segunda-feira, março 02, 2026

O Sétimo Dia: A Travessia entre a Ausência e a Eternidade



A missa de sétimo dia será amanhã (03,03.2024) às 19:30h, na Igreja São Francisco - Paulo Afonso

Paróquia Nossa Senhora do Santissímo Sacramento 03.03 às 07:00 horas - Conjunto Leite Neto Aracaju

Igreja Matriz São João Batista 04;03 às 19:00 Horas Jeremobo




O Sétimo Dia: A Travessia entre a Ausência e a Eternidade

Por José Montalvão

O Sétimo Dia: A Travessia entre a Ausência e a Eternidade

Amanhã, as velas se acendem para a missa de sétimo dia do meu irmão, Fernando Montalvão. Diante do altar, da oração e da saudade que insiste em apertar o peito, somos convidados não apenas ao silêncio respeitoso, mas à reflexão profunda sobre dois mistérios que acompanham a humanidade desde sempre: a morte e a separação de um ente querido.

A morte é, talvez, a única certeza absoluta da vida. Desde o primeiro choro ao nascer, caminhamos, ainda que inconscientemente, em direção a esse desfecho inevitável. Sabemos disso pela razão, mas nunca estamos preparados pelo coração. A morte interrompe a presença física, silencia a voz, esvazia a cadeira à mesa, encerra diálogos que imaginávamos ainda longos. Ela nos confronta com a nossa fragilidade e com os limites da existência humana.

Muitas vezes, olhamos para a morte como um muro, uma interrupção brusca. Contudo, sob a luz da fé cristã, ela não é um fim, mas uma passagem; não é um ponto final, mas uma mudança de estado. É travessia. Se pensarmos bem, a morte é como um horizonte — e o horizonte não é o fim da estrada, é apenas o limite da nossa visão. O corpo retorna à terra, mas o espírito segue para a eternidade. A vida não se extingue; ela se transforma.

O que dói, contudo, é a separação.

A separação pela morte é uma ruptura que não depende da nossa vontade. Diferente de outras despedidas, ela não permite reencontros nesta vida. É uma ausência que se impõe. E é justamente essa ausência que revela a grandeza do amor que existia. Só sofre profundamente quem amou profundamente. A dor do luto é o reflexo do vínculo construído ao longo dos anos.

Perder um irmão é perder parte da própria história. É alguém que dividiu o mesmo sangue, o mesmo teto, as memórias da infância, as alegrias e as dificuldades. Um irmão carrega conosco as raízes, os ensinamentos, os sonhos compartilhados. A dor que sentimos hoje não deve ser vista como desespero, mas como honra: é o preço do amor. Só experimenta essa dor quem teve o privilégio da união.

Entretanto, a morte não consegue romper o vínculo. Ela rompe o contato físico — o abraço, a conversa, o café compartilhado — mas não rompe o laço. O ser amado deixa de ocupar um espaço no mundo para passar a ocupar todos os espaços dentro de nós. A morte separa os corpos, mas o amor constrói uma ponte que o tempo não derruba.

Na tradição cristã, o número sete simboliza plenitude e conclusão de um ciclo. A missa de sétimo dia não é apenas um lamento pela partida, mas um ato de esperança. É quando entregamos definitivamente o nosso ente querido aos braços do Criador, confiantes de que, na casa do Pai, não há dor nem pranto, mas a paz que excede todo entendimento. Rezamos pela alma de Fernando e pedimos a Deus consolo para os que ficaram.

Amanhã, mais do que chorar a ausência, é dia de agradecer pela vida que foi compartilhada. Fernando não foi apenas um nome; foi presença, riso, conselho, exemplo. A morte não apaga o que foi vivido. Não apaga o caráter, as lições deixadas, os gestos de bondade. Quem parte leva consigo a missão cumprida; quem fica carrega a responsabilidade de honrar essa memória.

Dizem que uma pessoa só morre verdadeiramente quando é esquecida. Se assim for, meu irmão viverá eternamente entre nós. Estará presente em cada história contada, em cada gesto inspirado por seus ensinamentos, em cada oração elevada aos céus.

A morte nos tirou o Fernando físico, mas a vida nos concedeu o Fernando eterno. Que ele descanse na luz divina, e que nós encontremos conforto na certeza de que o amor nunca falha, de que a fé sustenta e de que o reencontro é promessa de Deus.

Que este sétimo dia seja não apenas de lágrimas, mas também de esperança. Porque se a morte é um mistério, o amor é uma certeza — e onde o amor permanece, ali também permanece a vida.


José Montalvão -  Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública,  pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025


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