quinta-feira, setembro 30, 2021

Após questionamentos sobre ponte, Leão diz para vereadores de Vera Cruz procurarem MP


por Vitor Castro

Após questionamentos sobre ponte, Leão diz para vereadores de Vera Cruz procurarem MP
Foto: Divulgação / Governo do Estado da Bahia

Mesmo após se reunir com o vice-governador João Leão para buscar esclarecimentos sobre a construção da ponte Salvador-Itaparica, os integrantes da Comissão Especial parlamentar da Câmara de Vereadores de Vera Cruz revelam não ter tido acesso aos esclarecimentos necessários. Para tentar driblar a situação, a Comissão pretende provocar a Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), a Câmara de Salvador e o Ministério Público (MP-BA) para ampliar a discussão.

 

Uma reunião na governadoria no último dia 6 tentou abordar aspectos como onde o equipamento será instalado, quando serão disponibilizados os investimentos à cidade considerados condicionantes para a implementação da ponte e como serão indenizados parte dos moradores. No entanto, nada foi esclarecido. “O vice-governador disse que iria tratar com o secretário Marcus Cavalcanti. Também questionamos se a ponte seria elevada ou encostada no solo. Nossa preocupação é que, se ela for elevada, além da construção ser mais rápida, ela diminui o impacto ambiental, gerando menos problemas com o corredor da fauna”, disse o presidente da comissão, Jorge Carvalho.

 

Ainda de acordo com o vereador, Leão, apesar do tom amistoso, foi firme no posicionamento. “Ele disse que o que não conseguíssemos resolver, que a gente procurasse o Ministério Público. Então vamos buscar o MP. Não queremos um diálogo no sentido de brigar com o Estado, mas sim fazer algo que seja harmônico e que também atenda aos interesses da cidade. Ele falou que o Estado tem o poder de passar aonde quiser. Poder pode, mas tem que ter a sensibilidade, o respeito pela cidade e pelas pessoas”, reclamou. 

 

Diante do imbróglio, o próximo passo, de acordo com o vereador, será a proposição criação de uma comissão permanente para acompanhar, na presença do MP, os trabalhos da construção da ponte. Também cotados para integrar a comissão estão a Defensoria Pública, representantes da Câmara e do Executivo municipal. 

 

De acordo com Carvalho, o governo ficou de avaliar as demandas levadas para trazer mais esclarecimentos sobre a obra. “Mesmo assim vamos entrar com uma representação no MP pedindo essa participação no sentido de mitigar os problemas, pois sabemos que eles surgirão. Só o fato de não terem sido feitos os investimentos iniciais que estavam prometidos, a gente já percebe que surgirão outros problemas. Isso porque as pessoas estão buscando vir para cá. O estado precisa sim fazer os investimentos antecipados, por isso queremos um ajustamento de conduta para garantir direitos em relação a este grande feito”, pontuou. 

 

Ele conta que o governo assumiu alguns compromissos condicionantes para a instalação do equipamento, mas, até então, nada foi cumprido (relembre). “Propuseram investimentos em diversas áreas como a instalação de leitos de UTI, a instalação de uma faculdade, calçamento das vicinais da BA, investimento em segurança pública, além de investimentos em mobilidade, mas nada disso até agora foi implementado”, disse. 

 

O Bahia Notícias entrou em contato com a Secretaria de Infraestrutura do estado (Seinfra), para saber como funcionarão as indenizações para moradores que não tenham as documentações dos imóveis. Se serão construídos conjuntos habitacionais para os moradores que tiverem suas casas desapropriadas, quais serão os valores a serem investidos na cidade e, dentre outras coisas, se há projeções dos impactos após a instalação da ponte e como o governo avalia essas tentativas de diálogo iniciadas pela comissão de vereadores. Todavia, até o fechamento desta matéria, não houve retorno. 

 

A reportagem também entrou em contato com a assessoria de imprensa do consórcio responsável pela construção do equipamento e com a assessoria do vice-governador em busca de um posicionamento. No entanto, também não obtivemos resposta até o fechamento desta matéria.

Bahia Notícias

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas