
Movimento de distensão ocorre desde o fim do ano
Victoria Azevedo
O Globo
Integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que a saída do governador Ronaldo Caiado do União Brasil representa mais uma possibilidade de o Planalto se aproximar da sigla, buscando a neutralidade do partido na disputa pela Presidência da República nas eleições deste ano. Caiado anunciou que se filiará ao PSD.
A relação do União Brasil com o governo Lula foi marcada por altos e baixos nos últimos três anos, apesar de a legenda ter três representantes na Esplanada: Waldez Góes (Desenvolvimento Regional), Frederico de Siqueira Filho (Comunicações) e Gustavo Feliciano (Turismo). Os dois primeiros foram indicados pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o terceiro foi endossado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), já que são aliados locais na Paraíba.
FUSÃO – Criado a partir da fusão do DEM e do PSL, o partido tem uma ala mais ligada à oposição ao petista e outra mais governista. Atualmente, a sigla é presidida por Antonio Rueda. O União Brasil deve formar uma superfederação com o PP, estabelecendo a maior bancada na Câmara e uma das maiores no Senado — o processo está sendo analisado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Integrantes do governo federal admitem que não terão apoio da federação à campanha de Lula à reeleição, mas dizem trabalhar com o cenário em que as duas siglas não formalizem uma coligação com a candidatura bolsonarista e buscam a neutralidade do grupo a nível nacional, com a liberação de seus filiados.
Há uma avaliação entre governistas que a saída de Caiado abre possibilidades para uma aproximação com o União, visto que o governador de Goiás é um político que faz dura oposição a Lula, mas dizem que esse é um processo que já vinha acontecendo desde o fim do ano passado. Nas palavras de um auxiliar presidencial, esse movimento de Caiado não muda o jogo político da eleição, mas representa mais um sinal para a melhoria na relação.
DISTENSÃO – Após um momento considerado mais sensível da relação do partido com o governo federal, quando Rueda antecipou a obrigatoriedade de seus filiados deixarem o Executivo após ter sido alvo de críticas de Lula em reunião ministerial do petista, interlocutores dos dois campos políticos passaram a atuar para distensionar a relação.
No fim do ano, Rueda se reuniu com a ministra Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais) em encontro que selou a indicação de Feliciano para o Ministério do Turismo no lugar de Celso Sabino (União Brasil-PA). Deputado federal licenciado, Sabino foi expulso do partido após ter contrariado determinação da sigla e permanecido na gestão petista.
Com a mudança no comando da pasta, governistas dizem esperar o apoio de cerca de 25 dos 59 deputados da legenda no projeto de reeleição de Lula neste ano. Além disso, com a recuperação da popularidade de Lula, políticos do Centrão que antes defendiam um maior afastamento do Planalto passaram a rever essa posição. Além disso, pesou nesse cenário a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Planalto, que contrariou partidos do Centrão que buscavam unir apoio em torno de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
PALANQUES ESTADUAIS – Integrantes do PT e do Planalto dizem que essa aproximação com as siglas do Centrão não significa apoio a Lula nem ao governo como o todo, mas dizem ser possível atrair segmentos desses partidos a partir da formação dos palanques estaduais — para já garantir alianças locais e impedir uma aproximação desses partidos com o bolsonarismo.
No Ceará, por exemplo, petistas defendem abrir uma vaga na chapa majoritária para um indicado do União Brasil. Nesse cenário, é citado como exemplo o deputado Moses Rodrigues (União-CE) para uma possível vaga ao Senado. Uma ala do União no estado, no entanto, defende aliança com Ciro Gomes (PSDB), que deve ser candidato ao governo contra a candidatura do PT.
PACTO – Um governista afirma, sob reserva, que uma outra possibilidade dessa aproximação pode passar pelo estabelecimento de um pacto de não agressão, com redução de críticas de integrantes do União Brasil ao governo e vice e versa. No ano passado, Lula ficou irritado com críticas feitas por Rueda e outros integrantes do partido à gestão.
Dois dirigentes da federação dizem, também sob reserva, que a saída de Caiado não muda o cenário eleitoral que vinha sendo traçado pelo grupo, já que não levavam a sério que a candidatura do governador seria oficializada. Um deles diz ainda que a federação não trata do cenário nacional neste momento, numa sinalização de que ainda não há definições se bloco apoiará algum candidato ou se manterá neutro.