
Direita expõe o esgotamento de um projeto de poder
Marcelo Copelli
Revista Fórum
Quando Tarcísio de Freitas atravessou os portões da prisão para visitar Jair Bolsonaro e, logo depois, anunciou que disputará a reeleição em São Paulo, algo mais profundo do que uma demonstração de lealdade política se consolidou.
A cena, lida nos bastidores como deferência — senão como acatamento — ao ex-presidente, produz efeitos que extrapolam o tabuleiro paulista: sela a retirada do único nome capaz de operar como válvula de escape institucional do bolsonarismo e expõe, de forma contundente, a inexistência de um herdeiro político capaz de organizar esse campo em torno de algo que não seja o próprio Bolsonaro. Ao permanecer no Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio preserva capital eleitoral regional, mas confirma um vazio nacional que não foi preenchido por projeto, liderança ou consenso.
SUBORDINAÇÃO – Mais do que lealdade, o gesto revela subordinação. Ao reiterar que “faz parte do time”, Tarcísio aceita publicamente o lugar que lhe foi reservado: o de gestor eficiente, tecnicamente elogiado, mas politicamente tutelado. No bolsonarismo, autonomia não é virtude — é ameaça. E quem ameaça, sai do jogo. O episódio sintetiza uma lógica que se repete desde 2018: Bolsonaro até admite aliados fortes, desde que não sejam fortes demais a ponto de substituí-lo.
O bolsonarismo, que sempre operou como movimento personalista, cobra agora o preço de sua própria dependência. Bolsonaro, mesmo inelegível, segue como um polo de gravidade incontornável. A consequência é paradoxal: quanto mais centraliza, menos produz sucessão. Ao bloquear o surgimento de alternativas autônomas, preserva sua hegemonia simbólica no curto prazo, mas inviabiliza qualquer projeto competitivo de poder no médio prazo — transformando liderança em veto permanente.
A indicação de Flávio Bolsonaro não resolve o problema; ao contrário, o escancara. Flávio herda o sobrenome, parte do eleitorado fiel e o acesso ao núcleo duro bolsonarista, mas não herda densidade política, capacidade de ampliação ou protagonismo próprio. Falta musculatura eleitoral, falta densidade programática e falta capilaridade fora do clã — diagnóstico que não vem apenas de críticos externos. O pastor Silas Malafaia, peça central na engrenagem bolsonarista, foi direto ao apontar a fragilidade do senador. A crítica interna é reveladora porque rompe o pacto tácito do silêncio e expõe o desconforto de um campo que começa a reconhecer seus limites.
SEM MICHELLE – O problema se aprofunda com a ausência de Michelle Bolsonaro do tabuleiro. Embora mantenha popularidade entre segmentos conservadores e evangélicos, ela não demonstra disposição real para assumir o protagonismo presidencial. Sem Michelle, o bolsonarismo perde sua principal ponte com o eleitorado feminino e religioso fora do núcleo radicalizado. Sem Tarcísio, perde sua única figura com trânsito institucional, credibilidade administrativa e capacidade de diálogo para além da bolha ideológica. O que sobra é um movimento barulhento, mas eleitoralmente frágil — mobilizado emocionalmente, porém empobrecido em perspectiva de poder.
Nesse cenário, a decisão de Tarcísio atua como catalisador da fragmentação. Governadores como Ronaldo Caiado ensaiam caminhos próprios; partidos orbitam sem eixo; lideranças regionais testam discursos sem coordenação nacional. O campo conservador caminha para 2026 dividido, com múltiplas pré-candidaturas frágeis e nenhuma narrativa capaz de organizar o eleitorado em torno de um projeto de país. Há disputa interna, mas falta horizonte comum.
O Centrão, fiel ao seu pragmatismo histórico, percebe o cenário com antecedência. Sem um nome competitivo e confiável nesse campo, evita compromissos prematuros e passa a negociar no varejo, apostando em composições circunstanciais. O bloco fisiológico não aposta em causas; aposta em poder. E, em 2026, esse poder não se apresenta de forma clara no campo conservador.
FRUSTRAÇÃO – Na Faria Lima, o sentimento é de frustração estratégica. Tarcísio era visto como uma aposta funcional para organizar uma alternativa conservadora sem ruptura institucional, ainda que distante de qualquer consenso popular. Sua retirada do jogo presidencial não apenas frustra expectativas: revela a inexistência de um plano B. Flávio Bolsonaro não inspira confiança econômica, não dialoga com o empresariado e não oferece previsibilidade.
Nada disso aponta para uma extinção imediata, mas evidencia um processo avançado de desgaste. Ao longo dos últimos anos, esse campo político recusou a renovação, apostou na tutela personalista e confundiu mobilização permanente com projeto de poder. Hoje, paga o preço dessa escolha: fala alto, mas organiza pouco. A decisão de Tarcísio por São Paulo é racional no plano individual; no plano coletivo, é apenas mais um sinal de um campo que perdeu capacidade de se projetar nacionalmente.
TUTELA – O paradoxo final é cruel. Bolsonaro, ao impedir o surgimento de um sucessor forte, preserva sua centralidade simbólica — mas condena seu campo político à estagnação. Tarcísio, ao aceitar a tutela, preserva seu futuro local — mas abdica de qualquer papel nacional. Entre um e outro, a direita brasileira paga o preço de ter se organizado em torno de um nome, e não de uma ideia.
Em 2026, poderá haver rua, ruído e mobilização permanente. O que não haverá é sucessão, coesão ou horizonte nacional. O bolsonarismo chega à disputa aprisionado ao próprio passado, incapaz de produzir futuro, refém de uma liderança que já não pode concorrer — e diante de um vazio político que não lhe foi imposto por adversários, mas construído por suas próprias escolhas.