terça-feira, setembro 28, 2021

Quando os demônios não gostavam de gritos (por Juan Arias)

Afirmação do exorcista vaticano me levou a pensar que hoje, entre os políticos, os demônios também evoluíram, falando aos brados

atualizado 27/09/2021 3:10

Reprodução

Houve um tempo em que os demônios não gostavam que ninguém gritasse. Foi o que me contou há vários anos, quando eu era correspondente deste jornal na Itália, o então exorcista oficial do Vaticano, monsenhor Corrado Balducci, já falecido, que era chamado para tratar os casos mais graves de possessão diabólica.

Consegui uma entrevista com ele depois de uma série de peripécias. Encontrei-o em seu gabinete dentro do pequeno e poderoso Estado do Vaticano. Recebeu-me cordialmente, mas me advertiu em seguida que procurasse falar em voz baixa, já que, segundo ele, “os demônios não gostam que gritem”.”Como sabe?”, perguntei-lhe. Respondeu-me, sem mais detalhes, que “por experiência própria”. E assim a entrevista foi feita aos sussurros.

Lembro ainda hoje alguns detalhes curiosos que consegui arrancar dele, embora tenha me pedido depois que não os incluísse na entrevista publicada. Por exemplo, também os animais podem ser possuídos pelo demônio. E me deu o exemplo do seu cavalo, que às vezes amanhecia possuído. Perguntei-lhe como sabia, e me explicou que nesses casos o animal “ficava com todos os pelos do rabo arrepiados”.

Essa afirmação do exorcista vaticano de que os demônios não gostam de gritos me levou a pensar que hoje, entre os políticos, os demônios também evoluíram, já que boa parte deles parece só falar aos brados e fazendo muito barulho, enquanto lhes falta reflexão e compostura.

Também relembrei aquela afirmação do exorcista por conta da gritaria e da confusão que o presidente Jair Bolsonaro e sua comitiva criaram durante sua recente estadia em Nova York para participar da Assembleia Geral da ONU. A imprensa brasileira e internacional já relataram todas as peripécias ocorridas – do fato de que o presidente brasileiro precisou comer uma pizza de pé na rua, porque não o deixaram entrar em um restaurante sem estar vacinado, até o gesto obsceno oferecido pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga contra os manifestantes.

Há um detalhe que, entretanto, passou despercebido e poderia ser uma metáfora da atual política bolsonarista. Na cerimônia de abertura da Assembleia da ONU, inaugurada, conforme a tradição, com o discurso do presidente do Brasil, houve um detalhe pouco conhecido e que foi gravado pela imprensa dos EUA. Assim que o mandatário brasileiro saiu, e antes que fosse a vez do norte-americano Joe Biden discursar, a tribuna onde acabara de falar foi rapidamente higienizada.

Naquele momento já se sabia que o presidente brasileiro não se vacinou contra a covid-19, e havia o temor de que Bolsonaro pudesse contagiar os demais presentes. Talvez por isso tenha voltado ao Brasil sem que pudesse se encontrar com o presidente norte-americano. 

Entretanto, a cena da tribuna onde Bolsonaro discursou sendo higienizada às pressas poderia ser lida também como metáfora da periculosidade política que o negacionista de extrema direita representa no país considerado o maior defensor da democracia e das liberdades. É como se aquele ritual de desinfetar o lugar onde o presidente brasileiro discursou fosse visto como um exorcismo contra os demônios da discórdia, da mentira, do ódio, do gosto pelas ditaduras, do culto às armas e à morte.

A higienização do lugar onde Bolsonaro discursou entrará para a história e deveria agora ser uma lição para os poucos brasileiros que continuam a apoiá-lo. Às vezes, há pequenos gestos que podem passar despercebidos, mas que acabam fazendo história.

A cena de desinfetar a tribuna do presidente brasileiro foi mais que uma simples cena de limpeza. Deem vocês o nome que preferirem.

Uma coisa é certa: quem suceder Bolsonaro no Planalto, algo que a grande maioria dos brasileiros deseja, como indicam todas as pesquisas, deverá antes de mais nada desinfetar aquele lugar junto com o cercadinho onde o capitão vomita a cada manhã aos seus seguidores mais fiéis os demônios que lhe fazem lançar anátemas, ameaças e mentiras. “É que ele é assim mesmo”, alegam aqueles que o seguem de perto. É verdade, mas também são assim mesmo os desequilibrados psíquicos, os incapazes de juntar duas frases com sentido, os que falam o que lhes vem à cabeça sem esses filtros dos quais todos necessitamos, como explica a psicanálise. O que ocorre é que personalidades dessa tipologia deveriam ser incapacitadas para presidir e governar uma nação.

Esses políticos que sonham com o poder absoluto são como vulcões sempre em perigo de erupção, que provocam desastres e morte. Quem vier a substituir o capitão na presidência deverá se apressar em desinfetar com essa mesma urgência um pedaço da história deste país que está sendo impedindo de sonhar com dias melhores sem o medo de ser devorado pelo vírus de uma política que preocupa o mundo e gera medo e pobreza nesses milhões de pessoas para quem já ficaram muito distantes os tempos em que se acreditava que Deus era brasileiro. Talvez nunca tenha sido, pois a história do país ainda arrasta muitas injustiças, violências e segregação social, mas o perigo de hoje é que esse “Deus acima de tudo”, lema do presidente, tenha se metamorfoseado em um demônio da discórdia e da ruptura existencial.

Não sou dos que minimizam a periculosidade dos medíocres na política que acreditam ser deuses encarnados e acabam agindo como os novos demônios da discórdia. A História está cheia de ditadores que eram insignificantes quando entraram no poder e acabaram arrastando seus países para o inferno. Nada pior, de fato, que um despreparado que acredite ser enviado pelos deuses, enquanto aparece mais como a encarnação dos novos demônios do fascismo e da intolerância que hoje parecem ressuscitar no mundo e dos quais eles gostariam que o Brasil fosse seu epicentro político.


É possível que os demônios de hoje em dia gostem de gritar e mentir, mas o que continua sendo verdade é que os deuses preferem o silêncio, a reflexão, os valores que enaltecem, a compaixão que cura, e não o gosto pela violência, a discórdia, a mentira e a morte.

Alguém será capaz de higienizar a política brasileira para impedir que o vírus da intolerância e do fascismo continuem a contaminá-la, deixando rastros da dor e da desesperança engendradas por quem governa o país?

(Transcrito do jornal El País)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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