domingo, outubro 28, 2018

Joice Hasselmann, WhatsApp e a eleição onde o crime compensa

71% do eleitorado foi alcançado por boato contra a imprensa estimulado por deputada eleita, segundo pesquisa do Atlas Político. Ninguém pode lavar as mãos ante o "apocalipse de informações"



Apoiadores de Bolsonaro.
Apoiadores de Bolsonaro.  AP
Não há nenhuma surpresa no uso de desinformação em massa como arma política nas eleições brasileiras. É um esperado novo capítulo de um problema global, para a qual as negligentes autoridades brasileiras definitivamente não se prepararam. A situação ganhou proporções que a comissão da OEA (Organização dos Estados Americanos) que monitora as eleições já considera alarmantes, mas só agora começamos a ter algumas réguas para medir seu alcance. Uma pesquisa da consultoria Atlas Político resolveu ir além da simples pergunta se o eleitor usa ou não as redes sociais e aplicativos –ou se admite acreditar no que recebe por meio delas– para tentar rastrear o impacto de mensagens distorcidas, sem comprovação ou claramente mentirosas e injuriosas nesta campanha.
Há quantas pessoas chegou, por exemplo, o boato estimulado pela deputada eleita do PSL de São Paulo, Joice Hasselmann, de que uma "grande revista" havia recebido 600 milhões de reais para falar mal de Jair Bolsonaro? Segundo o monitoramento do Atlas, onde os entrevistados são recrutados aleatoriamente na Internet e a amostra é rebalanceada para ter representatividade nacional, 71% dos eleitores dizem ter conhecimento da "informação", que não tem qualquer base ou fundamento a não ser fazer parte da guerra política. Perguntados se acreditam que órgão de imprensa, como a Veja ou Folha de S.Paulo, receberam milhões para apoiar o PT, 35% disseram que acreditavam na afirmação, 36%, que não acreditavam, enquanto 13% afirmaram nunca ter ouvido falar nisso contra 17% que não souberam ou não quiseram responder. São números eloquentes.
Hasselmann, ex-jornalista da revista Veja, não apresentou nenhuma evidência ou prova quando gravou o depoimento sobre o "acordo" de apoio ao PT, que foi transmitido tanto no Facebook como no YouTube, ambos com milhões de seguidores. Usou tão somente sua reputação de jornalista, por um ano da própria revista, para falar a seus seguidores e a seus mais de dois milhões de eleitores. Não que não haja apurações off de record, mas uma acusação tão grave e ao mesmo tempo tão oportuna levanta profundas suspeitas. Com ela, a então candidata fez funcionar a bem azeitada máquina de campanha de Bolsonaro. Na semana em que Hasselmann fez a acusação, o repórter do EL PAÍS, Afonso Benites, monitorava grupos de apoio ao candidato de extrema direita. Ele capturou como a postagem da então candidata se espalhava velozmente no WhatsApp e como, imediatamente, foi usada como vacina quando a Veja publicou documentos do processo de divórcio de Bolsonaro com duras acusações da ex-mulher, entre elas, a de que ocultava patrimônio.
O Atlas Político perguntou ainda se os eleitores acreditavam na distribuição, pelos Governo do PT, do chamado "kit gay", nome pejorativo dado por Bolsonaro a um material anti-homofobia que jamais chegou a circular, muito menos para crianças de seis anos, como disse o candidato. Nada menos que 36% das pessoas disseram crer na informação mentirosa, que o TSE obrigaria Bolsonaro a tirar das redes poucos dias atrás, contra 45% que disseram que não –apenas 4% disseram não ter tomado conhecimento do tema. Num caso ainda mais absurdo, nada menos que 15% das pessoas disseram acreditar que Fernando Haddad defendeu o fim do tabu do incesto em livro, algo publicado pelo filósofo de extrema direita Olavo de Carvalho em suas redes (30% disseram não acreditar, 34% não tinham ouvido falar e 21% não souberam ou não quiseram responder).
Sempre vai haver a ponderação de que determinadas pessoas estão propensas a dizer sim a qualquer dessas afirmações simplesmente porque não gostam dos nomes mencionados. Também é óbvio que teorias conspiratórias e bizarrices sobre pessoas públicas sempre tiveram tração, mesmo antes da Internet. Agora, além de deixar rastro, há velocidade. Um exemplo foi a onda de desconfiança de que o atentado contra Bolsonaro tenha sido real. Já é danoso o suficiente pensar que caminhamos para um cenário de "apocalipse da informação", onde cada um acredita no que quer e recebe informações e propaganda política customizadas. Há, no entanto, uma camada a mais quando vemos claramente uma campanha coordenada e deliberada de atores políticos como Hasselmann e Olavo de Carvalho, com enorme poder de difusão nas mãos, para produzir objetivos específicos. Os limites entre o que é falso, distorcido e o que é opinião sempre estiveram em debate e estão mais ainda. Mas, o que fazer, então? Simplesmente lavar as mãos e ignorar os imensos incentivos para praticar desinformação?
Não há de se desconsiderar o talento para redes de Bolsonaro e sua equipe –entenderam como ninguém como produzir proximidade a partir da precariedade e até a escatologia para forjar o nome do PSL como um genuíno fenômeno popular. Mas cabe perguntar se a campanha do capitão reformado do Exército teria alcançado tanto apelo orgânico sem esse tipo de jogada. Causa desconcerto que uma Justiça eleitoral e um sistema tão restritivo, que cronometra tempo de propaganda na TV, tenha aprovado no apagar das luzes uma regulação para redes sociais. Mais: tenha liberado disparos em massa no WhatsApp, esperando que os atores políticos iam se conter a dados apenas eleitores cadastrados num ambiente em que circulam bases de dados ilegais. Parece no mínimo inconsequente.
Esse é um assunto que vai render por muito tempo e será aprofundado em todas suas dimensões de análise, independentemente do resultados de domingo, aqui e no exterior. Não causa nenhum conforto saber que há uma variável decisiva e que, para nosso azar, não vai desaparecer tão cedo: boa parte da problemática gira em torno de mendigar informações e clareza do Facebook. O gigante global, que controla dados e monitora emoções de milhões de brasileiros em sua plataforma principal, também é dono do WhatsApp. A companhia de Mark Zuckerberg reage a escândalos revelados por reportagens jornalísticas sobre abuso em suas plataformas no mundo repetindo frases protocolares e, no máximo, pedindo desculpas. Outra reação comum é tomar medidas discricionárias, ou que parecem discricionárias, porque nunca se tem como avaliar de maneira precisa seus critérios e seu alcance.  Numa situação tão complexa e com tantas implicações democráticas, é assustador ver que, para vamos discutir todas as soluções possíveis, desde que não afete seu modelo de negócios praticamente monopólico.
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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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