Geopolítica além do senso comum: a Venezuela, o chavismo e os equívocos de parte do Brasil
É lamentável constatar que uma parcela significativa dos brasileiros ainda não compreende minimamente o funcionamento da geopolítica mundial e, por consequência, acaba sendo facilmente enganada por narrativas simplistas, seletivas e, muitas vezes, deliberadamente manipuladas. A realidade internacional é muito mais complexa do que os discursos prontos difundidos por setores ideológicos e pela grande mídia.
O que ocorreu recentemente na Venezuela é um exemplo claro disso. O presidente Nicolás Maduro foi, na prática, sequestrado do jogo político internacional por pressões externas e manobras diplomáticas, mas o Estado venezuelano não ruiu, tampouco o chavismo foi derrotado. Pelo contrário: o projeto político iniciado por Hugo Chávez continua vivo e operante, sustentado por uma base institucional e popular sólida.
A sucessão constitucional foi respeitada. A vice-presidente, eleita pelo voto popular dentro do mesmo projeto político, assumiu a Presidência, garantindo continuidade administrativa e institucional. Isso não é “golpe”, como muitos tentam propagar, mas exercício de soberania, algo que incomoda profundamente interesses estrangeiros.
É preciso observar com atenção o discurso — ou a ausência dele — das grandes potências. Donald Trump, até o momento, não demonstrou qualquer preocupação real com soberania, democracia ou direitos humanos na Venezuela. Sua fala é objetiva e reveladora: petróleo e ouro. Não por acaso, a Venezuela detém algumas das maiores reservas de petróleo do mundo, além de vastas riquezas minerais estratégicas.
A história se repete. Sempre que um país do Sul Global tenta controlar seus próprios recursos naturais e definir seu destino sem submissão aos interesses externos, passa a ser rotulado como “ditadura”, “ameaça à democracia” ou “regime ilegítimo”. A pauta humanitária surge apenas como verniz moral para justificar sanções, bloqueios e tentativas de isolamento internacional.
Enquanto isso, a oposição venezuelana, que apostou todas as suas fichas na tutela estrangeira, acabou isolada e jogada no escanteio da própria história. Ao invés de construir um projeto nacional, preferiu servir como instrumento de interesses externos. O resultado foi previsível: perdeu relevância política, apoio popular e capacidade de articulação real dentro do país.
Esse fenômeno guarda semelhanças evidentes com o que ocorre hoje com a direita no Brasil. Ao invés de dialogar com a realidade concreta do povo brasileiro, muitos setores optaram por importar discursos prontos, alinhar-se automaticamente a agendas estrangeiras e desacreditar as próprias instituições nacionais. O resultado é o isolamento político, a perda de credibilidade e a incapacidade de apresentar propostas viáveis para o país.
Geopolítica não é torcida organizada. Não se trata de gostar ou não de Maduro, de Chávez ou de qualquer outro líder. Trata-se de entender interesses estratégicos, disputas de poder, controle de recursos e soberania nacional. Quem ignora isso está condenado a repetir slogans, enquanto outros decidem os rumos do mundo.
A Venezuela segue resistindo não por acaso, mas porque compreendeu, há décadas, que independência política só existe quando um país controla seus recursos, fortalece suas instituições e não se curva a pressões externas. O Brasil, por sua vez, precisa aprender com a história recente e abandonar o amadorismo geopolítico, sob pena de continuar sendo apenas espectador das grandes decisões globais.
Entender o mundo é o primeiro passo para não ser enganado por ele