quinta-feira, setembro 30, 2021

O Brasil na imprensa alemã (29/09)




"Antes apreciado, o Brasil sob o governo do presidente Jair Bolsonaro adquiriu imagem de vilão", diz jornal

Mídia da Alemanha destaca efeitos do governo Bolsonaro sobre a imagem internacional do Brasil, início do processo de Brumadinho em Munique e a constatação que a Amazônia virou produtora de gases-estufa.

Frankfurter Allgemeine Zeitung – Brasil tem um problema de imagem (27/09)

O presidente Bolsonaro torna o país menos atraente para firmas estrangeiras. Ainda assim, a metrópole industrial São Paulo permanece sendo a mais importante locação no exterior para a Alemanha.

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As primeiras empresas alemãs vieram para o Brasil há mais de 100 anos. Em meio à Primeira Guerra Mundial, criaram-se as primeiras câmaras de comércio exterior da América Latina, também em São Paulo. Mais tarde, fabricantes de automóveis e de produtos químicos se estabeleceram na cidade. O mais tardar com o "milagre econômico brasileiro", nos anos 1970, a metrópole desenvolveu uma força de atração que trouxe ainda mais médias empresas da Alemanha para a região.

Como na época o Brasil era muito isolado, diversas companhias fundaram uma produção local, o que as ancorou ainda mais à economia brasileira. Também graças aos investimentos alemães, São Paulo se desenvolveu como sítio industrial completo, dotado de uma massa crítica. Todos se acostumaram às crises. E também ao fato de que elas passam depressa.

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E no entanto a imagem abalada do Brasil se tornou uma preocupação, justamente para as empresas alemãs sediadas lá. Antes apreciado, o Brasil sob o governo do presidente Jair Bolsonaro adquiriu imagem de vilão. A destruição da floresta tropical avança cada vez mais rápido, a pandemia foi negada por longo tempo. E agora Bolsonaro partiu da reserva política para ofensiva contra as instituições nacionais.

Muitos empresários preferem se calar, quando se trata do presidente. [Klaus] Hepp [diretor-gerente da firma Vulkan] é um que não tem papas na língua sobre o assunto: é do próprio Brasil, e não da mídia, a culpa pelo modo como é visto no exterior, diz. E Bolsonaro tudo faz para que a coisa ainda piore.

"Também na economia é preciso gente inteligente dar o bom exemplo, abrir a boca e fazer os idiotas pararem", opina Hepp. Uma grande irracionalidade faz parte do Brasil e da América Latina, ela vai voltar a se acalmar. O Brasil não pode ser reduzido a dois anos, "aqui a coisa vai seguir em frente".

No curto prazo, pouco mudará em relação à imagem, crê Thomas Timm, da Câmara de Comércio e Indústria Exterior da Alemanha (AHK). Ele vê também uma chance na atual situação: o mal poderá vir para o bem. "Justamente em se tratando de sustentabilidade, o Brasil tem tudo para assumir um papel de liderança."

O país seria, por exemplo, uma locação excelente para energias renováveis e o desenvolvimento do assim chamado "hidrogênio verde". Para as companhias alemãs de tecnologia, abre-se no Brasil um campo vasto no setor da energia sustentável, com potencial de futuro. Segundo Timm, a AHK de São Paulo e do Rio de Janeiro – mas também outras instituições, como a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) – trabalham para transformar o Brasil num parceiro estratégico para a realização das metas climáticas.

Nesse contexto, Timm descreve também como "um farol" o Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) São Paulo, uma de cinco instituições do gênero no mundo conectando faculdades e empresas que desenvolvem pesquisas, promovendo o intercâmbio científico e projetos de inovação nos diferentes países. Há gente competente no Brasil, também no Estado, afirma Timm, "nem tudo é política".

Der Spiegel – Bomba com certificado TÜV (25/09)

No começo de 2019, uma avalanche de lama matou quase 300 cidadãos. Agora começa em Munique o processo contra a certificadora alemã TÜV Süd, que pouco antes atestara que a barragem era suficientemente segura – por ganância?

Numa parede da sala de estar da família brasileira Barroso Câmara está pendurado um grande pôster branco-e-preto. Izabela, a jovem que lá se vê, enche o aposento com seu sorriso. "A foto que serviu de base a esse pôster estava por toda parte, depois do acidente", comenta Gustavo Barros, sentado num sofá de couro na sala de seus pais. As cortinas estão fechadas, um aparelho de ar refrigerado zumbe. Aí ele se corrige: "Depois do acidente, não. Depois do crime."

Em alguns dias, Barroso de 36 anos, vai colocar na mala seu melhor terno e voar de Governador Valadares até a Alemanha, onde o Tribunal Estadual de Munique se ocupará a partir de 28 de setembro da morte de sua irmã Izabela. A família exige indenização da TÜV Süd, pois a empresa alemã é corresponsável por a barragem de uma mina de ferro ter se rompido em janeiro de 2019 próximo à cidade de Brumadinho.

'Quase três anos depois, sofrimento das vítimas de Brumadinho segue repercutindo nos tribunais'

Na época, 11,7 milhões de metros cúbicos de lama tóxica se precipitaram pelo vale. A avalanche arrastou pelo menos 272 pessoas para a morte, enterrou casas, árvores, ruas, animais. Izabela, conta Barroso, foi surpreendida na cantina da mina, logo abaixo da barragem: ela falava ao telefone com o marido durante o almoço, quando a ligação foi cortada para sempre.

Foi a catástrofe ambiental mais fatal da história do Brasil. Embora a operadora da mina, a Vale, tenha invocado "força maior", Barroso acredita que os riscos eram conhecidos há muito. Meses antes do colapso, engenheiros da TÜV Süd certificaram a barragem como segura, mesmo tendo sérias dúvidas quanto a sua estabilidade.

Desde então, uma acusação paira no ar: os inspetores se deixaram comprar por uma das maiores companhias de mineração do mundo? Fizeram vista grossa para obter contratos lucrativos?

Essa é a suspeita que também Barroso acalenta. Diante do tribunal em Munique ele espera finalmente ser escutado, tem esperança de receber respostas que até agora o Judiciário brasileiro lhe tem negado, esperança de justiça, de algo que possa ajudá-lo a se conciliar com o fato.

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Gustavo Barroso está convencido da culpa de ambas as firmas: elas puderam agir assim por nada terem a temer da Justiça brasileira, diz. Mas também na Alemanha poderá passar muito tempo até um veredito.

Até agora, Barroso só está no processo em Munique como convidado, ele espera em breve ser também convocado como testemunha. Seu advogado crê que "como a TÜV se defende com tudo que se pode usar e investe recursos quase ilimitados na própria defesa, também na Alemanha esse processo vai levar um bom tempo".

Neues Deutschland – Desflorestamento aquece o clima (24/09)

Desmatamento e queimadas transformaram as florestas amazônicas de captadoras de dióxido de carbono em produtoras de CO2.

Não foi por falta de avisos: há décadas, pesquisadores brasileiros e internacionais apelam para que se suspenda o derrubamento das matas da Amazônia. A maior região de florestas tropicais do planeta, tão importante para o clima global, poderá perder sua função como armazenadora de CO2 e freio do aquecimento global.

Contudo, especialmente os sucessivos governos do Brasil – país responsável pela maior parte da Amazônia – se limitaram a promessas vãs e, apesar de duas conferências do meio ambiente no Rio de Janeiro, em 1992 e 2012, ignoraram o apelo de ecologistas e climatólogos. Agora, o pior temor deles parece ter se concretizado, a Amazônia chegou a um ponto de guinada: o aparentemente infinito reservatório de dióxido de carbono, que absorve as emissões dos países industriais, compensando o efeito estufa, é hoje um emissor de fato de dióxido de carbono.

Até agora, a ciência partia do princípio que a Amazônia absorvesse anualmente vários milhões de toneladas de CO2 da atmosfera, armazenando-a em forma de carbono em sua massa vegetal crescente. Ao que tudo indica, há pelo menos dez anos esse não é mais o caso. Pelo contrário: queimadas e derrubadas de árvores em massa transformaram a maior mata tropical numa produtora de gases-estufa, como demonstrou pela primeira vez uma análise publicada pela revista especializada Nature.

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Para [a principal autora do estudo, Luciana] Gatti, está acima de qualquer dúvida: a Amazônia é hoje uma fonte de CO2. Mas é possível reverter esse estado, explica a pesquisadora, só que seria necessária uma moratória de, no mínimo, cinco anos para abates e queimadas em toda a região amazônica, sobretudo na área sudoeste, que além disso precisaria ser reflorestada: "Num cenário assim, acredito numa possibilidade de retrocesso."

Entretanto os sinais do governo Jair Bolsonaro indicam exatamente o contrário: não estão à vista nem uma proibição do desmatamento, nem o fim dos incêndios. Segundo Antonio Donato Nobre, que há mais de 30 anos pesquisa na e sobre a Amazônia, conhecendo as consequências ecológicas como poucos outros cientistas, uma política de zero desmatamento no Brasil já era uma necessidade desde o fim dos anos 1990.

Embora atualmente a suspensão das derrubadas seja inevitável, ela não bastará para reverter a ameaçadora tendência climática, alertava Nobre já em 2017: "Além disso, até onde for possível, precisamos restaurar tudo o que foi modificado e destruído." E isso implica um recuo da utilização da terra em vastas áreas da Amazônia.

Deutsche Welle

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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