segunda-feira, março 16, 2026

Ataques a Flávio Bolsonaro seriam um erro estratégico na campanha de Lula


Pedro do Coutto

Nos bastidores de Brasília, cresce a pressão de setores do entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que ele altere sua estratégia política e passe a adotar uma postura mais agressiva contra o senador Flávio Bolsonaro. A sugestão de alguns assessores e aliados é que o presidente abandone a linha centrada na divulgação de pautas positivas do governo e parta para o ataque direto contra a oposição, sobretudo diante de pesquisas eleitorais recentes que indicam maior competitividade do cenário político. No entanto, essa leitura pode estar equivocada e ignorar um princípio clássico da política: quem governa não deve agir como quem está na oposição.

Um presidente da República em exercício ocupa uma posição institucional completamente diferente da de seus adversários. Enquanto candidatos oposicionistas dependem do confronto e da crítica permanente para ganhar visibilidade e mobilizar suas bases, quem está no poder precisa transmitir estabilidade, confiança e capacidade de gestão.

RISCO – Quando um governante parte para o ataque com intensidade excessiva, corre o risco de passar a impressão de fragilidade política, como se estivesse reagindo de forma ansiosa a dificuldades momentâneas ou ao impacto de pesquisas desfavoráveis. Em termos estratégicos, esse movimento pode acabar fortalecendo justamente o adversário que se pretende enfraquecer, pois o coloca no centro do debate político nacional.

No caso de Lula, essa dinâmica é ainda mais sensível. Trata-se de um líder político com décadas de experiência e com uma trajetória que sempre se apoiou na imagem de liderança forte, capacidade de articulação e diálogo com diferentes setores da sociedade. Adotar uma postura reativa ou demonstrar preocupação excessiva com oscilações de pesquisas poderia transmitir ao eleitorado a sensação de que o governo se sente pressionado ou inseguro. Na política, a percepção de controle do cenário costuma ser tão importante quanto os próprios resultados eleitorais.

Além disso, o governo possui instrumentos políticos e administrativos que nenhum candidato de oposição tem. A chamada “máquina do governo”, longe de ser apenas uma expressão retórica, representa a capacidade concreta de implementar políticas públicas, apresentar resultados e dialogar diretamente com a população por meio de programas que impactam a vida cotidiana dos cidadãos. Nesse contexto, partir para o confronto direto pode significar desperdiçar uma vantagem estratégica importante.

TEMAS CENTRAIS – Há, inclusive, temas centrais que podem fortalecer a posição do governo no debate eleitoral sem necessidade de ataques. A discussão sobre mudanças no Imposto de Renda, especialmente a ampliação da faixa de isenção para trabalhadores de renda mais baixa, tem forte apelo social e pode dialogar diretamente com milhões de brasileiros. Da mesma forma, o fortalecimento de programas sociais como o Bolsa Família continua sendo uma das marcas mais reconhecidas das administrações petistas e possui impacto direto na vida de famílias em situação de vulnerabilidade. Políticas dessa natureza criam vínculos concretos com o eleitorado, algo que discursos agressivos dificilmente conseguem produzir.

Outro ponto relevante é que o cenário político brasileiro permanece profundamente marcado pela polarização que ganhou força com a ascensão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para setores da oposição, o ambiente de confronto permanente é extremamente favorável, pois mobiliza emocionalmente suas bases e mantém o debate público em torno de disputas ideológicas intensas. Ao entrar nesse terreno de forma deliberada, o governo pode acabar reforçando a lógica de polarização que beneficia seus adversários.

Historicamente, presidentes que buscam a reeleição ou a continuidade de seu projeto político tendem a ter melhores resultados quando conseguem transformar o debate eleitoral em uma comparação entre governos e propostas concretas. Quando a campanha gira em torno de indicadores econômicos, programas sociais, investimentos e melhorias percebidas pela população, o governante geralmente parte de uma posição mais confortável. Já quando o debate se transforma em uma sequência interminável de ataques e respostas, a disputa tende a se nivelar entre governo e oposição.

REFLEXO – Por isso, a pressão para que Lula adote uma estratégia de confronto direto contra Flávio Bolsonaro pode representar mais um reflexo da ansiedade típica dos bastidores políticos do que uma leitura estratégica consistente. Em vez de reagir às pesquisas com nervosismo ou elevar o tom contra adversários, o caminho mais sólido pode ser justamente o oposto: reforçar a agenda de governo, comunicar resultados e demonstrar tranquilidade diante do cenário político.

Na política, muitas vezes vence quem consegue transmitir a sensação de que controla o tabuleiro. Um presidente que demonstra serenidade, apresenta políticas públicas com impacto real e evita cair em provocações tende a ocupar uma posição mais forte diante do eleitorado. Em última análise, o eleitor costuma confiar mais em quem governa com segurança do que em quem parece disputar cada movimento como se estivesse na oposição.

Em destaque

PF investiga entrada de malas em voo com Hugo Motta e Ciro Nogueira em avião de empresário de bets

  PF investiga entrada de malas em voo com Hugo Motta e Ciro Nogueira em avião de empresário de bets Por  Isadora Albernaz e Lucas Marchesin...

Mais visitadas