segunda-feira, janeiro 05, 2026

Entre a Herança Maldita e a Realidade Fiscal: Os Desafios dos Prefeitos e o Caso de Jeremoabo


Entre a Herança Maldita e a Realidade Fiscal: Os Desafios dos Prefeitos e o Caso de Jeremoabo


Por José Montalvão

Governar um município brasileiro, especialmente no interior, tem se tornado uma missão cada vez mais árdua. Longe do discurso fácil e das promessas milagrosas, a realidade que se impõe aos prefeitos é dura, limitada por números, dívidas herdadas e um modelo de financiamento que penaliza quem está na ponta, lidando diretamente com as necessidades da população.

Jeremoabo não foge à regra. Assim como a maioria dos municípios brasileiros, a cidade enfrenta sérias dificuldades para manter suas finanças em dia. Um dos maiores entraves é a chamada “herança maldita”, especialmente os débitos previdenciários impagáveis, acumulados ao longo de anos por gestões anteriores. Essas dívidas consomem uma parte significativa da receita mensal, comprometem o orçamento e engessam a capacidade de investimento do município.

O prefeito Tista de Deda assumiu uma prefeitura inadimplente, com contas atrasadas, fornecedores sem receber e obrigações legais vencidas. Em um cenário como esse, qualquer gestor responsável se vê diante de decisões difíceis e impopulares. Para tentar equilibrar o orçamento, muitas vezes seria necessário cortar empregos, extinguir gratificações e promover uma reforma administrativa com redução de gastos com pessoal. Contudo, esse caminho representa um enorme retrocesso social em um município que já sofre com a escassez de oportunidades de trabalho. Demitir servidores significaria aprofundar o desemprego, reduzir renda e afetar diretamente dezenas de famílias jeremoabenses.

Ao mesmo tempo, a população tem demandas legítimas — e justas. Todos querem festas bem organizadas, com bandas de qualidade; querem uma cidade limpa, sem buracos, estradas em boas condições, água de qualidade, saúde funcionando, escolas estruturadas e professores valorizados, com salários pagos em dia. Nada disso é exagero. O problema é simples e cruel: tudo isso custa dinheiro.

O prefeito não é um milagreiro. Não faz mágica. Sem receita suficiente, não há como atender todas as demandas ao mesmo tempo. Por isso, setores acabam falhando momentaneamente, obras atrasam e buracos permanecem mais tempo do que a população gostaria. Não é por falta de vontade, mas por limitação financeira real.

Esse drama não é exclusivo de Jeremoabo. Pesquisa da Confederação Nacional de Municípios (CNM) revela que quase um terço das prefeituras brasileiras está com pagamentos de fornecedores atrasados. Dos 5.568 municípios do país, 1.202 (28,8%) admitem atrasos. Falta material básico: produtos de limpeza, material de escritório e até o café servido nas repartições públicas entram na lista de ameaças.

Segundo o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, o crescente endividamento municipal é consequência direta do aumento das obrigações impostas aos municípios, sem a contrapartida de receitas suficientes. O número de servidores públicos saltou de 5 milhões para 8,3 milhões, elevando drasticamente os gastos com folha de pagamento e previdência. O alerta é grave: nunca se viveu um momento tão crítico para as finanças municipais.

Outro dado preocupante é que 31% das prefeituras vão empurrar despesas de 2025 para 2026, os chamados “restos a pagar”, sem garantia de recursos. Isso cria um ciclo vicioso de endividamento que estrangula ainda mais os gestores seguintes.

Do ponto de vista econômico, o problema é estrutural. Como explica o economista Samuel Dourado, a maior parte da arrecadação fica com a União. Os municípios recebem responsabilidades crescentes — piso dos enfermeiros, Mais Médicos, escolas em tempo integral, programas sociais —, mas sem aumento proporcional nos repasses, como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O resultado é uma pressão orçamentária constante e uma saúde fiscal cada vez mais frágil.

Medidas recentes, como a proposta de aposentadoria integral para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias, embora socialmente justas, aumentam ainda mais a preocupação das prefeituras, que não sabem como arcar com esses custos no futuro.

Diante desse quadro, é preciso maturidade, compreensão e senso de responsabilidade coletiva. Cobrar é legítimo, mas é fundamental compreender os limites financeiros e a realidade herdada. Jeremoabo vive um processo de reconstrução, enfrentando dívidas, inadimplência e escassez de recursos, enquanto tenta manter serviços essenciais funcionando.

Administrar com pouco, pagando dívidas antigas e tentando avançar, é um desafio que poucos enxergam, mas que define o dia a dia de quem governa. E enquanto o modelo federativo não mudar, essa continuará sendo a dura realidade dos municípios brasileiros.

Fonte: Brasil 61

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