segunda-feira, dezembro 31, 2018

Indústria de alimentos teme prejuízo com nova rotulagem que indica alertas

Domingo, 30 de Dezembro de 2018 - 15:20


por Filipe Oliveira | Folhapress
Indústria de alimentos teme prejuízo com nova rotulagem que indica alertas
Foto: Reprodução
A indústria de alimentos teme que novas regras para a disposição de informações nutricionais em análise pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) tragam prejuízos ao setor.

Em relatório preliminar de maio, a agência indicou preferência por um modelo a partir do uso de alertas na parte da frente dos rótulos dos alimentos que contenham sódio, açúcar ou gorduras em excesso, de modo análogo ao aviso sobre riscos usado em cigarros.

Segundo a agência, esse tipo de informação foi o que apresentou melhor captura de atenção e compreensão nos estudos analisados por ela.

O modelo apresentou bons resultados para auxiliar consumidores a identificar itens que costumam ser vistos como saudáveis, mas que possuem versões com alto teor de nutrientes negativos.

Inspirado em regulamentação adotada no Chile em 2016, esse modelo é defendido no Brasil pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, articulada pelo Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) com associações de nutricionistas e ONGs.

João Dornellas, presidente-executivo da Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentação), diz concordar que, do modo como as informações são dispostas hoje, em uma lista com a quantidade de cada nutriente do produto em letras miúdas, elas só são entendidas por uma parcela pequena da população.

Por outro lado, afirma que as advertências propostas não oferecem a melhor informação possível e criam mais alarme do que o necessário.

"Se você coloca um alarme, vai causar pânico. Se estiver escrito que um produto tem teor alto de sódio, provavelmente não compra."

A associação defende que sejam aplicados em todos os alimentos semáforos que indicam a quantidade de açúcar, gordura e sal e que podem estar nas cores verde (quantidade baixa), amarelo (média) e vermelho (alta).

Além deles, Dornellas propõe que seja disponibilizada a informação de qual o percentual da quantia diária do nutriente que deve ser consumida presente em uma porção do alimento.

"Se, em vez de um alerta para não consumir, por ter muito sódio, recebo a informação de que a porção do alimento tem 16% da quantidade que posso consumir no dia, já posso fazer uma proposta de alimentação incluindo ele de acordo com meu estilo de vida", diz.

Ana Paula Bortoletto, nutricionista e líder do programa de Alimentação do Idec, diz que, assim como a indústria já ressalta características positivas de produtos (com informações do tipo zero açúcar, integral ou fit), é importante que o consumidor seja alertado claramente sobre características negativas de alimentos.

Segundo ela, os alertas são melhores que os três semáforos porque, em sua avaliação, quando há informações positivas e negativas na mesma embalagem (um semáforo vermelho ao lado de dois verdes, por exemplo), a escolha entre consumir ou não fica mais difícil.

"Quando comparamos o nível de entendimento do consumidor sobre a informação, a advertência aumenta o percentual de respostas corretas sobre o que contém o alimento."

Citando o exemplo chileno, Bortoletto afirma que, mesmo que a venda de alguns produtos caia, a indústria é capaz de se adaptar e lançar alternativas mais saudáveis para compensar essa perda.

Resultados preliminares de estudo da Universidade do Chile, em parceria com a Universidade Diego Portales e a Universidade da Carolina do Norte (EUA), apontaram queda de 25% no consumo de bebidas açucaradas e 14% na compra de cereais matinais em período de 6 a 10 meses após a nova regulamentação.

Por outro lado, o consumo de chocolates e bolachas se manteve estável. Houve redução no uso de sódio e açúcar em alimentos industrializados consumidos no país. Em derivados de leites e cereais matinais, a redução de açúcar chegou a 35% e em queijos e embutidos o sódio caiu até 10%.

Segundo a pesquisa, 90% dos adolescentes e das mães de crianças afirmam valorizar e entender as advertências. Outro debate trata do critério para analisar se o alimento traz muito ou pouco do nutriente que deve ser consumido com moderação.

A Abia propõe que, para cada tipo de alimento, seja considerada uma porção diferente, dependendo da quantidade usualmente consumida.

Já o Idec leva em conta a quantidade de cada nutriente na composição calórica do alimento, enquanto a Abran (Associação Brasileira de Nutrologia), que apresentou uma proposta alternativa baseada em escala de cores dependendo da qualidade nutricional do produto, prefere que seja analisada a presença do nutriente a cada 100 gramas.

"Você compra um tablete de manteiga e são 200 gramas. Ninguém come um pão com 100 gramas de manteiga. A porção próxima do consumo seriam 10 gramas. Se o consumidor tiver a informação sobre quantidade de sódio em 100 gramas, terá de fazer contas", diz Ornellas.

Em oposição, o médico Durval Ribas Filho, presidente da Abran, afirma que o uso da medida de 100 gramas dá objetividade à avaliação dos alimentos.

"O que é uma porção de nozes? É um punhadinho? Usar 100 gramas é uma maneira de avaliar cientificamente", diz.

Antonio Bernardo, presidente para o Brasil da consultoria Roland Berger, que produziu relatório sobre o debate da rotulagem dos alimentos, diz acreditar que o semáforo proposto pela indústria é o modelo de mais fácil compreensão e, por isso, adequado ao Brasil.

A consultoria afirma que, no Chile, os alertas levaram a redução de vendas no primeiros cinco meses de sua implantação. Porém o relatório afirma não ser possível saber se a queda foi causada por maior conscientização da população ou pela restrição da venda desses produtos em determinados locais, especialmente escolas.

Em sua avaliação, para o controle da obesidade e de doenças relacionadas a ela, a disponibilização de mais informações é apenas uma parte da solução.

Outras medidas que poderiam ser adotadas são o incentivo ao uso de embalagens menores no caso de produtos que devem ser consumidos com moderação e a criação de grupos de trabalho envolvendo indústria, governo e consumidores para o incentivo a ações educacionais e ao desenvolvimento de alimentos mais saudáveis.

É esperado que a Anvisa avalie as contribuições recebidas e submeta uma proposta de regulamentação para consulta pública no início de 2019.

No Brasil, a proporção de homens com excesso de peso passou de 18,5% em 1974 para 57,3% em 2013. Nas mulheres, foi de 28,7% para 59,8% no mesmo período.
Bahia Notícias

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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