quinta-feira, setembro 30, 2021

Luciano Hang mentiu sobre os empréstimos do BNDES e também sobre a pandemia


Luciano Hang

De repente, o Estadão descobriu uma afirmação verdadeira

Pedro Prata, Samuel Lima e Victor Pinheiro
Estadão

Dono das lojas Havan, o empresário bolsonarista Luciano Hang depõe à CPI da Covid nesta quarta-feira, 29. Ele disse que nunca pegou empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), o que é falso — foram 57 operações entre 1993 e 2014. Hang também citou dados enganosos sobre sua cidade natal, Brusque, em Santa Catarina, ao se posicionar contra a adoção de lockdowns. Veja a checagem do Estadão Verifica abaixo.

O que Hang disse: que nunca pegou um empréstimo do BNDES, “principalmente quando o PT esteve no poder”.

50 EMPRÉSTIMOS – O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O BNDES informa que a empresa Havan Lojas de Departamentos LTDA (CNPJ 79.379.491/0001-83) realizou 57 operações entre 1993 e 2014. O PT governou o País de 2003 a 2016, período em que foram feitos 50 empréstimos.

As operações foram celebradas na modalidade indireta e automática, sob a qual bancos parceiros credenciados ao BNDES são os responsáveis pela análise, aprovação e acompanhamento do crédito inferior a R$ 10 milhões. Caso o beneficiário final não pague as parcelas, o agente financeiro o fará junto ao BNDES, negociando os valores devidos diretamente com o beneficiário final.

Segundo o banco, não há vínculo entre a Havan e o BNDES. Há um vínculo entre o BNDES e o banco intermediário, e outro entre o banco intermediário e a Havan.

EXEMPLO DE BRUSQUE (SC) – O que disse Luciano Hang: que Brusque “foi uma das cidades que menos fecharam no Brasil” e teve taxa de mortalidade por covid-19 de 2.011 por milhão e taxa de letalidade de 1,1%.

O Estadão Verifica investigou o conteúdo e concluiu que: é enganoso. Hang coloca em dúvida a eficácia do isolamento social e do lockdown para conter a covid-19 por meio de dados isolados da cidade de Brusque (SC). Com essa alegação não é capaz de sustentar a tese, pois há vários fatores que podem influenciar no número de casos e mortes em uma localidade.

Estudos científicos que estimam o impacto desse tipo de medida de forma mais adequada observam, por exemplo, os períodos específicos em que aqueles locais promoveram determinadas políticas ou não.

É o caso de um artigo publicado na revista Science, em fevereiro de 2021, que analisou a evolução da pandemia e as intervenções governamentais em 41 países. O estudo aponta que o fechamento de serviços não essenciais contribuiu para diminuir a velocidade de transmissão do vírus.

PÁGINA OFICIAL – A reportagem checou os dados citados por Hang por meio de uma página oficial do Ministério da Saúde. A cidade de Brusque havia registrado 30.264 casos confirmados e 319 mortes por covid-19 até esta quarta-feira, 29 de setembro. Dessa forma, a taxa de mortalidade era de 237 a cada 100 mil habitantes (ou 2.370 por milhão de habitantes), e a taxa de letalidade (número de mortes em relação ao total de casos confirmados) era de 1,05%.

A mortalidade em Brusque é menor do que a média brasileira, de 285 casos a cada 100 mil habitantes, e também que a do Estado de Santa Catarina, 269, conforme informações do Ministério da Saúde.

Se fosse um país, no entanto, Brusque seria o 14º com mais mortes por habitante do planeta, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos. O Brasil aparece na 8ª posição.

APOIO À VACINA? –  O que Luciano Hang disse: que nunca foi contra a vacina. Mas o Estadão Verifica investigou e concluiu que: não é bem assim. Uma busca pela palavra “vacina” no perfil de Luciano Hang no Instagram indica que ele fez diversas publicações favoráveis à vacinação, mas também divulgou conteúdos que descredibilizam a eficácia da Coronavac.

“Você usaria um paraquedas com 50% de chances de abrir?”, escreveu Hang ao comentar sobre o índice de eficácia do imunizante em uma postagem na rede social. Ele ainda fez referências a tratamentos sem eficácia comprovada contra a covid.

Como explica uma reportagem do Comprova, esse tipo de comparação com o índice de eficácia da Coronavac é enganoso. A imunização consiste em uma estratégia coletiva, e a vacina reduz significativamente as chances de pacientes desenvolverem formas sintomáticas de covid.

ÍNDICE DE ANTICORPOS – O que Luciano Hang disse: que não se vacinou pois tem um “índice de anticorpos altíssimo”. Bem, o Estadão Verifica também investigou e concluiu que: é falso. O Estadão Verifica já mostrou em outras checagens que a proteção das vacinas vai além da presença de anticorpos no sangue.

Exames sorológicos apenas detectam a presença de anticorpos em determinado momento, mas apresentam risco de falsos negativos e não são capazes de avaliar todos os mecanismos essenciais no processo de defesa proporcionados pelas vacinas.

A Anvisa divulgou nota em junho em que explicava que “não existe até o momento definição da quantidade mínima de anticorpos neutralizantes necessária para conferir proteção imunológica contra a infecção pelo SARS-CoV-2”.

VACINA PARA TODOS – Mesmo quem já foi infectado pela covid-19 deve se vacinar. O Estadão explicou neste guia que a imunidade natural ao vírus não é constante na população e não é mensurável. Quer dizer, ainda não se sabe quanto dura a proteção gerada pelo contágio.

O que Luciano Hang disse e realmente fez: uma doação de 200 cilindros de oxigênio ao governo do Amazonas. Mas o Estadão Verifica investigou e concluiu que: é verdadeiro. A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa da Saúde ao Estadão Verifica por e-mail. A doação, porém, só foi anunciada depois que agências de checagem como Aos Fatos desmentiram publicações nas redes sociais sobre o assunto.

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas