segunda-feira, junho 28, 2021

Encurralado por si mesmo e pelos seus atos, só resta a Bolsonaro a renúncia

Publicado em 28 de junho de 2021 por Tribuna da Internet

Situação de Bolsonaro torna-se a cada dia mais insustentável

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro encontra-se encurralado e sufocado principalmente por seus próprios atos, pelo seu descontrole e pela sua falta de visão para governar o país, conforme ficou nítido na última semana. Resta somente a ele no plano legal a renúncia como desfecho lógico da atual crise, tão política quanto moral, e que envolve infelizmente o panorama brasileiro.

A edição do Jornal Nacional da TV Globo na noite de sábado deixou claro essa solução como a mais provável e menos impactante do que qualquer outra. A edição do JN foi longa e apresentou a fase até então inédita dos trabalhos da CPI na noite de sexta-feira. A sessão terminou tarde e, com base nisso, o noticiário acrescentou ao quadro com a citação do nome do deputado Ricardo Barros como o articulador principal do propósito de aquisição das vacinas Covaxin da Índia.

COMPROMETIMENTO – A senadora Simone Tebet cobrou intensamente a convocação do parlamentar, já que também o deputado Luis Miranda, depois de vacilar em citar o líder do governo, terminou admitindo o comprometimento do parlamentar que praticamente apoiou os governos FHC, Lula, Dilma Rousseff , Michel Temer e, depois das urnas de 2018, embarcou na viagem bolsonarista.

Natália Portinari e Leandro Prazeres, O Globo deste domingo, colocam em destaque a presença de Ricardo Barros
na questão da vacina e acrescentam o fato de o atual governo possuir a múltipla presença do Centrão, e que tem Barros como seu integrante, controlando cargos relativos ao aparente combate à Covid-19.

Destacam ainda o rastro desastroso de mais de 500 mil mortes e uma contaminação diária na média de 60 mil pessoas, o que demonstra que o ministro Marcelo Queiroga não conseguiu conter o ciclo da pandemia que está conduzindo o país para um número gigantesco de novos casos a cada 24 horas.

SAÍDA LEGAL – Mas falei em saída legal para que se fechem as cortinas de mais um período profundamente crítico da história do Brasil. Dificilmente qualquer pedido de impeachment deverá ter curso já que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, ao que tudo indica, não vai retirá-los da gaveta ou da memória dos computadores de Brasília e do Congresso. O fato, na minha opinião, é que a situação de Bolsonaro é insustentável, mesmo analisando-se a atmosfera a curto prazo.

Essa atmosfera torna-se cada vez mais densa, isolando o presidente da República da opinião pública e, portanto, da própria população e do eleitorado. Claro que Jair Bolsonaro não pensa em renunciar, pelo contrário. Sentindo-se batido nas urnas por Lula como o Ipec revelou e interiormente constatando o seu fracasso, registra uma decepção dos eleitores que o levaram a uma vitória em 2018. Sua faixa de apoio está restrita a pouco mais de 20% da opinião pública. Menos da metade do total de votos que alcançou quando derrotou Fernando Haddad por 57% a 43%.

Os eventos da política estão soprando fortemente na Esplanada de Brasília e segundo reportagem de Bela Megale, Jussara Soares e Dimitrius Dantas, no O Globo, 11 partidos resolveram se unir contra a ideia de Bolsonaro de substituir o voto eletrônico pelo retorno ao voto impresso. Um estratagema que Bolsonaro antecipou no caso de derrota para Lula alegar que o desfecho seria fraudulento. O presidente chegou a afirmar em relação à vitória de Joe Biden que Donald Trump havia perdido por uma fraude.

CONTRADIÇÃO – Neste ponto, há uma contradição. As eleições americanas desenrolam-se pelo voto impresso. Isso de um lado. De outro, o Tribunal Superior Eleitoral dirigiu-se a ele pedindo provas da fraude que ele afirma ter ocorrido em 2018.

Falei na renúncia como a única saída viável para o governo e para o país dentro da Constituição e da lei. Bolsonaro, entretanto, sentindo-se sem espaço, vai apelar para que um golpe possa mantê-lo no poder. Inclusive no editorial de ontem do O Globo, chama-se a atenção para tal impulso em um texto em que se refere ao Exército e às Forças Armadas. Não acredito que o Exército lhe dê cobertura e decida por um caminho golpista.

Mas o artigo faz um alerta importante. Nuvens produzem sombras e quase toda a nação está empenhada para que um horizonte possa voltar a ser contemplado com nitidez.


Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas