quarta-feira, setembro 29, 2021

Abismo da Prevent Senior se amplia com depoimento de advogada à CPI e ameaça tragar Governo Bolsonaro

 




Bruna Morato, advogada representante de médicos que trabalharam na Prevent Senior, durante seu depoimento na CPI da Pandemia nesta terça-feira, 28 de setembro, em Brasília.

Bruna Morato, representante de 12 médicos, afirma que havia um alinhamento da operadora de saúde com o ‘gabinete paralelo’ e o Ministério da Economia com o intuito de manter a economia girando

Por Felipe Betim

A advogada Bruna Morato, que diz representar 12 médicos que trabalham ou trabalharam na Prevent Senior, detalhou à CPI da Pandemia nesta terça-feira, 28 de setembro, o modus operandi da operadora de saúde na prescrição de medicamentos ineficazes contra a covid-19 para seus pacientes, que teriam sido cobaias de um experimento ilícito. Morato descreveu ainda o alinhamento da Prevent Senior com o Governo Jair Bolsonaro, mais concretamente com o Ministério da Economia, para promover a hidroxicloroquina e outros medicamentos do chamado kit-covid, ineficazes para combater a infecção pelo coronavírus. O objetivo era boicotar a quarentena e manter a economia girando. Também afirmou que os médicos que representa ficaram receosos de denunciar a Prevent Senior para os conselhos regional e federal de medicina, por causa da proximidade da operadora com as entidades. “O que estamos assistindo é um escândalo macabro com sinais tristes de eugenia, que revela o quão triste é essa página da historia brasileira”, definiu o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

A advogada relatou, sempre falando a partir da versão de seus clientes, que a Prevent Senior buscou, ainda no ano passado, se aproximar do Ministério da Saúde. Diante da resistência do então ministro Luiz Henrique Mandetta, a empresa buscou o chamado gabinete paralelo que assessorava o Governo. O grupo era composto por médicos negacionistas como o toxicologista Anthony Wong, o virologista Paolo Zanotto e a pesquisadora Nise Yamaguchi. De acordo com Morato, esse gabinete estava alinhado a interesses do Ministério da Economia, para que a pandemia não prejudicasse a economia. A intenção, explicou ela, era “conceder esperança para que as pessoas saíssem às ruas sem medo, e essa esperança tinha um nome: hidroxicloroquina”.

Morato afirmou, contudo, que em nenhum momento ouviu “falar da pessoa do ministro da Economia [Paulo Guedes], o que eles falavam era de um alinhamento ideológico”. Em momento posterior, disse ainda que não tinha informações sobre conversas ou a participação de membros do Ministério da Economia no gabinete paralelo. A pasta não se pronunciou oficialmente sobre o caso até o fechamento desta edição, mas fontes afirmam que não há registro de encontros de membros do alto escalão com autoridades da Prevent Senior.

Morato foi convocada dias depois de os senadores ouvirem, na última quinta-feira, o diretor-executivo da operadora de saúde, Pedro Benedito Batista Júnior. No centro da discussão está um dossiê que aponta irregularidades no tratamento de pacientes com covid-19. O documento mostra como a operadora, voltada para idosos, testou em seus hospitais o chamado kit-covid —composto por hidroxicloroquina e ivermectina, entre outros medicamentos ineficazes contra a covid-19— em pacientes infectados sem o aval dessas pessoas ou da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Além disso, a seguradora também teria ocultado mortes pela doença, como forma de apresentar as melhores estatísticas de recuperação.

De acordo com Morato, os médicos da Prevent Senior estavam submetidos ao lema “lealdade de obediência” da empresa. Recebiam um pacote lacrado com medicamentos do kit-covid e uma receita já pronta que deveria ser entregue a pacientes que apresentassem sintomas gripais. “Não existia autonomia com relação à retirada de itens desse kit. Quando o médico riscasse algum item da receita, o paciente ainda assim recebia o kit completo”, relatou à CPI. Ela disse que os plantonistas davam o pacote aos pacientes dizendo que, caso não entregassem, poderiam ser demitidos. Também pediam informalmente que se tomassem algo do kit, que escolhessem somente proteínas e vitaminas. Os demais, além de ineficazes, poderiam ser perigosos para idosos.

Caso não prescrevessem, os médicos sofriam constrangimentos públicos e acabavam demitidos. Questionada por senadores sobre por que os profissionais de saúde que representa não denunciaram a Prevent Senior ao Conselho Federal de Medicina (CFM) e ao Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), a advogada afirmou que as entidades não aceitam denúncias anônimas. Também citou uma suposta proximidade da operadora de saúde com esses organismos. Ao longo da pandemia, a CFM mostrou um alinhamento ideológico ao Governo Bolsonaro e, sob a justifica de defender a autonomia do médico, não colocou freios à prescrição de cloroquina contra a covid-19. Os senadores acabaram aprovando, então, um requerimento pra investigar com urgência os conselhos, assim como a Agência Nacional de Saúde Suplementar —que regulamenta o setor de seguros privados de saúde.

O tratamento precoce com kit-covid foi adotado também como forma de reduzir custos, acrescentou Morato, “uma vez que é mais barato disponibilizar medicamentos do que realizar internação em UTI”, explicou durante a sessão. Assim, pacientes chegavam a receber o kit em casa antes de qualquer tipo de exame ou internação. Era uma estratégia de reduzir custos, reafirmou ela, diante de senadores estarrecidos. Além disso, pacientes não sabiam que estavam assinando termos de consentimento para fazer parte de um experimento com medicamentos. De acordo com ela, os clientes deveriam assinar termos genéricos, no hospital ou por SMS, com a justificativa de que era necessário para a retirada dos medicamentos.

Antes de apresentar o dossiê à CPI, a advogada diz que procurou o setor jurídico da Prevent Senior para buscar um acordo. Os médicos pediram três atitudes para a empresa: que assumisse publicamente que o estudo com o kit-covid não foi conclusivo; que a operadora admitisse que havia um protocolo institucional de tratar com o kit-covid, já que os médicos não tinham autonomia; e, em terceiro, que a empresa assumisse suas responsabilidades diante de quaisquer ações judiciais por parte de pacientes que foram tratados.

Em julho deste ano, a Prevent Senior contava com 542.471 clientes, um aumento de quase 12% em relação a agosto do ano passado. Cerca de 4.000 pacientes internados na rede de hospitais da operadora morreram com covid-19 ao longo da pandemia, ou 22% dos 18.000 usuários que chegaram a ser hospitalizados por conta da doença nas unidades administradas pela empresa. No início da pandemia, a Prevent Senior chegou a acumular 30% das mortes por covid-19 no Brasil, concentrando muita atenção negativa naquele momento. A tentativa de reação desencadeada naqueles dias acabou devolveu a empresa aos olhos da população brasileira, e de uma forma ainda mais comprometedora. 

El País

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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