Publicado em 3 de julho de 2026 por Tribuna da Internet

Senador viajará a Washington para defender argumentos
Letícia Pille
O Globo
O senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou ao governo dos Estados Unidos que a sobretaxa proposta sobre produtos brasileiros daria ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) “exatamente a vitória política que ele vem buscando”.
A avaliação consta em um documento de 86 páginas apresentado junto ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), órgão responsável pela investigação comercial contra o Brasil. No texto, o parlamentar pede a suspensão da medida e sustenta que a adoção das tarifas produziria efeito contrário ao pretendido por Washington.
VITÓRIA POLÍTICA – Para convencer as autoridades americanas, Flávio argumenta que as tarifas fortaleceriam politicamente Lula em vez de pressionar seu governo. Na conclusão da manifestação, afirma que a medida daria ao presidente uma vitória política, ao mesmo tempo em que prejudicaria a economia americana e os brasileiros favoráveis a uma relação mais próxima entre Brasília e Washington.
“Em outras palavras: as tarifas propostas dariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem buscando, ao mesmo tempo em que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que buscam uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”, afirmou.
Ao longo do documento, o senador sustenta que o governo Lula transformou o embate com os Estados Unidos em um ativo político doméstico e que novas sobretaxas apenas reforçariam essa estratégia. Para embasar a tese, cita pesquisas eleitorais e afirma que a rodada anterior de tarifas imposta pelo governo Donald Trump fortaleceu eleitoralmente o presidente brasileiro, em vez de pressionar sua gestão.
FORTALECIMENTO – “A provocação é explicada por uma estrutura de incentivos. Pesquisas de opinião no Brasil mostram que a posição eleitoral do governo se fortaleceu justamente nos períodos em que a pressão tarifária dos Estados Unidos foi mais intensa”, argumentou.
Segundo Flávio, a proposta do governo americano recompensaria justamente aqueles que deveriam punir, ao beneficiar politicamente o Palácio do Planalto. Na avaliação apresentada ao USTR, o alvo das críticas americanas são o governo Lula e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) conta o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas as tarifas acabariam recaindo sobre exportadores brasileiros, importadores e consumidores americanos, além dos brasileiros que defendem uma relação mais próxima entre os dois países.
“Como o próprio presidente enquadrou a questão, o alvo é a conduta do governo e do Judiciário. Uma tarifa de 25% sobre praticamente toda a economia brasileira não atinge nenhum dos dois. Ela atinge exportadores, importadores americanos, consumidores dos Estados Unidos e a população brasileira que se opõe justamente às condutas em questão”, escreveu.
SUSPENSÃO – Na manifestação, o senador pede que o governo americano suspenda a implementação das tarifas e estabeleça imediatamente um mecanismo de negociação bilateral sobre os seis temas investigados pelo USTR: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, incluindo o Pix; tarifas preferenciais; combate à corrupção; propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal.
A proposta é que a aplicação das tarifas seja adiada enquanto os dois países negociam uma solução para os pontos levantados na investigação, mantendo o processo aberto e preservando a possibilidade de adoção das medidas caso não haja acordo.
Outro argumento apresentado é que, se Washington entender que houve violações por parte de autoridades brasileiras, deveria recorrer a medidas direcionadas, como restrições de visto e sanções individuais, em vez de sobretaxas sobre produtos brasileiros. Segundo Flávio, esse tipo de instrumento atingiria diretamente os responsáveis pelas condutas questionadas, sem impor custos à economia americana nem aos brasileiros favoráveis à aproximação entre Brasília e Washington.
AUDIÊNCIA PÚBLICA – Flávio viajará a Washington para participar, na próxima segunda-feira, de audiência pública promovida pelo USTR, etapa prevista antes da decisão final sobre a aplicação das tarifas. O senador pediu cinco minutos para discursar na sessão como representante do Senado Federal e pré-candidato à Presidência da República.
No pedido de inscrição, Flávio informou que tratou do tema diretamente com o presidente Donald Trump e com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e afirmou que defenderá uma “solução construtiva e negociada” para as questões levantadas na investigação. Segundo aliados, ele também pretende fazer uma defesa do Pix, alvo de críticas do governo americano por suposta concorrência desleal.
O prazo para que o governo dos Estados Unidos decida se adotará ou não as tarifas termina em 15 de julho, cerca de uma semana após a audiência pública. A investigação conduzida pelo USTR questiona políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital e ao Pix, além de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e questões ambientais.