Campanha de Tarcísio busca distância estratégica
Bianca Gomes
Pedro Augusto Figueiredo
Estadão
Apesar de ser o coordenador da campanha de Flávio em São Paulo, Tarcísio tem mantido distância da corrida presidencial e dado apenas apoio protocolar ao filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O entorno do governador afirma que ele ajudará Flávio, mas até o limite em que isso não represente um risco à sua própria reeleição em São Paulo.
Até agora, as pesquisas mostram que o desgaste vivido por Flávio nas últimas semanas não respingou em Tarcísio. A aliança entre o senador e o governador, no entanto, já está sendo explorada pelo pré-candidato do PT, Fernando Haddad.
ESTRATÉGIA – O objetivo do petista é “colar” a imagem dos dois para tentar transferir parte da rejeição de Flávio para o adversário. A reportagem procurou a pré-campanha de Flávio e o governo Tarcísio, mas não houve posicionamento.
Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril, a mais recente com dados detalhados sobre o Estado para os dois cargos, 38% dos entrevistados afirmaram que não votariam de jeito nenhum em Tarcísio. O porcentual sobe para 53% no caso de Flávio.
Reservadamente, aliados de Tarcísio afirmam que a campanha à reeleição será centrada no legado da atual gestão e nas propostas para um novo mandato. Eles reconhecem, porém, que a associação com Flávio representa um desafio, sobretudo porque a própria pesquisa Genial/Quaest mostra que 47% dos paulistas preferem um governador independente, não aliado nem a Lula nem a Bolsonaro.
AUMENTO DA REJEIÇÃO – Na visão do PT, os números mostram que há espaço para aumentar a rejeição de Tarcísio. Tradicionalmente, essa métrica ganha importância no segundo turno, sob a lógica de que o candidato menos rejeitado tende a ter maior capacidade de atrair eleitores e vencer a eleição.
Neste ano, porém, o cálculo pode ser antecipado. A previsão é que a eleição seja decidida por um tira-teima entre Tarcísio e Haddad já no primeiro turno, pois os outros sete pré-candidatos colocados pertencem a siglas de menor expressão. Na pesquisa Datafolha publicada no último dia 5, Tarcísio tem 46% das intenções de voto e Haddad, 30%.
Aliados de Tarcísio avaliam que a rejeição do governador está controlada e retornou a um patamar de normalidade após uma alta no segundo semestre de 2025 por causa do tarifaço imposto pelos Estados Unidos e do julgamento em que Bolsonaro foi condenado por golpe de Estado.
AÚDIO DE FLÁVIO – O levantamento da Quaest em São Paulo foi realizado antes da revelação do áudio de Flávio pedindo dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse. Nacionalmente, contudo, a rejeição do senador subiu de 52% em abril, antes do áudio, para 56% em junho, segundo o instituto – o resultado não pegou os efeitos das declarações da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) sobre o enteado.
Quando o envolvimento de Flávio com Vorcaro veio à tona, Tarcísio respondeu a jornalistas que havia “muitas questões que ele mesmo [Flávio] precisa explicar”. Dias depois, na Marcha para Jesus, o pré-candidato do PL disse que Tarcísio “é um aliado, um amigo e um grande governador” ao ser perguntado sobre como estava a relação com o aliado. Apesar de terem dividido o trio elétrico e depois o palco, Tarcísio não publicou em suas redes sociais fotos ou vídeos ao lado de Flávio no evento.
Apesar do governador ser, oficialmente, o coordenador da campanha do senador em São Paulo, Tarcísio não tem se envolvido diretamente no dia a dia da operação, o que dá ao cargo um título de caráter mais simbólico, segundo explicam aliados.
QG DE CAMPANHA – A justificativa é que o foco do chefe do Executivo paulista no momento é administrar o Estado e que a chave ainda não virou para a campanha. Por outro lado, a aposta de Flávio é que a transferência do “quartel-general” de sua campanha para São Paulo pode estreitar a relação com a campanha de Tarcísio e reforçar a aliança.
A agenda mais recente com a presença de ambos ocorreu no último dia 23 em uma feira do agronegócio realizada em Presidente Prudente (SP). No discurso, Tarcísio agradeceu a presença de Flávio, disse que ele será o próximo presidente da República e que graças a Bolsonaro se tornou governador de São Paulo.
Dias antes eles participaram do lançamento da pré-campanha de André do Prado (PL) ao Senado, em Guarulhos (SP). Uma agenda similar já havia ocorrido em maio, em apoio ao ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP), que também tenta se eleger senador.