A torcida da França exibe um país em plena miscigenação
Carlos Newton
Envolvidos nessa paixão fulminante que o futebol desperta, a ponto de a Fifa ter mais países filiados (211) do que a própria Organização das Nações Unidas (193), são poucos os que percebem a extraordinária, sublime e definitiva lição que essa Copa está dando ao mundo inteiro.
O impressionante evento esportivo confirma o conceito criado pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre (1900/1987) sobre a chamada democracia racial, em absoluto pioneirismo, porque foi o primeiro intelectual que estudou a importância da miscigenação na fase pós-escravatura da humanidade.
TÍTULO DE SIR – Como escritor, Gilberto Freyre dedicou-se pesquisar a interpretação do Brasil sob ângulos de sociologia, antropologia, geografia e história. Foi também autor de ficção, jornalista, deputado federal, poeta e pintor.
É considerado um dos mais importantes sociólogos do século XX. Tinha grande admiração pela cultura inglesa e via o Reino Unido como modelo de tradição, ordem e desenvolvimento. Escreveu vários livros sobre a Inglaterra.
Seu conhecimento era tamanho que recebeu o título de Doutor Honoris Causa na renomada Universidade de Sussex. Em 1971, a consagração: foi agraciado pela rainha Elizabeth II com o título de Cavaleiro Honorário da Ordem do Império Britânico. Como estrangeiro, ele não podia usar o “Sir” antes do nome, mas foi condecorado e teve reconhecida a grande contribuição à cultura mundial.
DEMOCRACIA RACIAL – Em sua vasta obra, o intelectual pernambucano jamais usou a expressão “democracia racial”, mas fixou as bases dessa evolução social em “Casa-Grande & Senzala”, de 1933.
Freyre simplesmente inverteu as teorias ignaras da época, que viam a mistura de raças como uma degeneração. Ao contrário, ele encarava a mestiçagem como um fenômeno positivo, argumentando que a miscigenação seria uma grande força e se tornaria o maior diferencial da identidade brasileira.
O autor defendia que a colonização portuguesa no Brasil, por ter sido mais branda e flexível, permitiu uma convivência íntima e uma intensa troca cultural e racial entre colonizadores, indígenas e africanos.

Freyre foi um verdadeiro gênio da raça
CRÍTICAS VAZIAS – Na época, Freyre foi muito criticado por militantes negros, porque a expressão “democracia racial” passara a ser amplamente usada por intelectuais e políticos a partir da década de 1940, para esconder a existência de preconceito no Brasil. Mas o tempo passou e somente agora, quase 100 anos depois da publicação de “Casa Grande & Senzala”, a Copa de 2026 nos exibe o impressionante fenômeno da miscigenação racial.
Países europeus têm jogadores de todas as raças, o Japão apresenta um goleiro negro, as seleções africanas tem craques mulatos e brancos, até a Noruega tem negros no time, a Suíça é uma miscigenação, algo numa visto.
O mais importante, porém, são as torcidas, todas elas também exibindo a mistura humana que avança no mundo, mostrando que Gilberto Freyre tinha razão e a democracia racial será inexorável.
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P.S. – Não existe nenhuma força mais democrática do que o amor. É a paixão entre amantes de diferentes raças que está purificando o mundo. Não adianta que alguns países muçulmanos continuem sonhando com um predomínio político e militar que lhes possibilite submeter, doutrinar ou até eliminar da face da terra os infiéis. Isso jamais acontecerá, porque não somente o amor possibilita a miscigenação, como a paixão pelo futebol também a incentiva expressivamente. Esta é a maior lição que os shows das torcidas estão ensinando ao mundo inteiro, nos fazendo lembrar a importância de um pensador como Gilberto Freyre, que merece ser classificado como gênio da raça. (C.N.)