segunda-feira, julho 06, 2026

O patriotismo seletivo da direita brasileira foi destruído pelos atos de Trump


Charge do Marcelo Martinez (Canal Meio)

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Durante anos, setores expressivos da direita brasileira reivindicaram para si o monopólio do patriotismo. Fizeram da bandeira nacional um símbolo de identidade política, transformaram a defesa da soberania em sua principal credencial moral e acusaram adversários de subordinar os interesses nacionais a agendas estrangeiras. Essa narrativa lhes conferiu força política, mas também criou uma exigência inevitável: a de demonstrar a mesma coerência quando interesses nacionais entrassem em tensão com afinidades ideológicas.

Os acontecimentos recentes envolvendo as medidas anunciadas pelo governo Donald Trump, com potencial de afetar a economia brasileira, não criaram esse dilema. Apenas o tornaram mais visível. Afinal, a defesa da autonomia nacional mantém o mesmo peso quando interesses brasileiros são atingidos por um governo politicamente admirado por parte significativa da direita? Ou esse princípio muda de intensidade conforme a identidade de quem o desafia?

IDENTIDADE VISUAL – Para compreender por que essa pergunta é relevante, basta observar como o patriotismo foi reconstruído na política brasileira ao longo da última década. A bandeira nacional deixou de funcionar apenas como um símbolo da República para tornar-se a identidade visual de um projeto político. O verde e amarelo passaram a dominar manifestações, campanhas eleitorais e redes sociais. O hino nacional ganhou protagonismo em atos públicos. A defesa da autonomia nacional transformou-se em um dos pilares do discurso conservador, acompanhada da ideia de que nenhuma potência estrangeira deveria ditar os rumos do país.

Não se tratou apenas de uma estratégia de comunicação. Foi uma operação política que redefiniu o significado público dos símbolos nacionais. Aos poucos, consolidou-se a percepção de que o patriotismo possuía representantes mais legítimos do que outros, como se o compromisso com o Brasil pudesse ser medido pela intensidade com que alguém empunha uma bandeira ou denuncia interferências estrangeiras. Esse princípio deixou de ser apenas um valor constitucional para transformar-se também em um marcador de identidade política.

Foi essa construção simbólica que os acontecimentos recentes colocaram sob escrutínio. Naturalmente, seria um erro tratar a direita brasileira como um bloco homogêneo. Existem diferenças importantes entre suas correntes, lideranças e interpretações sobre política externa. Ainda assim, parte significativa das manifestações públicas revelou um contraste difícil de ignorar. Em muitos casos, o foco principal das críticas voltou-se para o governo Lula, enquanto as medidas adotadas por Washington foram relativizadas, justificadas ou deslocadas para um plano secundário.

CRITÉRIO – Criticar o governo brasileiro é não apenas legítimo, mas indispensável em qualquer democracia. O problema não está na crítica. Está no critério utilizado para formulá-la. Se a defesa da autonomia nacional perde intensidade justamente quando interesses brasileiros são afetados por um governo ideologicamente próximo, ela deixa de funcionar como um princípio permanente e passa a depender da identidade de quem pratica a ação.

Essa distinção é decisiva. Em política, a coerência não se mede pela intensidade das convicções, mas pela disposição de aplicá-las inclusive quando elas contrariam nossos próprios aliados.

Existe o patriotismo dos símbolos e existe o patriotismo dos princípios. O primeiro manifesta-se em bandeiras, slogans, discursos e demonstrações públicas de pertencimento. O segundo revela-se na capacidade de aplicar os mesmos critérios aos aliados e aos adversários, aos governos que admiramos e àqueles que criticamos. Um fortalece identidades políticas. O outro fortalece instituições.

ORDEM DAS LEALDADES – Esse talvez seja um dos efeitos mais profundos da polarização contemporânea. Ela não elimina princípios; altera a ordem das lealdades. A autonomia do país continua sendo defendida, mas apenas diante de determinados atores. A independência nacional permanece como discurso, desde que não imponha custos às afinidades ideológicas. Os princípios não desaparecem. Tornam-se condicionais.

A seletividade moral não escolhe ideologias. Ela prospera sempre que a identidade política passa a valer mais do que os critérios que cada grupo afirma defender. O episódio recente, contudo, possui uma particularidade. Não porque tenha inaugurado essa contradição, mas porque a tornou impossível de ignorar.

Quem hoje enfrenta esse teste é justamente o campo político que mais reivindicou para si a condição de guardião da autonomia nacional. Quanto mais central é um princípio no discurso de um movimento político, maior tende a ser a expectativa de coerência quando esse princípio é colocado à prova.

PATRIMÔNIO SIMBÓLICO – Talvez o maior erro da política brasileira tenha sido permitir que a bandeira deixasse de representar um espaço comum para transformar-se em patrimônio simbólico de uma facção. Símbolos nacionais cumprem sua função precisamente porque pertencem a todos. Quando passam a distinguir grupos políticos, continuam sendo símbolos. Mas deixam de cumprir sua principal missão republicana: lembrar que a nação é maior do que qualquer governo, partido ou liderança.

O patriotismo nunca é realmente testado quando o interesse nacional coincide com o de aliados políticos. Seu momento de verdade começa quando essas duas escolhas deixam de ser a mesma. É nesse instante que slogans perdem força, discursos deixam de bastar e resta apenas um critério: aplicar aos aliados as mesmas exigências dirigidas aos adversários.

É ali que se mede a consistência de qualquer projeto político. Valores só demonstram sua força quando resistem às conveniências do momento. Se mudam conforme a identidade de quem os desafia, deixam de orientar a ação pública e passam a servir apenas como argumento de ocasião. No fim, nenhuma bandeira é capaz de substituir a coerência. Quando um ideal vale apenas contra os adversários, ele já não orienta escolhas; apenas justifica preferências.

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