domingo, dezembro 03, 2006

Dia do Samba é celebrado com missa e shows em Salvador

Por: Ana Carolina Araújo e Jony Torres

Mais de 20 atrações se apresentam no palco montado no Terreiro de Jesus

Ana Carolina Araújo e Jony Torres
“Osamba é um feitio de oração”, dizia Noel Rosa. Seguindo à risca os ensinamentos do mestres, o Clube do Samba da Bahia (CSB), a Unesamba, a Lira Imperial e a Associação do Samba de Roda promoveram a segunda edição da Missa do Samba, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho. A celebração seguiu o rito romano, mas ganhou toques especiais da cultura negra, como os cantos em ritmo de samba e os instrumentos de percussão. A roda de samba que começou no Largo do Pelourinho seguiu animada para a Praça do Reggae, onde sambistas baianos fizeram a festa até o início da noite.


À noite, as orações foram trocadas pelo som das cuícas, tamborins e pandeiros, no show organizado no Terreiro de Jesus. A praça ficou lotada de gente boa da cabeça e de pés agéis, para comemorar mais um Dia do Samba. No palco, em homenagem ao genuíno ritmo brasileiro, passaram quase 20 atrações como os bambas baianos Edil Pacheco, Walmir Lima e Nelson Rufino, além dos convidados Jair Rodrigues, Nilze Carvalho e Antônio Carlos e Jocafi.


A festa já se consolidou como um marco na luta dos sambistas pelo reconhecimento do espaço que o ritmo merece na cultura musical brasileira e baiana. Criada há 35 anos, sempre que é realizada atrai um grande número de pessoas. Edil Pacheco participa da comemoração desde 1972 e é hoje um dos principais organizadores. “Não é só uma festa do samba, mas de toda a Bahia pois ela já caiu nas graças do povo e virou tradição”, comentou o sambista.


A celebração do Dia do Samba começou às 10h e os primeiros toques de percussão acabaram atraindo quem não tinha saído de casa para ir à missa. Apesar de poucos ativistas do ritmo que nasceu na Bahia terem comparecido, os visitantes se encarregaram de ocupar o resto dos banhos da igreja. Um grupo de turistas cariocas que veio a Salvador pela primeira vez se surpreendeu com a festa pitoresca. “Na Bahia é tudo com festa mesmo, até a missa”, disse um deles.


Nos bancos da Igreja do Rosário, a fé e contrição de alguns se misturavam à incontrolável vontade de dançar ao som do samba tradicional que costurou todos os momentos da liturgia. O celebrante, padre Ernest Joseph Mchota, que veio de Malaui há dois anos para trabalhar na Pastoral Afro, lembrou que no Brasil a liturgia ainda é muito romanizada, e momentos onde a fé cristã se une às tradições locais ajudam na criação de uma igreja mais próxima da realidade do povo. “Na África já temos celebrações bastante aculturadas, mas no Brasil isso ainda precisa crescer.”


Preservação - A Missa do Samba foi criada como expressão de fé, mas também homenagem aos negros que criaram o samba brasileiro e construíram a Igreja do Rosário dos Pretos. À frente das comemorações, o presidente do CSB, Wilson Santos, entende a presença dos movimentos pela preservação do samba dentro das igrejas, interagindo com elas, é uma prova importante da consolidação do ritmo como manifestação cultural unânime no país. Santos fez ainda questão de reforçar a importância do diálogo inter-religioso. “Cada um que está aqui tem a sua fé, e muitos são do culto afro, mas escolhemos esse espaço porque a Igreja Católica acolhe todas as pessoas, independentemente de religião”, explica ele.


Convidado mais ilustre da Missa do Samba, o historiador e conhecido amante do samba, Jaime Sodré fez questão der usar a palavra para elogiar a iniciativa da missa. “Geralmente as nossas comemorações acontecem no espaço externo das igrejas, mas aqui a alegria foi acolhida e pudemos fazer uma prece em ritmo de samba. O sambista não só batuca, mas também reza e batalha para que o samba não morra”, analisou.


Fonte: Correio da Bahia

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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