um princípio político para gerar consequências concretas. Esse choque tornou-se evidente com a nova rodada de tarifas anunciada pelos Estados Unidos.
Flávio Bolsonaro argumentou que a medida poderia fortalecer politicamente o presidente Lula da Silva e ampliar prejuízos para segmentos relevantes da economia. Seu significado político, contudo, é claro: o mesmo grupo que transformou Trump em referência política viu-se obrigado a pedir a revisão — ou, ao menos, o adiamento — de uma decisão tomada por seu principal aliado internacional.
A mudança torna-se ainda mais significativa quando comparada a episódios anteriores. Em diferentes momentos, integrantes da família Bolsonaro minimizaram os efeitos de medidas adotadas por Washington em nome da convergência ideológica. Agora, a preocupação deslocou-se para os custos eleitorais e econômicos desse alinhamento. Não houve uma revisão doutrinária, mas o reconhecimento de que a proximidade automática com Trump passou a impor dilemas cada vez mais evidentes à medida que se aproxima a eleição de 2026.
DIVERGÊNCIAS – As diferenças entre Flávio e Eduardo Bolsonaro ajudam a compreender esse momento sem que seja necessário tratá-las como uma ruptura familiar. Elas refletem a convivência de prioridades distintas dentro do mesmo universo político. Enquanto um procura ampliar o diálogo com setores moderados, empresariais e produtivos, o outro permanece identificado com a internacionalização do conflito político brasileiro e com a manutenção de vínculos estreitos com o núcleo trumpista. A divergência não rompe o bolsonarismo, mas revela que suas principais lideranças já não respondem aos mesmos incentivos nem compartilham a mesma lógica de atuação.
Esse movimento não se limita à família Bolsonaro. Governadores, parlamentares, empresários, lideranças religiosas e influenciadores digitais passaram a responder a incentivos políticos distintos. Para alguns, o objetivo é ampliar a base eleitoral; para outros, preservar a identidade ideológica que impulsionou o bolsonarismo; há ainda aqueles cuja influência depende da radicalização permanente nas redes sociais. O resultado é uma direita menos homogênea, na qual plataformas antes utilizadas para mobilizar apoiadores contra adversários externos passaram a expor disputas por protagonismo e influência.
As críticas públicas entre antigos aliados, portanto, não podem ser reduzidas a episódios de vaidade ou competição pessoal. Elas expressam uma dificuldade crescente em definir quem conduzirá a oposição e qual estratégia prevalecerá nos próximos anos. A lógica do confronto permanente, que durante muito tempo funcionou como elemento de coesão, passou a conviver com a necessidade de dialogar com setores preocupados com estabilidade econômica, previsibilidade institucional e capacidade de governar. O debate deixa de girar apenas em torno de convicções e incorpora, de forma cada vez mais evidente, cálculos de viabilidade eleitoral.
ALINHAMENTO – Isso não significa que a polarização entre direita e esquerda tenha perdido centralidade. O governo Lula continua sendo o principal adversário do campo conservador, e o antipetismo permanece como importante fator de unidade. O que perdeu força foi sua capacidade de acomodar divergências que hoje envolvem liderança, método de oposição, alianças internacionais e prioridades econômicas. A existência de um adversário comum já não basta para manter alinhados atores submetidos a pressões cada vez mais distintas.
A aproximação das eleições torna esse quadro ainda mais evidente. Até pouco tempo, bastava concentrar as críticas no governo federal para preservar uma relativa unidade. Agora surgem dilemas que não admitem respostas simples: como ampliar o eleitorado sem afastar a militância mais fiel? Como conciliar a herança política de Jair Bolsonaro com as exigências de uma campanha voltada também ao eleitor moderado? Essas questões deslocam o debate da identidade para a estratégia e tornam inevitáveis divergências que antes permaneciam subordinadas à liderança do ex-presidente.
Esse episódio evidenciou uma transição que já estava em curso. Ao tentar conter os efeitos de uma decisão tomada por Washington, Flávio Bolsonaro expôs um dilema que ultrapassa sua atuação individual: conciliar fidelidade política e pragmatismo eleitoral.
REORGANIZAÇÃO – Os acontecimentos recentes revelam, assim, um processo mais amplo de reorganização da direita brasileira. À medida que a sucessão presidencial se aproxima, cresce a pressão para definir prioridades, construir alianças e formular uma estratégia capaz de reunir grupos que já não compartilham automaticamente os mesmos objetivos políticos. O desafio deixou de ser apenas preservar sua unidade simbólica; passou a ser reconstruir uma capacidade efetiva de coordenação política.
Coalizões raramente entram em crise porque deixam de reconhecer seus adversários. Elas se desgastam quando deixam de concordar sobre os custos necessários para alcançar um objetivo comum.
A direita brasileira continua compartilhando referências e objetivos comuns, mas perdeu a capacidade de transformá-los em ação política convergente. O que as últimas semanas evidenciaram foi o enfraquecimento do principal fator de coesão do bolsonarismo: a liderança capaz de acomodar interesses diversos sem permitir que as divergências se convertessem em disputas abertas.