quarta-feira, setembro 29, 2021

Os mil dias de desgoverno e a economia




Jair Bolsonaro faz um governo absurdamente ruim, mesmo levando em conta as aspirações de quem comunga do seu extremismo de direita. Mas e na economia, o que é de fato "custo Bolsonaro"? 

Por Fernando Dantas 

Nos seus mil dias de governo, Jair Bolsonaro não tem praticamente nada a exibir, mesmo a seus eleitores fiéis, que compartilham sua agenda de extrema direita.

Com uma “antiestratégia” política de rara obtusidade, ele se recusou a formar uma base de apoio parlamentar inicialmente e depois buscou o Centrão, quando essa opção se tornara mais cara. Não à toa, Bolsonaro é um presidente recordista em derrotas no Congresso, incapaz de entregar concretamente a maioria das suas promessas de campanha.

O presidente é um sério candidato ao governante mais despreparado que jamais assumiu o comando de uma grande nação. Ele não só não tem uma visão de país, como não faz a menor questão de tê-la. No Planalto, suas preocupações continuaram tão paroquiais como nas décadas em que foi parlamentar do baixo clero.

Sua única centelha ideológica é um ódio visceral a tudo o que identifica como de esquerda, numa acepção tosca e primária do significado do termo. É isso que o levou à “antipolíticas” públicas de destruição proposital em áreas como educação, meio-ambiente, direitos humanos e relações raciais, que em seu delírio estavam tomadas por “comunistas”.

Quando a pandemia chegou, Bolsonaro vestiu a camisa do negacionismo da ciência – que já se associara em outras partes do mundo à extrema-direita no debate sobre o aquecimento global – e teve uma das atuações mais grotescas entre todos os chefes de Estado do mundo.

Uma questão pertinente é avaliar quão grande e duradouro será o estrago deixado por Bolsonaro ao fim do seu primeiro mandato, independentemente de se reeleger – o que hoje parece difícil – ou não.

Em primeiro lugar, há o problema das instituições democráticas. Aqui, existe um debate entre cientistas políticos e pensadores em geral. Uma maioria considera que já houve um estrago grande, que deixará cicatrizes, como a intromissão dos militares na política e a irrupção de uma agenda política corporativista e radical por parte de agentes do Estado armados (e dispostos a se valer da violência), como a Polícia Militar.

Mas há uma minoria de analistas que defende a tese de que as instituições democráticas brasileiras “estão funcionando” para controlar os impulsos antidemocráticos de Bolsonaro. Um dos argumentos dessa corrente é a debilidade política do presidente após 1000 dias de desgoverno, com baixa popularidade e perda de apoio entre parte considerável das elites econômica, política e jurídica.

Uma discussão à parte é o legado econômico que Bolsonaro deixará ao fim deste mandato.

Aqui também não faltam razões para desapontamento. O ministro da Economia, Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga” do presidente, começou em 2019 como uma espécie de herói do liberalismo e como a face menos tosca do governo.

No primeiro ano, foi aprovada uma substancial reforma da Previdência, que se beneficiou de um amadurecimento político e social após longos anos de discussão, culminando com a reforma que quase se realizou no governo Temer.

Ainda assim, é injusto tirar todos os méritos de Guedes, que apostou – contra muitas vozes na época – por partir do zero com um novo projeto, diferente daquele de Temer, e foi bastante bem sucedido.

Depois da Previdência, no entanto, as coisas desandaram. Guedes perdeu-se com o envio de diversas reformas simultaneamente ao Congresso, sem eleger prioridades, e o caos político promovido incessantemente por Bolsonaro foi a gota d’água para que nada andasse.

É aí veio a pandemia, que levou a política econômica oficialmente liberal e ortodoxa a bancar um déficit primário de quase 10% do PIB em 2020, por conta das ações de saúde e dos programas de ajuda a pessoas e empresas, com destaque para o auxílio emergencial.

Gastar mais por causa da Covid foi uma opção correta segundo o consenso mundial, mas inevitavelmente desviou o foco da política econômica.

E, de fato, a partir da pandemia, Guedes perdeu completamente o fio da meada da sua agenda liberal. Não que nada tenha andado, como mostra a conquista da autonomia formal do Banco Central (BC), mas os eventuais avanços foram localizados e pouco tiveram a ver com a ação do Ministério.

Na verdade, a imagem de Guedes se deteriorou, em episódios como a demissão do liberal Roberto Castello Branco da Petrobrás por Bolsonaro, e também em função de uma série de declarações desastradas e elitistas do ministro e da sensação geral de que ele sacrifica seus princípios e ideias para se manter no cargo.

Quem vê hoje os números brasileiros de inflação de 10%, desemprego a 14% e um PIB projetado para desacelerar para 1,5% em 2022 tende a considerar que o desastre bolsonarista na economia é pelo menos tão forte quanto na política.

Nesse ponto, porém, é preciso fazer uma ressalva. A devastação econômica da Covid é um fenômeno global, com gradações ligadas às circunstâncias e vulnerabilidades de cada país.

Um nível de mortes calamitoso com a Covid, a economia em frangalhos e a queda estrondosa da popularidade do governante é um “combo” que afeta tanto o presidente extremista de direita no Brasil quanto o presidente populista de esquerda da Argentina, Alberto Fernández.

Na verdade, o(a) próximo presidente do Brasil, seja Bolsonaro ou outro(a), terá que lidar com uma agenda econômica mais ligada a lacunas históricas do Brasil – como completar o ajuste fiscal, reformar o Estado, retomar o investimento público e avançar em reformas pró-eficiência – do que com estragos provocados por Bolsonaro.

Guedes fez muito pouco, mas isso vale tanto para o lado bom como para o ruim. O que mostra que não fazer a coisa errada – evitando repetir a “nova matriz” de Lula II e Dilma – num país torto como o Brasil já é algum lucro.

O Estado de São Paulo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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