
Trump transforma o racismo em método político
Marcelo Copelli
Revista Fórum
Há limites que não existem por convenção, mas por civilização. Eles não estão inscritos em códigos formais nem dependem de consensos passageiros. São fronteiras éticas essenciais, construídas ao longo de lutas históricas, justamente para impedir que a política volte a ser um terreno onde a negação da dignidade humana se converta em método legítimo de ação.
Quando o presidente dos Estados Unidos decide ultrapassar conscientemente esse limiar, não se trata de provocação nem de excesso retórico. Trata-se de uma decisão política deliberada, com consequências profundas para o tecido social e para a própria ideia de democracia.
COMPARTILHAMENTO – Na última quinta-feira, dia 5, Donald Trump compartilhou em sua plataforma de mídia social um vídeo que contém uma representação gravemente ofensiva de Barack e Michelle Obama. O material associa suas imagens a símbolos historicamente utilizados para reduzir pessoas negras à condição de sub-humanidade, acionando um repertório visual amplamente reconhecido por sua carga racista. A publicação, inserida em um conteúdo de teor conspiratório difundido pelo próprio Trump, gerou reação imediata e ampla, dentro e fora dos Estados Unidos.
O gesto ganha ainda mais gravidade quando considerado o contexto de um país marcado por uma longa história de escravidão, segregação racial e desigualdades estruturais persistentes. Ao recorrer a símbolos que evocam essa tradição de exclusão, Trump não apenas ataca indivíduos específicos: ele reativa memórias coletivas de violência simbólica e contribui para a normalização de uma retórica que degrada e hierarquiza. O problema não está apenas na ofensa, mas no que ela autoriza.
A reação pública não tardou. Lideranças políticas, organizações de direitos civis e setores amplos da sociedade classificaram o episódio como racista e inaceitável. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, definiu a publicação como “repulsiva” e cobrou uma condenação inequívoca por parte de representantes eleitos de todas as correntes. O incômodo generalizado revela que ainda existem limites morais que resistem à banalização do intolerável — embora cada vez mais pressionados.
DEGRADAÇÃO MORAL – A democracia pressupõe, mesmo em cenários de confronto ideológico intenso, o reconhecimento da humanidade do adversário. Quando esse princípio é abandonado, o debate público deixa de ser uma arena de ideias e passa a operar segundo a lógica da degradação moral. O alvo deixa de ser um projeto político e passa a ser a própria condição humana do outro. Nesse ponto, o discurso deixa de ser opinião para se tornar agressão simbólica.
A situação se torna ainda mais grave pelo fato de o episódio ter ocorrido no início do Black History Month (Mês da História Negra), período dedicado à valorização das contribuições afro-americanas e à reflexão crítica sobre o racismo estrutural nos Estados Unidos. A circulação de conteúdos que evocam estereótipos raciais nesse contexto não apenas fere a memória coletiva, como intensifica tensões já latentes em uma sociedade profundamente marcada por desigualdades raciais.
Não se trata de um caso isolado. Trump acumula um histórico de declarações e publicações que mobilizam temas sensíveis ligados a raça, imigração e identidade nacional, frequentemente despertando alertas de organizações de direitos humanos e de analistas que veem nesse padrão um risco concreto à coesão social. O que se repete não é o erro, mas a estratégia: tensionar limites, testar reações, deslocar o aceitável.
CUMPLICIDADE – A resposta oficial da Casa Branca, ao enquadrar a publicação como paródia ou exagero interpretativo, agrava o problema. Ao minimizar o episódio, autoridades contribuem para a ideia de que violações profundas podem ser tratadas como performance política, desconsiderando o peso histórico e social que carregam. Esse tipo de relativização transfere a responsabilidade para os ofendidos e enfraquece os mecanismos de responsabilização democrática.
Em sociedades já atravessadas por desigualdades raciais persistentes, a retórica presidencial não é neutra. Ela legitima divisões, reforça hierarquias e aprofunda polarizações. A linguagem do poder, quando orientada pela exclusão, deixa marcas que ultrapassam o ciclo eleitoral e se infiltram no cotidiano social.
A repercussão interna nos Estados Unidos — com críticas contundentes de lideranças políticas, ativistas e parte expressiva da opinião pública — evidencia que o episódio extrapola a esfera da controvérsia momentânea. Ele revela um ponto de inflexão em que o discurso institucional colide frontalmente com demandas históricas por igualdade e justiça racial, expondo a fragilidade dos pactos éticos que sustentam a vida democrática.
CONFRONTO – No fim, a questão não se resume a uma publicação específica de Donald Trump. Trata-se do confronto entre uma linguagem que tenta normalizar a exclusão e uma sociedade que ainda luta para afirmar valores de igualdade e dignidade humana.
Até que ponto uma comunidade política tolera a degradação sistemática do outro antes de perceber que já deixou de reconhecer a si mesma? Quando o poder normaliza a desumanização, não se trata apenas de retórica agressiva ou de lapsos morais: trata-se da prática explícita do racismo, uma violação frontal aos fundamentos democráticos e civilizatórios.
Negar a humanidade de grupos inteiros não é opinião, é agressão institucionalizada — e, nos dias de hoje, não pode mais ser relativizada, naturalizada ou absorvida como ruído do debate público. É uma conduta intolerável, que exige responsabilização política, jurídica e moral. O futuro que se constrói a partir desse flerte com a barbárie não é apenas excludente; é corrosivo, porque destrói, junto com o outro, os próprios valores que sustentam a vida democrática.