segunda-feira, julho 13, 2026

OS MILAGRES DAS ELEIÇÕES: QUANDO A FESTA TENTA ESCONDER A REALIDADE

 


OS MILAGRES DAS ELEIÇÕES: QUANDO A FESTA TENTA ESCONDER A REALIDADE



Por José Montalvão



Há fatos que o tempo e o vento parecem levar. Entretanto, a memória coletiva deve preservá-los, não por espírito de vingança, mas para que sirvam de alerta ao povo. Uma sociedade que esquece os erros do passado está condenada a repeti-los.

Na Bahia, em tempos eleitorais, é comum ouvirmos discursos de que tudo está às mil maravilhas. Entretanto, basta acompanhar reportagens da imprensa, ouvir a população e observar a realidade das ruas para perceber que, muitas vezes, o cenário apresentado pela propaganda oficial está distante do cotidiano vivido pelos cidadãos.

Guardadas as devidas proporções, o debate que hoje envolve a administração da capital baiana lembra episódios vividos por Jeremoabo. Naquela época, a gestão do então prefeito Derisvaldo José dos Santos, o Deri do Paloma, foi alvo de inúmeras críticas após a contratação do cantor Wesley Safadão por um valor considerado exorbitante para os festejos juninos. Enquanto a festa acontecia, multiplicavam-se as reclamações sobre a falta de medicamentos básicos, como dipirona, postos de saúde desabastecidos, escolas necessitando de manutenção, ruas esburacadas e lixo espalhado pela cidade.

Agora, segundo informações amplamente divulgadas, a Prefeitura de Salvador pretende investir cerca de R$ 2,5 milhões na contratação do cantor Roberto Carlos para as festividades de fim de ano. Não se discute aqui a importância artística do cantor nem o valor cultural de grandes eventos. A verdadeira discussão é sobre prioridades.

A pergunta que todo cidadão tem o direito de fazer é simples: quando ainda existem problemas relevantes na saúde, na educação, na infraestrutura e na limpeza urbana, seria este o momento adequado para um investimento dessa magnitude em um único espetáculo?

Em Jeremoabo, as festas eram justificadas como promoção da economia e do turismo, enquanto a população cobrava soluções para problemas básicos. Segundo denúncias e críticas veiculadas à época, chegou-se até a decretar estado de emergência, posteriormente revogado, em meio às discussões sobre prioridades administrativas. Hoje, muitos dos que criticavam aquela situação parecem relativizar casos semelhantes quando ocorrem em administrações politicamente alinhadas às suas preferências.

Essa é uma das maiores contradições da política brasileira. Quando o gestor pertence ao grupo político de nossa simpatia, os problemas são minimizados; quando pertence ao grupo adversário, qualquer falha torna-se motivo de indignação. A coerência, infelizmente, costuma ser a primeira vítima das disputas eleitorais.

O eleitor precisa compreender que dinheiro público não possui ideologia. Cada real gasto em festas deixa de estar disponível para outras necessidades que podem ser mais urgentes. Isso não significa defender o fim dos eventos culturais, que geram emprego, renda e movimentam a economia. Significa apenas reconhecer que uma administração pública deve estabelecer prioridades compatíveis com a realidade da população.

No final das contas, permanece uma velha máxima da política: em ano de eleição, até a raspadura vira suco. A propaganda transforma dificuldades em conquistas extraordinárias, problemas em pequenos detalhes e promessas em soluções milagrosas.

Mas o cidadão consciente sabe que a realidade não se mede pelos palcos iluminados, pelos fogos de artifício ou pelos discursos oficiais. Mede-se pela qualidade da saúde, da educação, da segurança, da infraestrutura e dos serviços públicos oferecidos durante os 365 dias do ano.

Porque, encerrada a festa, as luzes se apagam, os artistas vão embora e quem permanece convivendo com os problemas é o próprio povo.

José Montalvão

Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).

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