
Charge do Babu (Arquivo do Google)
Yago Godoy
O Globo
A pouco menos de três meses das eleições, o cenário acirrado da disputa presidencial, marcado pela polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tem provocado desistências e dificultado os planos de outros pré-candidatos.
Nesta semana, o deputado federal Aécio Neves (MG) descartou a possibilidade de concorrer ao Palácio do Planalto pelo PSDB, enquanto o partido Democracia Cristã (DC) avalia desistir de lançar o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa.
SEM PONTUAÇÃO – Em janeiro, o Democracia Cristã anunciou a pré-candidatura do ex-ministro Aldo Rebelo. Ele foi o nome da sigla até maio, quando, segundo a Genial/Quaest, nem sequer pontuou na pesquisa de intenção de voto. Diante do fraco desempenho, o partido decidiu lançar Barbosa.
No mês passado, ao ser testado pela primeira vez, o ex-magistrado registrou 1% em um eventual cenário de primeiro turno. O percentual é o mesmo de nomes como Samara Martins, da Unidade Popular (UP), e Augusto Cury, do Avante.
DESISTÊNCIA – Presidente nacional do DC, o ex-deputado federal alagoano João Caldas admitiu, na quinta-feira (9), que Barbosa pode desistir de disputar as eleições. Segundo o dirigente partidário, o cenário “não está nada fácil”.
— Ainda estamos tentando, mas não está fácil. Temos até 5 de agosto, prazo para realizar a convenção que pode definir o nome do candidato a presidente, mas está muito difícil — disse Caldas, em entrevista ao site Poder360.
Barbosa foi o primeiro homem negro a ocupar uma cadeira na mais alta Corte da Justiça, onde permaneceu por 11 anos. Ele foi relator dos processos do mensalão, escândalo que marcou os dois primeiros governos Lula e ainda é utilizado por adversários para criticar as gestões petistas.
ESTRATÉGIA – Em meio aos desdobramentos do caso Master, que atinge tanto nomes do governo — como o senador Jaques Wagner (PT) — quanto da oposição — com a crise causada na direita pelo caso “Dark horse” —, a estratégia do ex-ministro passa por capitalizar o discurso contra a corrupção. Outro objetivo é se inserir nos debates sobre a “moralização” do STF. A definição precisa ocorrer até 5 de agosto, data-limite para as convenções partidárias.
No dia anterior à declaração de Caldas, quem optou por deixar a corrida foi Aécio Neves. Em 2014, ele disputou a Presidência contra a ex-presidente Dilma Rousseff, em uma das eleições mais acirradas do país: o tucano obteve 48,36% dos votos válidos, contra 51,64% da petista. Desta vez, aparece com 2% das intenções de voto, de acordo com a Genial/Quaest.
— Depois de muitas conversas internas, tenho que afirmar, em primeiro lugar, que o PSDB caminha para não ter candidatura própria nesta eleição — afirmou Aécio, em entrevista ao Estado de S.Paulo.
PLANOS PARA 2030 – O ex-deputado ressaltou que, a partir de agora, os planos do partido para uma candidatura presidencial estão voltados para 2030. Antes de decidir entrar na disputa, ele havia convidado o ex-ministro Ciro Gomes. O cearense, contudo, recusou o convite para focar em sua candidatura ao governo do Ceará, onde lidera contra o governador Elmano de Freitas (PT).
Aécio defende se dedicar à reestruturação do PSDB na Câmara, que deve optar por apoiar uma candidatura de centro. O partido decidiu entrar na disputa em meio ao início dos desgastes na pré-campanha de Flávio, provocados pela revelação de sua ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
CORRIDA ELEITORAL – A última pesquisa Genial/Quaest mostrou Lula na liderança da disputa pelo Planalto no primeiro turno, com 39% das intenções de voto, contra 29% de Flávio. Depois deles, nenhum candidato ultrapassa 3%, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais.
Apontados até o momento como as principais alternativas à polarização, os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) marcaram 3% e 2%, respectivamente. Pelo partido Missão, Renan Santos apareceu empatado com o ex-governador de Goiás.
VOTO DE REJEIÇÃO – Durante agenda no Rio de Janeiro, na quinta-feira, Caiado foi questionado sobre aparecer atrás dos dois pré-candidatos nas pesquisas e afirmou que o cenário é motivado pelo “voto de rejeição” entre os eleitores dos adversários.
— Estamos vendo uma candidatura de rejeitados. São os mais rejeitados que estão aí. “Eu não gosto do Lula, voto no Flávio. Eu não gosto do Flávio, voto no Lula”. Isso é jogo de revanche ou é uma eleição para o país? É sobre quem está mais no noticiário da Polícia Federal, ou quem tem um passado que o credencia, uma vida de luta? — declarou a jornalistas após um almoço com empresários na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ).